{"id":232,"date":"2013-07-30T10:55:01","date_gmt":"2013-07-30T13:55:01","guid":{"rendered":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=232"},"modified":"2013-07-30T10:55:01","modified_gmt":"2013-07-30T13:55:01","slug":"a-proposito-das-canonizacoes-atuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=232","title":{"rendered":"A Prop\u00f3sito das Canoniza\u00e7\u00f5es Atuais"},"content":{"rendered":"<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rtecenter\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Apresenta\u00e7\u00e3o de D. Louren\u00e7o Fleichman<\/span><\/span> OSB<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O texto que segue foi publicado no nosso antigo site Capela. Como o tema volta \u00e0 atualidade com o an\u00fancio da canoniza\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII e de Jo\u00e3o Paulo II,&nbsp; aproveitamos para republic\u00e1-lo. A introdu\u00e7\u00e3o antiga segue abaixo:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Que algumas canoniza\u00e7\u00f5es atuais deixam perplexos os cat\u00f3licos, tanto no ambiente tradicional como mesmo entre muitos oficialistas, todos j\u00e1 sabem. De um modo geral, o que se ouve nas conversas e discuss\u00f5es sobre este assunto s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es de opini\u00f5es, ou peti\u00e7\u00f5es de princ\u00edpio. O Papa \u00e9 infal\u00edvel nas canoniza\u00e7\u00f5es, logo, n\u00e3o haveria com o que se preocupar. Se Jo\u00e3o XXIII ou Escriv\u00e1 de Balaguer n\u00e3o parecem santos em suas vidas, seria unicamente por erro de avalia\u00e7\u00e3o de alguns cat\u00f3licos sect\u00e1rios e exagerados.<\/em><\/span><\/span> <a href=\"http:\/\/permanencia.org.br\/drupal\/node\/3554\">Leia mais<\/a><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rtecenter\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Apresenta\u00e7\u00e3o de D. Louren\u00e7o Fleichman<\/span><\/span> OSB<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O texto que segue foi publicado no nosso antigo site Capela. Como o tema volta \u00e0 atualidade com o an\u00fancio da canoniza\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII e de Jo\u00e3o Paulo II,&nbsp; aproveitamos para republic\u00e1-lo. A introdu\u00e7\u00e3o antiga segue abaixo:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Que algumas canoniza\u00e7\u00f5es atuais deixam perplexos os cat\u00f3licos, tanto no ambiente tradicional como mesmo entre muitos oficialistas, todos j\u00e1 sabem. De um modo geral, o que se ouve nas conversas e discuss\u00f5es sobre este assunto s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es de opini\u00f5es, ou peti\u00e7\u00f5es de princ\u00edpio. O Papa \u00e9 infal\u00edvel nas canoniza\u00e7\u00f5es, logo, n\u00e3o haveria com o que se preocupar. Se Jo\u00e3o XXIII ou Escriv\u00e1 de Balaguer n\u00e3o parecem santos em suas vidas, seria unicamente por erro de avalia\u00e7\u00e3o de alguns cat\u00f3licos sect\u00e1rios e exagerados.<\/em><\/span><\/span> <a href=\"http:\/\/permanencia.org.br\/drupal\/node\/3554\">Leia mais<\/a><\/p>\n<p><!--break--><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Ora, num assunto desta ordem n\u00e3o conv\u00e9m que se mantenha a discuss\u00e3o apenas no n\u00edvel das opini\u00f5es e do senso comum. Como j\u00e1 \u00e9 nosso costume, procuramos analisar as coisas da vida da Igreja, principalmente quando se trata de defender nossa f\u00e9 cat\u00f3lica, com a profundidade que pede a gravidade da hora.<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Que me perdoem se eu cito aqui os padres de Campos. Mas n\u00e3o poderia deixar de assinalar o espanto com que os vimos correr para venerar publicamente um liberal ecum\u00eanico, modelo exemplar do que foi o Conc\u00edlio Vaticano II. Fico chocado de ve-los de joelhos diante de um homem que sempre foi visto por esses mesmos padres como pertencendo a essa nova igreja ecum\u00eanica. E os argumentos que usam visam apenas a mover a consci\u00eancia dos fi\u00e9is mais humildes e sem forma\u00e7\u00e3o. Interessa para eles n\u00e3o aprofundar teologicamente a quest\u00e3o, pois a evid\u00eancia aparece a qualquer um que estude com serenidade e com crit\u00e9rios cat\u00f3licos o que seja uma canoniza\u00e7\u00e3o e o que s\u00e3o as canoniza\u00e7\u00f5es no mundo do Vaticano II.<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Lex orandi, lex credendi &#8211; \u00e0 doutrina de Vaticano II n\u00e3o poderia deixar de&nbsp; corresponder a piedade de Vaticano II, as ora\u00e7\u00f5es ecum\u00eanicas e os santos ecum\u00eanicos de Vaticano II. Assim como sua doutrina \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 doutrina ensinada pela Igreja ao longo de dois mil anos, assim tamb\u00e9m seus santos n\u00e3o s\u00e3o santos cat\u00f3licos. Em suma: bastaria apagar da vida cat\u00f3lica este conc\u00edlio e seu esp\u00edrito anti-cat\u00f3lico para que todas as coisas voltassem aos seus eixos, na vida da Igreja.<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>O texto abaixo, de<\/em> <em>responsabilidade da Fraternidade S\u00e3o Pio X, mostra com clareza onde e como um cat\u00f3lico deve entender esta delicada quest\u00e3o. Porque s\u00e3o inv\u00e1lidas as canoniza\u00e7\u00f5es de homens que n\u00e3o foram santos; porque s\u00e3o tamb\u00e9m inv\u00e1lidas as canoniza\u00e7\u00f5es de homens que, tendo sido comprovadamente de alta santidade, como foi o Pe. Pio, receberam dos papas de Vaticano II uma processo de canoniza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais cat\u00f3lico.&nbsp; <\/em>(fonte: <a href=\"http:\/\/www.dici.org\">www.dici.org<\/a>).<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>A PROP\u00d3SITO DAS CANONIZA\u00c7\u00d5ES ATUAIS<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ao abordar este assunto, estamos conscientes de levantar um problema extremamente delicado que, por desejo natural da paz e da conc\u00f3rdia, preferir\u00edamos n\u00e3o ter que abordar. Se h\u00e1 um dom\u00ednio em que gostar\u00edamos de seguir o papa, \u00e9 a luta contra a tend\u00eancia neoprotestante da dessacraliza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Entretanto, somos for\u00e7ados a constatar no correr dos anos n\u00e3o somente uma multiplica\u00e7\u00e3o espantosa das beatifica\u00e7\u00f5es e canoniza\u00e7\u00f5es \u2013 voltaremos a esse assunto depois \u2013 mas igualmente uma escolha dos processos que provoca uma igualdade entre personagens \u00e0s vezes doutrinariamente opostos. A beatifica\u00e7\u00e3o dos papas Pio IX e Jo\u00e3o XXIII em 1999 foi um exemplo dos mais flagrantes. As canoniza\u00e7\u00f5es, em alguns meses de dist\u00e2ncia, do Padre Pio e de Jos\u00e9 Escriv\u00e1 de Balaguer serve igualmente para perturbar o esp\u00edrito de quem faz uso ainda do princ\u00edpio de n\u00e3o-contradi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O presente trabalho n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de fechar a quest\u00e3o, isto n\u00e3o nos compete. Sem d\u00favida o magist\u00e9rio da Igreja, num futuro mais ou menos long\u00ednquo, nos dar\u00e1 mais luzes que a Roma atual e trar\u00e1 precis\u00f5es quanto a alguns casos de beatifica\u00e7\u00f5es ou canoniza\u00e7\u00f5es<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn1\" title=\"\">[fn]<\/a> Somente as canoniza\u00e7\u00f5es sendo consideradas pelos te\u00f3logos como infal\u00edveis, nosso estudo nos leva diretamente a estas. Entretanto, dado que o mesmo esp\u00edrito anima tanto as canoniza\u00e7\u00f5es quanto as beatifica\u00e7\u00f5es, faremos \u00e0s vezes uso de alguns exemplos de beatifica\u00e7\u00f5es. <a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn1\" title=\"\">[\/fn]<\/a>duvidosos.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Que o leitor n\u00e3o se escandalize com essa afirma\u00e7\u00e3o que implicaria um relativismo do magist\u00e9rio da Igreja. N\u00e3o \u00e9 o magist\u00e9rio em si mesmo que \u00e9 relativo, mas a compreens\u00e3o que t\u00eam dele os que o exercem hoje. De fato, a compreens\u00e3o do conceito de Tradi\u00e7\u00e3o comporta uma tal flexibilidade que o que \u00e9 entendido num sentido hoje, poder\u00e1 ser num sentido completamente oposto amanh\u00e3. Nesse contexto, pensamos que \u00e9 poss\u00edvel abordar a quest\u00e3o da infalibilidade das canoniza\u00e7\u00f5es atuais mantendo, por nossa parte, nossa ades\u00e3o \u00e0 doutrina comum. A fim de evitar todo mal entendido, esclarecemos ainda que n\u00e3o se trata aqui de fazer um trabalho de discernimento das canoniza\u00e7\u00f5es, procurando as que poderiam ser v\u00e1lidas, e as que n\u00e3o seriam. Ainda uma vez, n\u00e3o pertence a n\u00f3s essa tarefa. Nossa reflex\u00e3o \u00e9 de outra ordem, ela se concentra sobre o esp\u00edrito e a inten\u00e7\u00e3o com que essas canoniza\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas pela autoridade, hoje. Que n\u00e3o se impressionem se levantamos quest\u00f5es que abrangem tamb\u00e9m canoniza\u00e7\u00f5es de pessoas cuja santidade j\u00e1 \u00e9 provada publicamente por milagres e feitos extraordin\u00e1rios conhecidos, como \u00e9 o caso de um Padre Pio, e nos quais a interven\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio \u00e9, de certo modo, a san\u00e7\u00e3o da <em>vox populi<\/em>.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A fim de progredir de modo claro na argumenta\u00e7\u00e3o come\u00e7aremos por definir as no\u00e7\u00f5es, o que nos levar\u00e1 a considerar num primeiro momento a doutrina tradicional quanto \u00e0 canoniza\u00e7\u00e3o. Num segundo momento, nos voltaremos para as canoniza\u00e7\u00f5es depois do conc\u00edlio Vaticano II, para chegarmos enfim nas conclus\u00f5es, as quais ser\u00e3o pistas de reflex\u00e3o e n\u00e3o julgamentos definitivos.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>Parte I: A doutrina tradicional<\/strong><a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn2\">[fn]<\/a> Bento XIV: de Servorum <em>Dei beatificatione et de Beatorum canonizatione<\/em>, livro l, cap\u00edtulo 39.[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>A &#8211; Hist\u00f3rico<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Lancemos um olhar sobre a hist\u00f3ria, o que nos permitir\u00e1 discernir melhor a realidade da canoniza\u00e7\u00e3o. Na origem, encontramos o exerc\u00edcio espont\u00e2neo de um culto p\u00fablico dado a um fiel falecido, exprimindo a santidade deste e dando em exemplo suas virtudes. O primeiro culto foi dado aos santos m\u00e1rtires, o povo recolhia rel\u00edquias dessas v\u00edtimas da persegui\u00e7\u00e3o, edificava altares sobre seus t\u00famulos e os padres ali celebravam a missa. Os primeiros exemplos remontam ao s\u00e9culo II e a pr\u00e1tica \u00e9 universal no s\u00e9culo III. Este culto devia ser autenticado pelo bispo: a disciplina distingue de fato os m\u00e1rtires reconhecidos e aqueles que n\u00e3o o s\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Foi somente no s\u00e9culo IV que a canoniza\u00e7\u00e3o se estendeu \u00e0queles que, mesmo n\u00e3o tendo tido a ocasi\u00e3o de derramar seu sangue pela f\u00e9, ilustrou-se de virtudes eminentes. A disciplina n\u00e3o varia: \u00e9 aos bispos que incumbe reconhecer a santidade; mas, sobretudo no fim do s\u00e9culo XI, os papas reclamam, para maior seguran\u00e7a, que o exame das virtudes e dos milagres se fa\u00e7a num quadro de um conc\u00edlio, de prefer\u00eancia um conc\u00edlio geral. Qual \u00e9 o estatuto jur\u00eddico desse reconhecimento oficial: trata-se de uma beatifica\u00e7\u00e3o ou de uma canoniza\u00e7\u00e3o? Os testunhos que nos deixou a hist\u00f3ria n\u00e3o nos permite saber com toda a certeza. Mas, se levamos em conta uma raz\u00e3o teol\u00f3gica necess\u00e1ria, parece muito prov\u00e1vel que se tratava de simples beatifica\u00e7\u00f5es, o poder de um bispo n\u00e3o ultrapassando os limites de sua diocese<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn3\" title=\"\">[fn]<\/a> Tal \u00e9 a opini\u00e3o dada por Bento XIV no seu <em>Servorum Dei beatificatione et Beatorum canonizatione<\/em>, livro, cap\u00edtulo 10, \u00a76: \u201c<em>\u00c9 certo que nenhum bispo nunca pode proceder a verdadeiras canoniza\u00e7\u00f5es; de fato, o poder de prescrever que um fiel seja honrado como santo na Igreja universal por um culto p\u00fablico, n\u00e3o pode e nunca pode se voltar para aquele que possui uma jurisdi\u00e7\u00e3o restrita a uma diocese ou a uma prov\u00edncia, mas deve pertencer somente \u00e0quele que tem o poder sobre a Igreja universal.<\/em>\u201d[\/fn]. \u201cO culto s\u00f3 se elevava \u00e0 dignidade de uma canoniza\u00e7\u00e3o se passasse de diocese em diocese e se estendesse \u00e0 Igreja universal, com o assentimento expresso ou t\u00e1cito do Soberano Pont\u00edfice\u201d<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn4\" title=\"\">[fn]<\/a> Ortolan, artigo \u201cCanonisation\u201d, Dictionaire de Th\u00e9ologie Catholique (DTC), tomo 4, col.1632.[\/fn]. Ou seja, se \u00e9 admitido explicitamente que somente o bispo pode proceder a uma beatifica\u00e7\u00e3o, no que concerne a canoniza\u00e7\u00e3o a disciplina em uso implica que somente o papa seja provido da compet\u00eancia necess\u00e1ria.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Acha-se enfim uma Constitui\u00e7\u00e3o do papa Alexandre III, datada de 1170, inserida no <em>Corpus j\u00faris canonici<\/em> <a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn5\" title=\"\">[fn]<\/a> Livro 3 dos D\u00e9cr\u00e9tales, t\u00edtulo 45, cap\u00edtulo l.[\/fn] que mostra explicitamente a regra disciplinar: a faculdade de decretar as beatifica\u00e7\u00f5es na sua diocese \u00e9 retirada dos bispos e reservada ao Soberano Pont\u00edfice; e ent\u00e3o, a <em>fortiori,<\/em> a canoniza\u00e7\u00e3o propriamente dita continua prerrogativa do Soberano Pont\u00edfice. Esta pr\u00e1tica, sabemos, n\u00e3o se fez de imediato e em todos os lugares conforme a esse princ\u00edpio, e os bispos sempre consideraram a <em>Constitui\u00e7\u00e3o<\/em> de Alexandre III como letra morta.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A controv\u00e9rsia foi definitivamente encerrada pelos decretos do papa Urbano VIII de 13 de mar\u00e7o e de 2 de outubro de 1625, de in\u00edcio promulgadas em Roma e depois publicadas com uma confirma\u00e7\u00e3o especial no breve <em>Coelestis Jerusal\u00e9m cives<\/em> de 5 de julho de 1634. A partir desse momento, est\u00e1 fora de contesta\u00e7\u00e3o, de fato como de direito, que somente o Soberano Pont\u00edfice pode proceder \u00e0s beatifica\u00e7\u00f5es e as canoniza\u00e7\u00f5es.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Notemos que quando ele opera essa promulga\u00e7\u00e3o o papa pode recorrer a instrumentos que v\u00e3o interferir anteriormente na canoniza\u00e7\u00e3o propriamente dita, fazendo o papel de conselhos destinados a esclarecer a prud\u00eancia do legislador:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; h\u00e1 o processo regularmente instru\u00eddo: ele desemboca sobre a canoniza\u00e7\u00e3o formal. Esta pode se definir como a senten\u00e7a que termina um processo regularmente aberto e segue com todo o rigor do procedimento para constatar juridicamente a heroicidade das virtudes praticadas pelo servidor de Deus e a verdade dos milagres pelos quais Deus manifestou essa heroicidade. Essa senten\u00e7a \u00e9 ordinariamente dada pelo Soberano Pont\u00edfice durante uma solenidade particular;<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; h\u00e1 tamb\u00e9m, no curso da hist\u00f3ria, o culto espont\u00e2neo da piedade popular: quando o papa se contenta de autenticar, trata-se de uma canoniza\u00e7\u00e3o equipolente. Esta se define, ent\u00e3o, como a senten\u00e7a que n\u00e3o termina um processo de canoniza\u00e7\u00e3o, mas que o Soberano Pont\u00edfice emite para ratificar o culto que, desde um tempo imemor\u00e1vel \u00e9 publicamente dado a um servidor de Deus. \u00c9 necess\u00e1rio que as virtudes her\u00f3icas e os milagres desse servidor de Deus, mesmo n\u00e3o tendo sido juridicamente constatadas, tenham sido trazidas por narrativas dignas de f\u00e9 e fa\u00e7am o objeto da cren\u00e7a geral do povo crist\u00e3o. Essa senten\u00e7a \u00e9 considerada como dada quando a Santa S\u00e9 imp\u00f5e <em>de precepto<\/em> \u00e0 Igreja universal a celebra\u00e7\u00e3o da missa e a recita\u00e7\u00e3o do of\u00edcio em honra desse santo<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn6\" title=\"\">[fn]<\/a> Por exemplo, canoniza\u00e7\u00f5es de s\u00e3o Venceslau, duque de Bo\u00eamia e m\u00e1rtir, morto em 929 e cujo of\u00edcio foi imposto a Igreja universal por Bento XIII em 14 de mar\u00e7o de 1729; ou a de santa Margarida rainha da Esc\u00f3cia, morta em 1093 e cujo of\u00edcio foi imposto por Inoc\u00eancio XII em 15 de setembro de 1691.[\/fn]. \u00c9 nessa esp\u00e9cie de canoniza\u00e7\u00e3o que se arrumam a maior parte das que foram cumpridas antes de 1170 e \u00e9 tamb\u00e9m nessa categoria que figuram os casos duvidosos.[fn]O mais famoso \u00e9 o de Carlos Magno. O antipapa Pascal III, que se levantou contra o papa leg\u00edtimo Alexandre III, sob as inst\u00e2ncias do imperador Frederico Barbaroxa, tinha inscrito Carlos Magno no cat\u00e1logo dos santos, em 29 de dezembro de 1165. Ora, nenhum culto p\u00fablico tinha sido at\u00e9 ent\u00e3o rendido a esse pr\u00edncipe. Essa canoniza\u00e7\u00e3o, obra de um antipapa, nunca foi nem oficialmente aprovada nem oficialmente reprovada pela Santa S\u00e9. Os autores se dividem sobre esse assunto. Bento XIV pensa que nenhuma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria falta para que se possa tratar esse caso n\u00e3o como de uma canoniza\u00e7\u00e3o, mas de uma beatifica\u00e7\u00e3o eq\u00fcipolente (<em>de Servorum Dei<\/em>, livro l, cap\u00edtulo 9, \u00a7 4).[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>B &#8211; O que \u00e9 canoniza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>l. Defini\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A canoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 o ato solene pelo qual o Soberano Pont\u00edfice, julgando em \u00faltima inst\u00e2ncia e, emitindo uma senten\u00e7a definitiva, inscreve no cat\u00e1logo dos santos um servidor de Deus, anteriormente beatificado. Por esse ato, o papa declara que aquele que ele acaba de elevar sobre os altares reina verdadeiramente na gl\u00f3ria eterna, e ele ordena \u00e0 Igreja universal lhe prestar, em todo lugar, o culto devido aos santos<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn8\" title=\"\">[fn]<\/a> Cf. Belarmino e Bento XIV.[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O autor da canoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 o chefe de toda a Igreja. Porque se trata da salva\u00e7\u00e3o eterna e, logo, do bem comum de toda a sociedade, somente a autoridade leg\u00edtima tem o poder de promulgar a lei nesse dom\u00ednio. A canoniza\u00e7\u00e3o equivale, ent\u00e3o a um triplo julgamento soberano e definitivo pelo qual a Igreja afirma com autoridade:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">a) Que tal pessoa est\u00e1 na gl\u00f3ria eterna e , durante sua vida, praticou as virtudes sobrenaturais num grau her\u00f3ico;<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">b) Que essa pr\u00e1tica constitui para todos os fi\u00e9is da Igreja uma norma t\u00e3o segura que nela se conformando, est\u00e3o assegurados de participar da salva\u00e7\u00e3o eterna;<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">c) Que todo fiel deve dar sua ades\u00e3o a esses dois julgamentos a) e b) e professar sua ades\u00e3o tomando parte ao culto p\u00fablico que a Igreja vai, de hoje em diante, render ao santo canonizado para reconhecer oficialmente a heroicidade de sua virtude.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O santo \u00e9 dado como exemplo por suas virtudes. Pelo culto que lhe \u00e9 dado \u00e9 a gra\u00e7a eminente que n\u00f3s veneramos \u2013 atrav\u00e9s de sua pessoa \u2013 participa\u00e7\u00e3o \u00edntima na natureza de Deus.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>2. Canoniza\u00e7\u00e3o e beatifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">a) <em>Semelhan\u00e7as<\/em>: nos dois casos, o fim, o objeto e o autor s\u00e3o id\u00eanticos; e do ponto de vista da ess\u00eancia da lei, nos dois casos estamos diante de um julgamento que anuncia as virtudes her\u00f3icas de um santo ou de um bem-aventurado.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">b) <em>Diferen\u00e7as<\/em>: a beatifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um julgamento definitivo, mas sim um ato reform\u00e1vel que prepara a senten\u00e7a de canoniza\u00e7\u00e3o, enquanto que esta \u00faltima \u00e9 uma senten\u00e7a irreform\u00e1vel.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A beatifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um preceito, mas uma permiss\u00e3o, enquanto que a canoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 um preceito e constitui, ent\u00e3o, uma obriga\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A beatifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma lei que obrigue a Igreja universal, mas um privil\u00e9gio concedido a uma parte da Igreja universal (prov\u00edncia eclesi\u00e1stica, diocese, cidade, fam\u00edlia religiosa), enquanto que a canoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma lei cuja observa\u00e7\u00e3o \u00e9 prescrita \u00e0 Igreja universal.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>3. Infalibilidade<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>a) A beatifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um ato infal\u00edvel<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Em se tratando das beatifica\u00e7\u00f5es realizadas pelos bispos antes de 1170, est\u00e1 fora de d\u00favida que elas n\u00e3o poderiam se beneficiar da infalibilidade, pois, de direito, s\u00e3o atos que emanam de um sujeito que n\u00e3o pode jamais ser infal\u00edvel a t\u00edtulo pessoal. De fato, a hist\u00f3ria mostra que erros foram cometidos<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn9\" title=\"\">[fn]<\/a> Bento XIV , op. cit., livro l, cap\u00edtulo 42, \u00a76-7.[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Em se tratando das beatifica\u00e7\u00f5es que, depois de 1170, ficaram como privil\u00e9gio exclusivo da S\u00e9 apost\u00f3lica, \u00e9 veross\u00edmil que n\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m atos infal\u00edveis: esses atos, com efeito, n\u00e3o s\u00e3o definitivos, nem preceptivos; ora a infalibilidade s\u00f3 pode estar relacionada a um ato definitivo e preceptivo<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn10\" title=\"\">[fn]<\/a> Prova dessa menor:&nbsp; a causa final da infalibilidade \u00e9 de assegurar a unidade da f\u00e9; ora a unidade de f\u00e9, que \u00e9 o bem comum de toda sociedade eclesi\u00e1stica, deve ser assegurada por um ato definitivo e preceptivo.[\/fn]. Um privil\u00e9gio se aplica, por defini\u00e7\u00e3o, a uma mat\u00e9ria n\u00e3o necess\u00e1ria. Poderia-se distinguir entre as beatifica\u00e7\u00f5es equipolentes e as beatifica\u00e7\u00f5es formais, dizendo que as segundas oferecem mais garantias que as primeiras e que, por conseq\u00fc\u00eancia, a recusa de lhe conceder o assentimento que lhe \u00e9 devido constituiria uma falta mais grave,<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn11\" title=\"\">[fn]<\/a> Bento XIV, op. Cit. , livro l, cap\u00edtulo 42, \u00a7 9-10. Lembramos que \u201cn\u00e3o infal\u00edvel\u201dn\u00e3o significa \u201cdesprovido de todo valor\u201d. A certeza admite graus, e o t\u00edtulo de bem-aventurado pede o nosso respeito.[\/fn] sem para tanto atribuir a infalibilidade \u00e0 beatifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso igualmente considerar o argumento da universalidade: a beatifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o introduz o culto ao bem-aventurado na Igreja universal. Ora, os atos infal\u00edveis do magist\u00e9rio devem se estender \u00e0 Igreja universal.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>b) A canoniza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O conjunto \u2013 quase un\u00e2nime \u2013 dos te\u00f3logos at\u00e9 o conc\u00edlio Vaticano I ensina que o papa, quando canoniza um santo, exerce a prerrogativa da infalibilidade. Citemos sobretudo: S\u00e3o Tom\u00e1s<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn12\" title=\"\">[fn]<\/a> Quodlibet IX, q 8, art.16. S\u00e3o Tom\u00e1s lembra a causa final da infalibilidade: \u201c<em>Ensinar toda verdade que traga sobre as mat\u00e9rias necess\u00e1rias a salva\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. As canoniza\u00e7\u00f5es s\u00e3o um caso em que a lei trata sobre as mat\u00e9rias necess\u00e1rias \u00e0 salva\u00e7\u00e3o: \u201c<em>A honra que rendemos a um santo equivale a uma certa profiss\u00e3o de f\u00e9, onde afirmamos a gl\u00f3ria do santo<\/em>\u201d. O papa que canoniza um santo exprime indiretamente o direito divino e, com esse t\u00edtulo, seu ato ser\u00e1 infal\u00edvel.[\/fn] , Melchior Canon<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn13\" title=\"\">[fn]<\/a><em> De locis theologicis<\/em>, livro 5, cap\u00edtulo 5, q 5, art 3, conclus\u00e3o 3.[\/fn] e Bento XIV<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn14\" title=\"\">[fn]<\/a> Bento XIV, op, cit. , livro l, cap\u00edtulo 43.[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">H\u00e1, de in\u00edcio, um argumento de direito: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que o papa se engane canonizando um homem que seria reprov\u00e1vel, porque isso significaria ensinar algo contr\u00e1rio \u00e0 f\u00e9 e a moral, pois o papa ensinaria assim que poder\u00edamos nos salvar imitando o exemplo de quem foi conduzido por suas m\u00e1s a\u00e7\u00f5es \u00e0 dana\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">H\u00e1 tamb\u00e9m um argumento de fato que sublinha Bento XIV: nunca se achou um erro nas canoniza\u00e7\u00f5es as quais os papas puderam proceder<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn15\" title=\"\">[fn]<\/a> Ibidem, livro l, cap\u00edtulo 44. S\u00e3o Tom\u00e1s diz tamb\u00e9m na ad 2m do Quodlibet citado: \u201c<em>A divina Provid\u00eancia preserva a Igreja para que nessas mat\u00e9rias, ela n\u00e3o se engane pelos testemunhos fal\u00edveis dos homens<\/em>\u201d.[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>c) Valor dessa infalibilidade<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u00c9 a opini\u00e3o comum dos te\u00f3logos e a express\u00e3o de uma certa tradi\u00e7\u00e3o na Igreja; mas n\u00e3o \u00e9 ainda um dogma de f\u00e9 solenemente definido. Aquele que negasse essa infalibilidade n\u00e3o poderia ser considerado como her\u00e9tico.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>d) O caso do martirol\u00f3gio<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A inscri\u00e7\u00e3o de um personagem no martirol\u00f3gio n\u00e3o significa a canoniza\u00e7\u00e3o infal\u00edvel deste. O martirol\u00f3gio \u00e9 a lista que abrange n\u00e3o somente todos os santos canonizados, mas ainda os servidores de Deus que puderam ser beatificados, seja pelo Soberano Pont\u00edfice, seja pelos bispos antes de 1170<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn16\" title=\"\">[fn]<\/a> Bento XIV, op. Cit., livro l, cap\u00edtulo 43, \u00a714. Hist\u00f3rico do Martiriol\u00f3gio: Cf. <em>Tractatio de martyrologio romano<\/em>, de Baronius, encabe\u00e7ando a edi\u00e7\u00e3o de Bento XIV, nos cap\u00edtulos 4-9. O primeiro autor \u00e9 Eus\u00e9bio de Cesar\u00e9ia que escreveu em grego e que foi traduzido em latim por S\u00e3o Jer\u00f4nimo. A partir dessa primeira lista sobrevieram numerosas amplifica\u00e7\u00f5es.[\/fn]. E essas beatifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o infal\u00edveis<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn17\" title=\"\">[fn]<\/a> ibidem[\/fn]. Os t\u00edtulos de \u201c<em>sanctus<\/em>\u201d ou de \u201c<em>beatus\u201d<\/em> n\u00e3o t\u00eam, no martirol\u00f3gio, a significa\u00e7\u00e3o precisa que permitiria fazer a separa\u00e7\u00e3o entre santo canonizado e bem-aventurado.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>4. O objeto da canoniza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u00c9 de in\u00edcio e antes de tudo \u00e9 a santidade da pessoa e as virtudes her\u00f3icas que fazem par com a santidade. Os fatos miraculosos s\u00e3o secund\u00e1rios e ocasionais para atestar a heroicidade sobrenatural de suas virtudes. O sobrenatural dos milagres e dos fatos extraordin\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 evocado por si mesmo, mas somente para atestar a origem divina das virtudes e manifestar a eminente gra\u00e7a santificante.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>Precisemos ainda: de que santidade se trata? Em que ela consiste precisamente<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ela consiste na gra\u00e7a santificante possu\u00edda a um grau extraordin\u00e1rio, um tal grau de caridade divina que \u00e9 acompanhada de virtudes infusas e adquiridas praticadas at\u00e9 o hero\u00edsmo. Esse hero\u00edsmo das virtudes \u00e9 como o term\u00f4metro da santidade: l\u00e1 onde tem santidade verdadeira, tem tamb\u00e9m virtude her\u00f3ica, e l\u00e1 onde as virtudes s\u00e3o praticadas num grau her\u00f3ico e onde nenhuma virtude faz falta, h\u00e1 santidade. N\u00e3o sendo a gra\u00e7a apreendida pelos sentidos, o julgamento sobre a santidade se far\u00e1 a partir da heroicidade das virtudes.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">As virtudes infusas sendo conexas entre si \u2013 contrariamente aos defeitos \u2013 o organismo espiritual do santo comportar\u00e1 ent\u00e3o o conjunto das virtudes morais a um grau eminente; a menor falha nas virtudes morais infusas ser\u00e1 o sinal de que n\u00e3o h\u00e1, na pessoa em quest\u00e3o, um grau consumido de gra\u00e7a santificante.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Entretanto, a gra\u00e7a da caridade excede ao infinito a condi\u00e7\u00e3o natural comum a todos os homens: ela \u00e9 um dom gratuito que a natureza n\u00e3o saberia reivindicar como o que lhe \u00e9 pr\u00f3prio. S\u00e3o Tom\u00e1s adverte, a prop\u00f3sito da obten\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o sobrenatural, que \u201c<em>o bem proporcionado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o comum da natureza se realiza quase sempre, e s\u00f3 faz falta raramente. Enquanto que o bem que excede o estado comum das coisas se acha realizado somente por um pequeno n\u00famero, e a aus\u00eancia desse bem \u00e9 freq\u00fcente<\/em>\u201d<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn18\" title=\"\">[fn]<\/a> Ia , q 23, art.7, ad3m. S\u00e3o Tom\u00e1s ap\u00f3ia esses dizeres com o exemplo seguinte: \u201c<em>Assim se v\u00ea que a maior parte dos homens s\u00e3o dotados de um saber suficiente para a conduta de sua vida, e que aqueles que s\u00e3o chamados de idiotas ou insensatos, porque lhes falta esse conhecimento, s\u00e3o muito pouco numerosos. De mesmo s\u00e3o &nbsp;muito raros, entre os humanos, aqueles que alcan\u00e7am uma ci\u00eancia profunda das coisas intelig\u00edveis<\/em>\u201d.[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Podemos ent\u00e3o tirar, a prop\u00f3sito da santidade e da virtude her\u00f3ica que ela implica, a mesma conclus\u00e3o que S\u00e3o Tom\u00e1s estabelece falando da salva\u00e7\u00e3o eterna: \u201c<em>Porque a santidade, que consiste na caridade perfeita, excede o n\u00edvel comum da natureza, e, al\u00e9m disso, a partir do momento em que essa natureza foi privada da gra\u00e7a pela corrup\u00e7\u00e3o do pecado original, existem poucos homens santos. E mesmo nisso aparece soberanamente a miseric\u00f3rdia de Deus, que eleva alguns seres a uma santidade que falta ao maior n\u00famero, segundo o curso e a inclina\u00e7\u00e3o comum da natureza<\/em>\u201d<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn19\" title=\"\">[fn]<\/a> Ibidem. S\u00e3o Tom\u00e1s \u00e9 ent\u00e3o partid\u00e1rio da tese do pequeno n\u00famero de eleitos. Ainda devemos precisar que esse pequeno n\u00famero \u00e9 pequeno relativamente: os eleitos e os santos s\u00e3o menos numerosos que os danados e pecadores, mas por serem menos numerosos se comparamos com esse \u00faltimos, os eleitos e os santos podem ser em grande n\u00famero se os consideramos no absoluto. No Apocalipse S\u00e3o Jo\u00e3o contempla a multid\u00e3o dos eleitos e diz que essa multid\u00e3o \u00e9 inumer\u00e1vel: \u201c<em>turbam magnam quam dinumerare nemo poterat<\/em>\u201d (Apoc., 7,9). Cf. o Coment\u00e1rio sobre a Ep\u00edstola de S\u00e3o Paulo aos Romanos, cap\u00edtulo 12, li\u00e7\u00e3o 2 (sobre o vers\u00edculo 5): \u201cQuamvis enim sint pauci per comparationem ad infructuosam multitudinem damnatorum, secundum illud Matth, 7,14: arcta est via quae ducit ad vitam, et pauci inveniunt eam, tamen absolute loquendo sunt multi. Apoc, 7,9: post haec vidi turbam magnam, quam dinumerare nemo poterat\u201d.[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">H\u00e1 ent\u00e3o dois motivos que explicam porque a santidade \u2013 e, logo, a canoniza\u00e7\u00e3o que a d\u00e1 como exemplo \u2013 \u00e9 coisa rara: h\u00e1, de uma parte a transcend\u00eancia absoluta da gra\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, e h\u00e1, por outro lado, a corrup\u00e7\u00e3o do pecado original. Acrescentamos um terceiro motivo. A santidade que \u00e9 reconhecida pela canoniza\u00e7\u00e3o toma o valor de um exemplo; ora o que \u00e9 dado como exemplo deve atrair a aten\u00e7\u00e3o e para isso apresentar alguma coisa de singular, de extraordin\u00e1rio no sentido etimol\u00f3gico. A linguagem corrente consagrou, ali\u00e1s, essa verdade assimilando os dois voc\u00e1bulos <em>exemplar<\/em> e \u00fanico. Por isso a multiplica\u00e7\u00e3o dos santos leva a diminuir sua exemplaridade: mesmo se os santos fossem numerosos, um pequeno n\u00famero dentre eles e n\u00e3o a maior parte deve fazer o objeto de uma canoniza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Conclus\u00e3o: a santidade, fundamento de toda canoniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 um estado extraordin\u00e1rio de vida sobrenatural extraordin\u00e1ria, nesse sentido que est\u00e1 bem al\u00e9m da via comum.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>Parte II: As Canoniza\u00e7\u00f5es depois do Vaticano II<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A ess\u00eancia da canoniza\u00e7\u00e3o nos leva a levantar as seguintes quest\u00f5es:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>A &#8211; Concep\u00e7\u00e3o da santidade ontem e hoje.<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>B &#8211; Que santidade para os fi\u00e9is de hoje?<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>C &#8211; As consequ\u00eancias<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>A &#8211; A no\u00e7\u00e3o de santidade depois do Vaticano II<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>l. Mudan\u00e7as de ordem quantitativa<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Partamos do fato constatado por numerosos observadores: depois do Vaticano II, o n\u00famero das beatifica\u00e7\u00f5es e das canoniza\u00e7\u00f5es toma propor\u00e7\u00f5es quantitativas inauditas. A lista seguinte d\u00e1 uma id\u00e9ia precisa:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; S\u00e9culo XVI: uma s\u00f3 canoniza\u00e7\u00e3o<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; S\u00e9culo XVII: 10 canoniza\u00e7\u00f5es com 24 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; S\u00e9culo XVIII: 9 canoniza\u00e7\u00f5es com 29 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; S\u00e9culo XIX: 8 canoniza\u00e7\u00f5es com 80 santos; sob Le\u00e3o XIII (1878-1903): 4 canoniza\u00e7\u00f5es com 18 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; S\u00e9culo XX: S\u00e3o Pio X (1903-1914): 2 canoniza\u00e7\u00f5es com 4 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; Bento XV (1914-1922): 2 canoniza\u00e7\u00f5es com 3 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; Pio XI (1922-1939): 17 canoniza\u00e7\u00f5es com 34 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; Pio XII (1939-1958): 21 canoniza\u00e7\u00f5es com 33 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; Jo\u00e3o XXIII (1958-1963):7 canoniza\u00e7\u00f5es com 10 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; Paulo VI (1963-1978): 20 canoniza\u00e7\u00f5es com 81 santos<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; Jo\u00e3o Paulo II (1978 a 2002): Escriv\u00e1 de Balaguer \u00e9 a 468\u00ba pessoa canonizada por esse papa.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">At\u00e9 Paulo VI as canoniza\u00e7\u00f5es eram atos solenes do Pont\u00edfice Romano excepcionais. Depois do Vaticano II isso mudou: Jo\u00e3o Paulo II efetuou mais canoniza\u00e7\u00f5es que cada um de seus predecessores do s\u00e9culo XX e mais tamb\u00e9m que todos seus predecessores desde a cria\u00e7\u00e3o da Congrega\u00e7\u00e3o dos Ritos por Sixto V em 1588. O pr\u00f3prio Jo\u00e3o Paulo II explicou esse crescimento do n\u00famero de canoniza\u00e7\u00f5es num discurso aos cardeais no consist\u00f3rio em 13 de junho de 1984: \u201c<em>Dizem que hoje h\u00e1 muitas beatifica\u00e7\u00f5es. Mas al\u00e9m do fato de que isso reflete a realidade de que a gra\u00e7a de Deus \u00e9 o que ela \u00e9, isto corresponde tamb\u00e9m aos desejos do Conc\u00edlio. O Evangelho est\u00e1 de tal maneira difundido no mundo e sua mensagem est\u00e1 enraizada t\u00e3o profundamente que \u00e9 precisamente o grande n\u00famero de beatifica\u00e7\u00f5es que reflete de modo vivo a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo e a vitalidade que jorra no dom\u00ednio mais essencial para a Igreja, o da santidade.&nbsp; \u00c9, de fato, o Conc\u00edlio que iluminou de modo particular o apelo universal a santidade<\/em>\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ent\u00e3o essa mudan\u00e7a de ordem quantitativa tem por causa uma mudan\u00e7a de ordem qualitativa. Se as canoniza\u00e7\u00f5es s\u00e3o agora mais numerosas, \u00e9 porque a santidade que testemunha a canoniza\u00e7\u00e3o possui uma significa\u00e7\u00e3o diferente: a santidade n\u00e3o \u00e9 mais coisa rara, extraordin\u00e1ria, mas algo de comum.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>Jo\u00e3o Paulo II fez mais canoniza\u00e7\u00f5es que fizeram todos os papas desse s\u00e9culo. Mas dessa maneira, n\u00e3o se mant\u00e9m a dignidade da canoniza\u00e7\u00e3o. Se as canoniza\u00e7\u00f5es s\u00e3o numerosas, elas n\u00e3o podem ser, n\u00e3o diremos v\u00e1lidas, mas tomadas em considera\u00e7\u00e3o, nem ser objeto de venera\u00e7\u00e3o por parte da Igreja universal. (&#8230;) Se as canoniza\u00e7\u00f5es se multiplicam, seu valor diminui<\/em>\u201d<a href=\"http:\/\/www.capela.org.br\/Crise\/canoniza2.htm#_edn20\" title=\"\">[fn]<\/a> Romano Amerio: Stat veritas \u2013 Continua\u00e7\u00e3o de Iota unum. Coment. 39 sobre o \u00a7 37 da Carta apost\u00f3lica Tertio millenio adveniente, p\u00e1gina 117.[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>2. Mudan\u00e7as de ordem qualitativa<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Vamos tentar explicar porque, segundo a l\u00f3gica do Vaticano II, a santidade n\u00e3o \u00e9 mais algo de extraordin\u00e1rio. A nova teologia nos ajudar\u00e1 a compreender.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>a) Os fundamentos da nova concep\u00e7\u00e3o da santidade<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Vaticano II introduziu uma nova religi\u00e3o ligada a uma nova teologia, e segundo essa nova teologia (tal como explicita o ensinamento pontif\u00edcio ordin\u00e1rio de Jo\u00e3o Paulo II) a Reden\u00e7\u00e3o \u00e9 concebida como um simples testemunho existencial permitindo aos homens tomar consci\u00eancia interiormente da sua dignidade enquanto pessoa humana:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>O Cristo, Redentor do mundo, \u00e9 aquele que penetrou, de uma maneira \u00fanica e absolutamente singular, no mist\u00e9rio do homem. \u00c9 ent\u00e3o a justo t\u00edtulo que o Conc\u00edlio Vaticano II ensina isto: \u201cNa realidade, Cristo, na pr\u00f3pria revela\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do Pai e de seu amor, manifesta plenamente o homem a si mesmo e lhe descobre a sublimidade de sua voca\u00e7\u00e3o<\/em>[fn] Gaudium et spes, \u00a722.[\/fn]\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Tal \u00e9, se podemos dizer assim, a dimens\u00e3o humana do mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o. Nessa dimens\u00e3o, o homem encontra a grandeza, a dignidade e o valor pr\u00f3prio de sua humanidade. Se ele deixa esse processo se realizar profundamente em si, ele produz frutos n\u00e3o somente de adora\u00e7\u00e3o para com Deus, mas tamb\u00e9m de profundo agrado por si mesmo. Que valor deve ter o homem aos olhos do Criador se ele \u201c<em>mereceu ter um tal e um t\u00e3o grande Redentor<\/em>[fn]<em> Exsutet<\/em> da Vig\u00edlia pascal[\/fn]\u201d, se \u201c<em>Deus deu seu Filho<\/em>\u201d a fim de que, o homem,<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>n\u00e3o se perdesse, mas que ele tivesse a vida eterna<\/em>[fn] Jo\u00e3o, 3, 16[\/fn]\u201d! [fn] Redemptor hominis, \u00a79 e 10. Essa id\u00e9ia de Jo\u00e3o Paulo II s\u00f3 faz difundir o pensamento original que se exprime na constitui\u00e7\u00e3o Dei <em>Verbum<\/em> do Conc\u00edlio Vaticano II. \u201c<em>\u00c9 certo que se revelando desse modo a n\u00f3s, nesse apelo que ele nos dirige, Deus nos revela a n\u00f3s mesmo: \u00e9 respondendo a esse apelo que o homem emergindo na luz de Deus descobre maravilhosamente a grandeza de seu ser. A revela\u00e7\u00e3o suprema de Deus a qual a Nova Alian\u00e7a \u00e9 essencialmente ligada \u00e9 tamb\u00e9m a revela\u00e7\u00e3o total da natureza humana<\/em>\u201d (Henri de Lubac: Comentaire sur le Proemium de la constitui\u00e7\u00e3o, in \u201cVatican II \u2013 Textes et commentaires des d\u00e9crets conciliaires\u201d, Unam sanctam 70 a, p\u00e1gina 164).[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Como a miss\u00e3o da Igreja consiste em aplicar os frutos da Reden\u00e7\u00e3o, a Igreja teria por fim essencial promover essa dignidade da pessoa humana e de fazer todos os homens tomarem essa consci\u00eancia.<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Essa profunda admira\u00e7\u00e3o diante do valor e da dignidade do homem se exprime na palavra Evangelho, que quer dizer Boa Nova. Ela \u00e9 ligada tamb\u00e9m ao cristianismo. Essa admira\u00e7\u00e3o justifica a miss\u00e3o da Igreja no mundo<\/em>\u201d[fn] Redemptor hominis, \u00a7 10. \u201c<em>A tarefa espec\u00edfica da Igreja, a que funda sua necessidade absoluta, \u00e9 o devotamento de uma realidade j\u00e1 presente no cora\u00e7\u00e3o do mundo e sobretudo no cora\u00e7\u00e3o do homem, o reino de Deus, para que o homem conhe\u00e7a explicitamente este dom de Deus<\/em>\u201d (Jean-Guy Pag\u00e9: O que \u00e9 a Igreja? , tomo l: O Mist\u00e9rio e o sacramento da salva\u00e7\u00e3o, p\u00e1gina 215).[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>O Conc\u00edlio Vaticano II, em diversas passagens desses documentos, exprimiu essa solicitude fundamental da Igreja, afim de que a vida nesse mundo seja \u201cmais conforme a eminente dignidade do homem\u201d<\/em>[fn] Gaudium et spes, \u00a791[\/fn]<em> em todos os pontos de vista, para torna-la \u201csempre mais humana\u201d<\/em>[fn] Gaudium et spes, \u00a738[\/fn]<em>. Em nome dessa solicitude, como lemos na constitui\u00e7\u00e3o pastoral do Conc\u00edlio, \u201ca Igreja \u00e9 por sua vez o sinal e a salvaguarda do car\u00e1ter transcendente da pessoa humana<\/em>\u201d[fn] Gaudium et spes,\u00a776[\/fn]\u201d [fn] Redemptor hominis, \u00a713[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ora, a dignidade da pessoa humana se funda na liberdade de consci\u00eancia: \u00e9 ent\u00e3o esta \u00faltima que a Igreja vai se esfor\u00e7ar de manifestar e de defender.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>Por isso, a Igreja de nosso tempo concede uma grande import\u00e2ncia em tudo o que o Conc\u00edlio Vaticano II exp\u00f4s na declara\u00e7\u00e3o sobre a liberdade religiosa. A declara\u00e7\u00e3o sobre a liberdade religiosa nos manifesta de maneira convincente que, anunciando a verdade que n\u00e3o prov\u00e9m dos homens, mas sim de Deus, Cristo, e em seguida seus Ap\u00f3stolos, conservam uma profunda estima pelo homem, por sua intelig\u00eancia, sua vontade, sua consci\u00eancia e sua liberdade. Desse modo, a dignidade da pessoa humana vem fazer parte ela pr\u00f3pria desse an\u00fancio, mesmo sem recorrer \u00e0s palavras, &nbsp;pelo simples comportamento diante dele. Quer dizer que a Igreja, em virtude de sua miss\u00e3o divina, se torna cada vez mais guardi\u00e3 dessa liberdade, que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o e fundamento da verdadeira dignidade da pessoa humana<\/em>\u201d[fn] Redemptor hominis, \u00a712[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Viver dos frutos dessa Reden\u00e7\u00e3o ser\u00e1 ent\u00e3o fazer com que \u201c<em>a dignidade da pessoa humana seja o objeto de uma consci\u00eancia sempre mais viva e que sempre mais numerosos sejam aqueles que reivindiquem para o homem a possibilidade de agir em virtude de suas pr\u00f3prias op\u00e7\u00f5es e com toda a livre responsabilidade<\/em>\u201d[fn] Dignitatis humanae, \u00a71[\/fn]. Viver\u00e1 ent\u00e3o santamente aquele que ter\u00e1 uma consci\u00eancia aguda dessa dignidade da pessoa humana e que a respeitar\u00e1 celebrando a liberdade do homem, sobretudo em mat\u00e9ria religiosa.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">S\u00e3o Tom\u00e1s diz que a santidade se exprime ao mais alto ponto no exerc\u00edcio do culto pelo qual o homem d\u00e1 a Deus o que lhe \u00e9 devido[fn] II-IIae, q 81, art 8. \u201c<em>Chamamos santidade essa aplica\u00e7\u00e3o que o homem faz de sua alma espiritual e de seus atos a Deus. Ela n\u00e3o difere ent\u00e3o da religi\u00e3o na sua ess\u00eancia, mas somente por uma distin\u00e7\u00e3o de raz\u00e3o. Pois fala-se de religi\u00e3o segundo o que se rende a Deus o servi\u00e7o que lhe \u00e9 devido no que concerne especialmente o culto divino: sacrif\u00edcios, obla\u00e7\u00f5es, etc. Enquanto que se fala de santidade quando o homem, al\u00e9m desses atos, relaciona ainda a Deus os atos das outras virtudes, ou ent\u00e3o se disp\u00f5e ao culto divino por algumas boas obras<\/em>\u201d.[\/fn]. A nova santidade corresponde assim, logicamente, a um novo culto: o culto do homem, do qual falou Paulo VI[fn] \u201c<em>Toda essa riqueza doutrinal s\u00f3 visa a uma coisa: servir o homem. Trata-se, \u00e9 claro, de todo homem, qualquer que seja sua condi\u00e7\u00e3o, sua mis\u00e9ria e suas necessidades. A Igreja \u00e9, por assim dizer, proclamada a serva da humanidade at\u00e9 o momento em que seu magist\u00e9rio eclesi\u00e1stico e seu governo pastoral revestiram, em raz\u00e3o da solenidade do Conc\u00edlio, um maior esplendor e uma maior for\u00e7a<\/em>\u201d Paulo VI: Discurso de clausura da la 4\u00aa Sess\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II, em 7 de dezembro de 1965[\/fn], culto pelo qual a Igreja d\u00e1 ao homem a dignidade que lhe \u00e9 devida favorecendo sua liberdade. O homem santo, no sentido novo do termo, \u00e9 ent\u00e3o, o homem tolerante. A toler\u00e2ncia se substitui assim \u00e0 caridade teologal e se torna a virtude primordial que serve de fundamento \u00e0 nova santidade, segundo o Vaticano II e <em>Dignitatis humanae.<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Acrescentamos que o novo santo n\u00e3o \u00e9 somente o homem tolerante, mas \u00e9 tamb\u00e9m o homem que propaga as virtudes naturais. A santidade \u201cnova\u201d perde de vista sua rela\u00e7\u00e3o com o sobrenatural, ela se reduz freq\u00fcentemente a persegui\u00e7\u00f5es de causas humanas, o que \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia l\u00f3gica da concep\u00e7\u00e3o naturalista da nova religi\u00e3o. Na canoniza\u00e7\u00e3o de Zdislava da Bo\u00eamia, em 21 de maio de 1995, essa nova concep\u00e7\u00e3o aparece bem n\u00edtida. \u201c<em>A santidade consiste na capacidade de se dar aos outros e na acolhida da vida. Seu exemplo (de Zdislava) aparece eminentemente atual, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao valor da fam\u00edlia que, como ela nos ensina, deve ser aberta a Deus, ao dom da vida e as necessidades dos pobres. Nosso santo \u00e9 uma admir\u00e1vel testemunha do \u201cEvangelho da fam\u00edlia\u201de do \u201cEvangelho da vida\u201d que a Igreja mais que nunca, se esfor\u00e7a por difundir nessa passagem do segundo para o terceiro mil\u00eanio crist\u00e3o. Fam\u00edlias da Bo\u00eamia, fam\u00edlias da Moravia, tesouro inestim\u00e1vel dessa na\u00e7\u00e3o, sejam o que s\u00e3o no plano de Deus, seguindo o exemplo de seus santos! E voc\u00ea, Zdislava de Lemberk, guie as fam\u00edlias da p\u00e1tria e do mundo inteiro para o conhecimento sempre mais profundo de sua miss\u00e3o, torne-as abertas ao dom, voc\u00ea, m\u00e3e doce e forte, caridosa e piedosa!<\/em>\u201d[fn] Extrato do serm\u00e3o pronunciado na missa da canoniza\u00e7\u00e3o. Documenta\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica 2119 de 2 de julho de 1995.[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>b) Essa nova concep\u00e7\u00e3o explica porque a santidade \u00e9 um fato comum, ordin\u00e1rio.<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ser santo, de agora em diante, \u00e9 aceder a essa revela\u00e7\u00e3o segundo a qual o Cristo redentor manifesta o homem a si mesmo. A santidade consiste numa tomada de consci\u00eancia, e basta ao homem, para se tornar santo, descobrir o que ele j\u00e1 \u00e9 em Cristo. S\u00f3 h\u00e1 ent\u00e3o uma simples passagem do impl\u00edcito ao expl\u00edcito, o que reduz a nada toda a transcend\u00eancia: a santidade n\u00e3o \u00e9 mais um ideal que excede a condi\u00e7\u00e3o comum da humanidade; ao contr\u00e1rio, ela se situa no prolongamento l\u00f3gico dessa condi\u00e7\u00e3o porque ela n\u00e3o \u00e9 outra coisa al\u00e9m da tomada de consci\u00eancia dessa condi\u00e7\u00e3o no que funda sua dignidade. Se retomarmos o princ\u00edpio enunciado acima por S\u00e3o Tom\u00e1s aplicando a essa nova situa\u00e7\u00e3o, devemos dizer que a santidade sendo o bem proporcionado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o comum da natureza, se realiza quase sempre, e s\u00f3 falta raramente.[fn] De onde tamb\u00e9m a id\u00e9ia mestra de <em>Lumen Gentium<\/em>: a voca\u00e7\u00e3o universal \u00e0 santidade (cap\u00edtulo 5). Voca\u00e7\u00e3o universal, isto \u00e9, que concerne de fato, como em princ\u00edpio, o Povo de Deus todo inteiro, sem que seja feita distin\u00e7\u00e3o entre uma santidade comum e uma santidade her\u00f3ica na qual consistiria a perfei\u00e7\u00e3o propriamente dita.[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Segue-se que a santidade, quando torna-se o objeto de uma canoniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mais dada como exemplo a imitar, mas como um sinal. H\u00e1 nisso uma diferen\u00e7a:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; O exemplo a imitar se dirige \u00e0 intelig\u00eancia pr\u00e1tica e \u00e0 vontade; ele indica o que n\u00e3o \u00e9 ainda e que deve se realizar. Na concep\u00e7\u00e3o tradicional, a canoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 assim definida como uma lei que indica quais s\u00e3o as virtudes her\u00f3icas a adquirir seguindo o exemplo de um santo;<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8211; O sinal se dirige \u00e0 intelig\u00eancia pura, e indica o que j\u00e1 \u00e9, mas que n\u00e3o \u00e9 percebido perfeitamente: o sinal manifesta-o mais perfeitamente.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Com a nova concep\u00e7\u00e3o herdada do Vaticano II, a santidade se torna um sinal: aqueles que j\u00e1 tomaram consci\u00eancia da dignidade de sua natureza humana e que a defendem, s\u00e3o indicados aos outros, a fim de que estes acedam por sua vez a essa tomada de consci\u00eancia.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>O santo \u00e9 o testemunho mais brilhante da dignidade conferida ao disc\u00edpulo de Cristo<\/em>\u201d[fn] Christifideles laici, \u00a716. [\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>Sobre a voca\u00e7\u00e3o universal a santidade, o Conc\u00edlio Vaticano II se exprimiu com termos luminosos<\/em>.[fn] Lumen gentium, 5, \u00a739-42.[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>A voca\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade deve ser percebida e vivida pelos fi\u00e9is leigos, menos sob um aspecto de obriga\u00e7\u00e3o exigente e incontorn\u00e1vel, do que como um sinal luminoso de amor infinito do Pai que lhes regenerou a sua vida de santidade<\/em>\u201d[fn] Christifideles laici, \u00a716-17[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ora, nessa perspectiva, ter-se-ia o interesse em multiplicar os sinais, porque essa multiplicidade adquire ela pr\u00f3pria um valor significante: o peso do n\u00famero de todos aqueles que s\u00e3o conscientes de sua dignidade confere uma efic\u00e1cia maior a essa revela\u00e7\u00e3o onde Cristo manifesta o homem a si mesmo. Mais as canoniza\u00e7\u00f5es se multiplicam, mais os santos s\u00e3o numerosos, melhor \u00e9 significada a dignidade do homem.[fn] Eis a reflex\u00e3o de Dom Ghislain Lafont no seu livro <em>Imaginer l\u2019Eglise catholique<\/em>, Cerf, 2001, nota 1 da p\u00e1gina 232: \u201c<em>Nos alegramos de constatar que os autores da Nova enciclop\u00e9dia cat\u00f3lica teol\u00f3gica consagraram \u00e0 santidade o cap\u00edtulo inicial do volume (\u201cDes chercheurs de Dieu par milliers&#8230;\u201d) e desde o come\u00e7o eles procedem, sem dizer, a uma esp\u00e9cie de beatifica\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea: \u2018Hoje, quem n\u00e3o conhece Madre Teresa, Martin Luther King, Helder C\u00e2mara, abb\u00e9 Pierre, Oscar Romero, etc., e j\u00e1 um pouco mais longe Edmond Michelet, Tom Dooley, Madeleine Delbrel, Teilhard de Chardin? Esses homens, essas mulheres s\u00e3o como pontos de encontro para a humanidade inteira\u2019. Mais al\u00e9m, eles acrescentam outros nomes os quais alguns foram depois beatificados pelo papa<\/em>.\u201d [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>B &#8211; Que santidade para os fi\u00e9is de hoje?<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Mesmo se o exemplo das virtudes heroicas n\u00e3o \u00e9 exclu\u00eddo, o exemplo dado nas canoniza\u00e7\u00f5es corresponde a novas virtudes, bem relacionadas com a vis\u00e3o do conc\u00edlio: a santidade se torna um dos elementos que concorrem \u00e0 unidade ecum\u00eanica. Mais ainda, alguns santos com a virtude reconhecida s\u00e3o utilizados para difundir a mensagem do conc\u00edlio: \u00e9 o que chamamos de a instrumentaliza\u00e7\u00e3o das canoniza\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, o uso de um objeto (em ocorr\u00eancia a verdadeira santidade) para fins estranhos.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>1. O exemplo do ecumenismo<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O ecumenismo \u00e9 um crivo pelo qual devem passar as causas da canoniza\u00e7\u00e3o, um pouco como o <em>Secretariado pela unidade dos crist\u00e3os<\/em> foi durante o conc\u00edlio, o filtro pelo qual deviam passar todos os textos conciliares.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Assim, n\u00e3o somente algumas causas s\u00e3o promulgadas ou vidas de santos s\u00e3o explicadas num contexto novo, mas outras causas s\u00e3o paradas, o ecumenismo obriga. Um exemplo espantoso, mas que fez pouco barulho em raz\u00e3o da discri\u00e7\u00e3o da Congrega\u00e7\u00e3o pela causa dos santos foi a parada da causa de Isabel a Cat\u00f3lica, em 1992. Os bispos de Valencia, Sevilha e \u00c1vila tinham engajado a dita congrega\u00e7\u00e3o a fazer avan\u00e7ar a causa para chegar a uma beatifica\u00e7\u00e3o em 1992, no quadro do Quinto centen\u00e1rio da descoberta das Am\u00e9ricas. A fim de n\u00e3o chocar a comunidade judia, a causa foi parada pelos \u201c<em>artes\u00e3os cat\u00f3licos do di\u00e1logo judeo-crist\u00e3o. Tiveram que intervir tamb\u00e9m, muito oficiosamente, o Conselho pontif\u00edcio pela unidade dos crist\u00e3os (rela\u00e7\u00f5es com o juda\u00edsmo), a Secretaria de Estado e, certamente, o pr\u00f3prio Jo\u00e3o Paulo II<\/em>\u201d[fn] Artigo de Michel Kubler e de Claude Dial publicado em &nbsp;La <em>Croix-L\u2019Ev\u00e9nement<\/em> de 28 de mar\u00e7o de 1991, retomado na Documentation catholique 2026 de 21 de abril de 1991. [\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O esp\u00edrito ecum\u00eanico transparece particularmente quando a pessoa a ser canonizada est\u00e1 inserida numa regi\u00e3o de maioria n\u00e3o cat\u00f3lica. A canoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o empregada como meio de lan\u00e7ar pontes para outras religi\u00f5es. Melhor ainda, pudemos assistir a releituras ecum\u00eanicas de vidas de santos j\u00e1 canonizados. Assim, santa Br\u00edgida da Su\u00e9cia se torna um centro de unidade para os luteranos e cat\u00f3licos:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>\u00c9 para mim uma grande alegria saber que na Su\u00e9cia ela \u00e9 amada e venerada tanto pelos luteranos quanto pelos cat\u00f3licos. Sua vida e sua obra constituem ent\u00e3o uma heran\u00e7a que nos une. Santa Br\u00edgida \u00e9 como um centro de unidade. \u201cSenhor, mostre-me o caminho e disponha-me a segui-lo!\u201d. S\u00e3o as palavras de uma das ora\u00e7\u00f5es, que se recita ainda hoje na Su\u00e9cia. (&#8230;) \u201cSenhor, mostre-me o caminho e disponha-me a segui-lo\u201d. Essa invoca\u00e7\u00e3o pode constituir o programa do movimento ecum\u00eanico. O ecumenismo \u00e9 uma viagem que se efetua junto mas que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fixar o percurso nem a dura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabemos se o caminho ser\u00e1 f\u00e1cil ou dif\u00edcil. Sabemos somente que \u00e9 nosso dever seguir junto essa viagem. (&#8230;) Santa Br\u00edgida consagrou toda sua exist\u00eancia a esse ardente desejo divino de reconcilia\u00e7\u00e3o e de comunh\u00e3o entre todos os membros do povo crist\u00e3o<\/em>. (&#8230;)\u201d[fn] A continua\u00e7\u00e3o do discurso \u00e9 interessante: \u201c<em>Hoje como naquela \u00e9poca, o Senhor continua a suscitar os homens e as mulheres generosas que fazem progredir o mesmo desejo de unidade entre os crist\u00e3os na Europa e no mundo. Como afirmei em 9 de junho de 1989, durante a cerim\u00f4nia ecum\u00eanica em Uppsala: \u201cN\u00f3s n\u00e3o podemos fazer tudo de uma s\u00f3 vez, mas devemos fazer hoje o que nos \u00e9 poss\u00edvel, na esperan\u00e7a do que poderemos fazer amanh\u00e3\u201d. A Comiss\u00e3o mista de di\u00e1logo entre cat\u00f3licos e luteranos trabalha igualmente nesse sentido, na esperan\u00e7a de contribuir para suprimir os obst\u00e1culos que se op\u00f5em ainda na unidade dos crist\u00e3os<\/em>\u201d. Extratos da homilia pronunciada durante a celebra\u00e7\u00e3o ecum\u00eanica em S\u00e3o Pedro de Roma, em 5 de outubro de 1991, na ocasi\u00e3o do VI\u00ba centen\u00e1rio da canoniza\u00e7\u00e3o de santa Br\u00edgida. Nessa ocasi\u00e3o um acontecimento ecum\u00eanico excepcional se desenrolou na bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro em Roma, reunindo pastores luteranos e a hierarquia cat\u00f3lica. Cf. Documentation catholique 2038 de 17 de novembro de 1991. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Depois das festividades do Sexto centen\u00e1rio da canoniza\u00e7\u00e3o de Santa Br\u00edgida, Jo\u00e3o Paulo II se dirigiu aos cardeais nesses termos: \u201c<em>A recente Assembleia (S\u00ednodo dos bispos da Europa) foi caracterizada pela presen\u00e7a de delega\u00e7\u00f5es de diversas Confiss\u00f5es crist\u00e3s que, sobre um p\u00e9 de igualdade, tomaram parte nos trabalhos. Os encontros, os col\u00f3quios e as ora\u00e7\u00f5es comuns \u2013 eu queria lembrar em particular a liturgia ecum\u00eanica que se desenrolou na bas\u00edlica vaticana de sete de dezembro \u2013 p\u00f4s em relevo a necessidade de prosseguir o di\u00e1logo ecum\u00eanico, na procura da unidade e da comunh\u00e3o. (&#8230;) Ser\u00e1 este ecumenismo da verdade e da caridade que far\u00e1 dos crist\u00e3os os profetas cr\u00edveis de esperan\u00e7a e de solidariedade aos olhos do mundo. Sobre esse caminho dif\u00edcil, que nos ajudem os santos patronos da Europa: S\u00e3o Bento, S\u00e3o Cirilo e S\u00e3o Met\u00f3dio. Que interceda por n\u00f3s, particularmente, Santa Br\u00edgida, que celebramos recentemente o sexto centen\u00e1rio da canoniza\u00e7\u00e3o. Esse anivers\u00e1rio tomou um valor significativo, constituindo um passo importante no di\u00e1logo ecum\u00eanico. O exemplo dessa santa e a lembran\u00e7a da miss\u00e3o que ela cumpriu ao servi\u00e7o da unidade da Igreja representam um motivo de encorajamento por todos aqueles que est\u00e3o engajados na nova evangeliza\u00e7\u00e3o da Europa<\/em>.\u201d[fn] Jo\u00e3o Paulo II: Discurso aos cardeais e a C\u00faria romana de 23 de dezembro de 199l, Documentation catholique 2043 de 3 de fevereiro de 1992. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Numa homilia pronunciada em 1995, em Kosice (Eslov\u00e1quia), quando da canoniza\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas m\u00e1rtires, Jo\u00e3o Paulo II evoca: \u201c<em>Os m\u00e1rtires das outras Confiss\u00f5es religiosas<\/em>\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Caros irm\u00e3os e irm\u00e3s! A liturgia desse dia nos convida a refletir sobre os fatos tr\u00e1gicos do in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, iluminando, de uma parte, o absurdo da viol\u00eancia que se enfurece contra as v\u00edtimas inocentes e de outro o espl\u00eandido exemplo de tantos disc\u00edpulos de Cristo que souberam afrontar sofrimentos de todo g\u00eanero para n\u00e3o renegar o que lhe ditava sua consci\u00eancia. Ao lado dos tr\u00eas m\u00e1rtires de Kosice, de fato, muitas pessoas, pertencendo tamb\u00e9m de outras Confiss\u00f5es crist\u00e3s, foram submetidas a torturas e sofreram pesadas condena\u00e7\u00f5es: algumas at\u00e9 foram mortas. Como n\u00e3o reconhecer, por exemplo, a grandeza espiritual dos vinte e quatro fi\u00e9is pertencentes \u00e0s Igrejas evang\u00e9licas, mortas em Presov? A estes e a todos aqueles que aceitaram os sofrimentos e a morte para ficar com a consci\u00eancia coerente com suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, a Igreja d\u00e1 o louvor que eles merecem e exprime sua admira\u00e7\u00e3o<\/em>.(&#8230;)\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O emprego do termo \u201cm\u00e1rtir\u201d \u00e9 equ\u00edvoco e traz confus\u00e3o. O mart\u00edrio \u00e9 a morte sofrida como testemunho da verdadeira f\u00e9, o que sup\u00f5e um grau eminente de caridade. N\u00e3o se pode falar em m\u00e1rtir numa falsa religi\u00e3o, em raz\u00e3o da interdepend\u00eancia verdade\/caridade; aquele que d\u00e1 testemunho de uma falsa religi\u00e3o n\u00e3o pode ser, objetivamente, um m\u00e1rtir. Isto n\u00e3o tira nada dos m\u00e9ritos pessoais de pessoas que sofrem na sua carne para defender sua f\u00e9, mesmo que seja objetivamente falsa. Al\u00e9m disso, \u00e9 poss\u00edvel que elas sejam realmente m\u00e1rtires, se eles morrem para defender um ponto de f\u00e9 cat\u00f3lica; entretanto mesmo nesse caso a Igreja n\u00e3o pode lhes declarar m\u00e1rtires, pois ela n\u00e3o pode julgar desse ponto, totalmente interior. Bento XIV explica que essas pessoas s\u00e3o m\u00e1rtires diante de Deus, e receber\u00e3o uma recompensa de m\u00e1rtir, mas elas n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1rtires diante da Igreja que n\u00e3o pode declar\u00e1-las como tal. \u00c9 bem evidente que um tal caso s\u00f3 pode se produzir se essa pessoa est\u00e1 na ignor\u00e2ncia invenc\u00edvel diante da verdadeira f\u00e9.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Este ponto de teologia capital parece estar completamente esquecido como confirma uma passagem da mesma homilia: \u201c<em>Eu fa\u00e7o alus\u00e3o tamb\u00e9m a esse martiriol\u00f3gio na minha Carta apost\u00f3lica Tertio millennio adveniente<\/em>[fn] Tertio millenio adveniente, \u00a76. [\/fn]<em>, pedindo para se por em dia, depois de atrozes experi\u00eancias de nosso s\u00e9culo, lhe completando com os nomes dos m\u00e1rtires que nos abriram caminho para o terceiro mil\u00eanio (cf. n.37). O m\u00e1rtir nos une a todos os que cr\u00eaem em Cristo, no Oriente como no Ocidente, com os quais esperamos ainda participar da plena comunh\u00e3o eclesial<\/em> <em>(cf. n.34)<\/em>\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O papa evoca ainda: \u201c<em>O respeito dos direitos das minorias. Quero ent\u00e3o dizer minha alegria de poder acrescentar hoje esses novos nomes ao martiriol\u00f3gio da Igreja que est\u00e1 em Eslov\u00e1quia, e espero que isto constitua um encorajamento para todas as Igrejas irm\u00e3s, especialmente para as da Europa central e oriental. Os tr\u00eas novos santos pertenciam a tr\u00eas na\u00e7\u00f5es diferentes, mas dividiam a mesma f\u00e9 e, sustentados por ela, souberam afrontar unidos a pr\u00f3pria morte. Que seu exemplo reaviva nos compatriotas o engajamento a compreens\u00e3o rec\u00edproca e reforce, sobretudo entre os Eslov\u00e1quios e a minoria h\u00fangara os la\u00e7os de amizade e de colabora\u00e7\u00e3o. Somente sobre a base do respeito m\u00fatuo dos direitos e dos deveres das maiorias e das minorias que um Estado pluralista e democr\u00e1tico pode viver e prosperar<\/em>. (&#8230;)\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Algumas outras cita\u00e7\u00f5es podem ilustrar a onipresen\u00e7a do tema ecum\u00eanico misturado \u00e0 santidade:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>O testemunho dado a Cristo at\u00e9 o sangue se tornou um patrim\u00f4nio comum aos cat\u00f3licos, aos ortodoxos, aos anglicanos e aos protestantes, como j\u00e1 notava Paulo VI na sua homilia da canoniza\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires ugandenses<\/em>\u201d.(Tertio millenio adveniente<em>,<\/em> n\u00ba 37).<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>Era ao mesmo tempo uma peregrina\u00e7\u00e3o ecum\u00eanica: primeiro ao santu\u00e1rio dos m\u00e1rtires da Igreja anglicana, depois ao templo constru\u00eddo em honra de s\u00e3o Charles Lwanga e seus 21 companheiros cat\u00f3licos<\/em>\u201d. (Audi\u00eancia geral de 18 de fevereiro de 1993).<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>No memorando j\u00e1 citado, sobre o tema da prepara\u00e7\u00e3o do grande Jubileu, sublinhei a oportunidade de constituir um martiriol\u00f3gio contempor\u00e2neo que leve em conta todas as Igreja locais, tamb\u00e9m numa dimens\u00e3o e uma perspectiva ecum\u00eanica. H\u00e1 tantos m\u00e1rtires nas Igrejas n\u00e3o cat\u00f3licas: dos ortodoxos do oriente, mas tamb\u00e9m dos Protestantes<\/em>.\u201d (Alocu\u00e7\u00e3o ao Consist\u00f3rio extraordin\u00e1rio de 13 de junho de 1994).<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O fundamento desse ecumenismo dos santos \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia da nova concep\u00e7\u00e3o da santidade. Assim, segundo esta nova concep\u00e7\u00e3o, Cristo Redentor opera a salva\u00e7\u00e3o e a santidade revelando aos homens a dignidade de sua condi\u00e7\u00e3o, a qual acha seu fundamento na liberdade de consci\u00eancia: o principal fundamento n\u00e3o \u00e9 a verdade, \u00e0 qual o homem adere livremente, n\u00e3o \u00e9 mais o objeto ao qual a consci\u00eancia individual se submete; \u00e9 a liberdade da consci\u00eancia humana, \u00e9 o sujeito. Ora, essa consci\u00eancia individual do homem \u00e9 o que faz com que um homem creia que Deus seja o que Ele n\u00e3o \u00e9 para um outro homem. O homem professa uma religi\u00e3o qualquer e, nessa profiss\u00e3o, ele \u00e9 de qualquer modo respeit\u00e1vel, porque ele celebra sua interioridade transcendente. Por conseq\u00fc\u00eancia, todas as religi\u00f5es se tornam meios de salva\u00e7\u00e3o, porque elas s\u00e3o todas possibilidades de express\u00f5es da dignidade adquirida ao homem por Cristo:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>Cristo, Verbo Encarnado \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da aspira\u00e7\u00e3o de todas as religi\u00f5es do mundo e por isso mesmo ele \u00e9 completamente \u00fanico e definitivo<\/em>\u201d.[fn] Lumen gentium, \u00a7ll. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Eis o que passa a ser um santo: o homem que professa livremente sua religi\u00e3o, e que tem consci\u00eancia da dignidade que essa profiss\u00e3o livre lhe confere. E todo homem pode ser santo dessa santidade, em qualquer religi\u00e3o: em plenitude, na religi\u00e3o cat\u00f3lica; de modo parcial, mas tamb\u00e9m real, nas outras:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>O Conc\u00edlio diz que \u201ca Igreja de Cristo est\u00e1 presente\u201d na Igreja Cat\u00f3lica, e reconhece ao mesmo tempo que, \u201cfora do conjunto org\u00e2nico que ela forma, acha-se muitos elementos de santifica\u00e7\u00e3o e de verdade, que, enquanto dons pr\u00f3prios da Igreja de Cristo, levam \u00e0 unidade cat\u00f3lica\u201d.<\/em>[fn] Unitatis redintegratio, \u00a73[\/fn]<em> \u201cPor conseq\u00fc\u00eancia, essas Igrejas e suas comunidades, elas pr\u00f3prias separadas, mesmo se achamos que elas sofrem defici\u00eancia, n\u00e3o s\u00e3o nulamente desprovidas de significa\u00e7\u00e3o e de valor no mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o. De fato, o Esp\u00edrito de Cristo n\u00e3o recusa de se servir delas como meios de salva\u00e7\u00e3o, da qual a virtude deriva da plenitude mesma da gra\u00e7a e da verdade que foi confiada a Igreja Cat\u00f3lica\u201d. Na medida em que esses elementos de santifica\u00e7\u00e3o e de verdade se acham nas outras comunidades crist\u00e3s, h\u00e1 uma presen\u00e7a ativa da \u00fanica Igreja de Cristo nelas. Por isso o Conc\u00edlio Vaticano II fala de uma comunh\u00e3o real, mesmo se ela \u00e9 imperfeita<\/em>\u201d. [fn] Ut unum sint, \u00a710-ll. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">H\u00e1 ent\u00e3o uma comunh\u00e3o de santidade que transcende as diferentes religi\u00f5es, e essa transcend\u00eancia manifesta a a\u00e7\u00e3o redentora de Cristo e a efus\u00e3o de seu Esp\u00edrito sobre toda a humanidade, preparando assim a via para a unidade ecum\u00eanica perfeita:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>O ecumenismo dos santos \u00e9 talvez o que convence mais. A via da communio sanctorum \u00e9 mais forte que a dos fatores de divis\u00e3o<\/em>\u201d.[fn] Tertio millenio adveniente, \u00a737. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>Gra\u00e7as ao brilho do \u201cpatrim\u00f4nio dos santos\u201d pertencendo a todas as Comunidades, o \u201cdi\u00e1logo da convers\u00e3o\u201d a unidade plena e vis\u00edvel aparece ent\u00e3o sob a luz da esperan\u00e7a. A presen\u00e7a universal dos santos d\u00e1, de fato, a prova da transcend\u00eancia do poder do Esp\u00edrito. Ela \u00e9 sinal e prova da vit\u00f3ria de Deus sobre as for\u00e7as do mal que dividem a humanidade<\/em>.\u201d [fn] Ut unum sint, \u00a784[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>Mesmo de maneira invis\u00edvel, a comunh\u00e3o ainda imperfeita de nossas comunidades \u00e9 na verdade solidamente soldada pela plena comunh\u00e3o dos santos, quer dizer daqueles que, ao termo de uma exist\u00eancia fiel \u00e0 gra\u00e7a, est\u00e3o na comunh\u00e3o de Cristo glorioso. Esses santos prov\u00eaem de todas as Igrejas e Comunidades eclesiais que lhes abriram a entrada na comunh\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o. Quando se fala de um patrim\u00f4nio comum, deve-se a\u00ed incluir n\u00e3o somente as institui\u00e7\u00f5es, os ritos, os meios de salva\u00e7\u00e3o, as tradi\u00e7\u00f5es que todas as Comunidades conservaram e pelas quais foram formadas, mas em primeiro lugar e antes de tudo essa realidade da santidade<\/em>\u201d.[fn] Ut unum sint, \u00a784[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O que resta ent\u00e3o da canoniza\u00e7\u00e3o? Ela seria somente o meio ao qual recorre a Igreja Cat\u00f3lica para significar ao mundo essa dignidade da condi\u00e7\u00e3o humana, tal qual ela se manifesta em plenitude no seu seio. A canoniza\u00e7\u00e3o corresponde a um exemplar primordial, ao qual podem participar mais ou menos as diferentes confiss\u00f5es religiosas.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>2. Santos que veicularam e realizaram a mensagem da religi\u00e3o do conc\u00edlio<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Em algumas beatifica\u00e7\u00f5es\/canoniza\u00e7\u00f5es, o fim real n\u00e3o pode ser o destaque das virtudes her\u00f3icas das pessoas concernidas \u2013 porque \u00e9 manifesto que elas n\u00e3o chegaram \u00e0 heroicidade \u2013 mas a consagra\u00e7\u00e3o definitiva do Conc\u00edlio Vaticano II como o \u201cnovo Pentecostes da Igreja\u201d, ou ainda uma de suas id\u00e9ias mestras. Assim \u00e9 a beatifica\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII, a introdu\u00e7\u00e3o da causa de Paulo VI e da canoniza\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9maria Escriv\u00e1 de Balaguer.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>A beatifica\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A causa de Jo\u00e3o XXIII \u00e9 inseparavelmente apresentada com a do conc\u00edlio e sua nova mensagem.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u201c<em>Este pont\u00edfice promulgou o ecumenismo, se preocupou em entreter as rela\u00e7\u00f5es de fraternidade com os ortodoxos do Oriente que ele tinha conhecido na Bulg\u00e1ria e em Istambul, manteve rela\u00e7\u00f5es mais intensas com os Anglicanos e com o mundo diferenciado das Igrejas protestantes. Ele p\u00f4s tudo em obras para levantar as bases de uma nova atitude da Igreja Cat\u00f3lica para com o mundo judeu, fazendo uma abertura decisiva ao di\u00e1logo e a colabora\u00e7\u00e3o. Em 4 de junho de 1960, ele criou o Secretariado para a unidade dos crist\u00e3os. Ele promulgou duas enc\u00edclicas significativas. \u2018Mater et Magistra\u2019 (20 de maio de 196l) sobre a evolu\u00e7\u00e3o social a luz da doutrina crist\u00e3 e \u2018Pacem in terris\u2019 (ll de abril de 1963) sobre a paz entre todas as na\u00e7\u00f5es. Ele visitou hospitais e pris\u00f5es e se mostrou sempre pr\u00f3ximo, pela caridade, das pessoas sofridas e dos pobres da Igreja e do mundo<\/em>\u201d.[fn]Discurso em homenagem a Jo\u00e3o Paulo II pelo prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o das causas dos santos, L\u2019Osservatore Romano, 20-21. 12. 1999.<\/span><\/span><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><span style=\"font-size:14px\">[\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Tirando a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0s obras de miseric\u00f3rdia corporal, todas as virtudes de Jo\u00e3o XXIII s\u00e3o \u201cvirtudes ecum\u00eanicas\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">No seu serm\u00e3o de Pentecostes de 2001, o papa Jo\u00e3o Paulo II homenageia Jo\u00e3o XXIII, por ocasi\u00e3o do 38\u00ba anivers\u00e1rio de sua morte. [fn] \u00c9 nessa ocasi\u00e3o que os restos do defunto papa foi exposto na pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro e, no fechamento da cerim\u00f4nia, foram reconduzidos em prociss\u00e3o diante do altar da Confiss\u00e3o da bas\u00edlica vaticana, para ali ficar expostos alguns dias para venera\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is[\/fn]. &nbsp;\u201c<em>O Conc\u00edlio ecum\u00eanico Vaticano II, anunciado, convocado e aberto pelo papa Jo\u00e3o XXIII, foi consciente dessa voca\u00e7\u00e3o da Igreja. Pode-se bem dizer que o Esp\u00edrito Santo foi o protagonista do conc\u00edlio, desde o instante em que o papa o convocou, declarando que ele tinha acolhido como vindo do alto uma voz interior que se imp\u00f4s ao seu esp\u00edrito. Essa \u201cbrisa leve\u201d tornou-se um \u201cviolento vendaval\u201d e o acontecimento conciliar tomou a forma de uma nova Pentecostes. \u201c<\/em>\u00c9 de fato na doutrina e no esp\u00edrito de Pentecostes<em> \u2013 afirma o papa Jo\u00e3o \u2013 <\/em>que o grande acontecimento que \u00e9 o conc\u00edlio ecum\u00eanico tira sua subst\u00e2ncia e sua vida\u201d. (Discorsi, p.398)[fn] Documentation catholique 2251 de l\u00ba de julho de 2001[\/fn].<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Na homilia da missa de beatifica\u00e7\u00e3o, o par\u00e1grafo principal sobre Jo\u00e3o XXIII evoca igualmente o profeta do conc\u00edlio: \u201c<em>A onda de novidades que ele trouxe n\u00e3o concernia certamente a doutrina, mas sim a maneira de exp\u00f4-la: nova era sua maneira de falar e agir, novo era o impulso de simpatia com o qual ele ia entre as pessoas comuns como entre os poderosos da terra. Foi nesse esp\u00edrito que ele convocou o conc\u00edlio ecum\u00eanico Vaticano II, gra\u00e7as ao qual abriu uma p\u00e1gina nova na hist\u00f3ria da Igreja: os crist\u00e3os se sentiram chamados a anunciar o evangelho com uma coragem renovada e uma maior aten\u00e7\u00e3o aos \u201csinais dos tempos\u201d. O conc\u00edlio foi verdadeiramente uma intui\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica desse pont\u00edfice idoso que inaugurou, no meio de diversas dificuldades, uma era de esperan\u00e7a para os crist\u00e3os e para a humanidade<\/em>.\u201d[fn] Documentation catholique 2233 de l\u00ba de outubro de 2000. [\/fn] Essa \u201c<em>nova maneira de falar e de agir<\/em>\u201d \u00e9 bem relatada por Yves Marsaudon, ma\u00e7on not\u00f3rio, que, na sua obra <em>O ecumenismo visto por um franco-ma\u00e7on de tradi\u00e7\u00e3o<\/em> relata seus contatos freq\u00fcentes e amig\u00e1veis com Mons.Roncalli, n\u00fancio apost\u00f3lico em Paris. Essa \u201c<em>nova maneira de falar e de agir<\/em>\u201dn\u00e3o releva do temperamento, do estilo pessoal de Jo\u00e3o XXIII, mas \u00e9 uma maneira de abordar o mundo (no sentido evang\u00e9lico), inimigo de Jesus Cristo, e aqueles que s\u00e3o do mundo. Marsaudon confidencia como Mons. Roncalli tinha emitido reservas no momento da promulga\u00e7\u00e3o do dogma da Assun\u00e7\u00e3o, e isso por \u201cprud\u00eancia\u201d ecum\u00eanica: \u201c<em>Ele pensava perpetuamente \u201cnos outros\u201d e com o efeito que poderia produzir sobre os crist\u00e3os separados tal ou qual inova\u00e7\u00e3o<\/em>.\u201c[fn] Obra citada, p.46. Notamos que o quinto cap\u00edtulo do livro de Marsaudon se intitula <em>A morte de um santo<\/em>. Trata-se de Jo\u00e3o XXIII&#8230; [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>A introdu\u00e7\u00e3o da causa de Paulo VI<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Para Jo\u00e3o XXIII, os promotores da causa se esfor\u00e7aram em por em evid\u00eancia sua bondade legend\u00e1ria; melhor se diria, seja de bonomia natural,[fn] \u201c<em>As atitudes inconvenientes, a prop\u00f3sito das quais poder\u00edamos multiplicar as anedotas, confirmam o julgamento de Jean Guitton sobre um n\u00fancio apost\u00f3lico \u201cfamiliar\u201de \u201cvulgar\u201d<\/em>\u201d, narra Yves Chiron no seu artigo sobre Jo\u00e3o XXIII (in Certitudes n\u00ba3 nova s\u00e9rie), citando fatos efetivamente pouco edificantes. [\/fn] seja de falta de prud\u00eancia, n\u00f3s voltaremos a falar disso depois. Para Paulo VI, n\u00e3o h\u00e1 nada disso. Paulo VI n\u00e3o foi nem apreciado, nem admirado; nem por seus amigos, menos ainda por seus inimigos. E, portanto, sua causa foi introduzida em ll de maio de 1993, seguindo o pedido da confer\u00eancia episcopal italiana: \u00e9 uma nova prova da instrumentaliza\u00e7\u00e3o. Quando foi anunciada a introdu\u00e7\u00e3o do processo, o cardeal Ruini, vig\u00e1rio do papa para a diocese de Roma fez uma evoca\u00e7\u00e3o da personalidade de Paulo VI, evoca\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deixa d\u00favidas quanto \u00e0s inten\u00e7\u00f5es de lev\u00e1-lo aos altares; trata-se, de fato, de exaltar sua obra, a reforma resultante do conc\u00edlio: \u201c<em>A cidade de Roma, essa cidade-diocese, \u00fanica no mundo por sua hist\u00f3ria e sua miss\u00e3o, por sua universalidade e seus problemas espec\u00edficos, que o teve por bispo e sucessor de Pedro durante 15 anos, sabe o que deve a Paulo VI. Os frutos de seu minist\u00e9rio dif\u00edcil e universal se voltaram antes de tudo sobre ela. Depois de ter recolhido a heran\u00e7a de Jo\u00e3o XXIII, Paulo VI, guiando as \u00faltimas sess\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II e lhe conduzindo felizmente ao seu t\u00e9rmino, tomou sobre si o encargo de inscreve-lo nas estruturas, de difundir e aplicar as decis\u00f5es conciliares. Roma enriqueceu-se de novos dicast\u00e9rios pontificais, respondendo as exig\u00eancias pastorais indicadas pelo Conc\u00edlio e aos anseios de um mundo em evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e em marcha para uma grande unidade. A Igreja fez a aprendizagem de uma nova maneira de rezar em coro ao curso da santa liturgia, de um novo esp\u00edrito no julgamento dado sobre o mundo, rela\u00e7\u00f5es novas com os fi\u00e9is das outras igrejas e confiss\u00f5es crist\u00e3s, com nossos irm\u00e3os mais velhos judeus, com os n\u00e3o crist\u00e3os, com os n\u00e3o crentes. A Igreja aprofundou sua nova rela\u00e7\u00e3o com os Livros santos, pelo esfor\u00e7o mission\u00e1rio, a devo\u00e7\u00e3o marial, a cultura, a arte, a ci\u00eancia. Paulo VI foi o iniciador das grandes viagens mission\u00e1rias que o levaram, ele e seu sucessor Jo\u00e3o Paulo II, perto das comunidades do mundo inteiro e at\u00e9 nas assembl\u00e9ias das mais altas inst\u00e2ncias da sociedade, a fim de testemunhar o amor de Pedro pelo homem e pela paz universal<\/em>.\u201d[fn] Falando de seu trabalho na c\u00faria romana, como pro-secret\u00e1rio do papa Pio XII, o cardeal Ruini diz: \u201c<em>Foram 35 anos de apostolado infatig\u00e1vel, cujos tra\u00e7os est\u00e3o profundamente inscritos na nossa Cidade como na hist\u00f3ria da Igreja. Seu devotamento ao servi\u00e7o dos Papas o viu engajado na diplomacia, que ele exerceu como um aut\u00eantico servi\u00e7o de caridade, com um cuidado escrupuloso<\/em>\u201d. O cardeal evita bem de falar do cuidado escrupuloso com o qual Jo\u00e3o Batista Montini escondeu as rela\u00e7\u00f5es que ele nutria com Moscou, apesar da proibi\u00e7\u00e3o formal do papa. Esse \u00fanico fato de desobedi\u00eancia grave ao papa deveria ser suficiente para interromper o processo de beatifica\u00e7\u00e3o. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A vontade de canonizar o papa Paulo VI procede de causas superiores, a \u201ccausa\u201d por excel\u00eancia, a do conc\u00edlio Vaticano II e para promove-la, as canoniza\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o XXIII e de Paulo VI s\u00e3o meios excelentes.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>A canoniza\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9maria de Balaguer<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A canoniza\u00e7\u00e3o de Mons. Escriv\u00e1 De Balaguer est\u00e1 estreitamente relacionado com o conc\u00edlio na medida em que, ideologicamente, Balaguer foi um precursor do conc\u00edlio. Numa curta biografia publicada sobre o site da internet do Vaticano, pode-se ler: \u201c<em>Desde que Jo\u00e3o XXIII anuncia que convoca um conc\u00edlio ecum\u00eanico, o bem-aventurado Jos\u00e9maria se p\u00f5e a rezar e a fazer rezar pela feliz realiza\u00e7\u00e3o dessa grande iniciativa que \u00e9 o conc\u00edlio ecum\u00eanico Vaticano II, como ele escreve numa carta em 1962. O magist\u00e9rio solene da Igreja vai ent\u00e3o confirmar aspectos fundamentais do esp\u00edrito da Opus Dei, o chamado universal \u00e0 santidade, o trabalho profissional enquanto meio de santidade e de apostolado, o valor e os limites leg\u00edtimos da liberdade do crist\u00e3o nos assuntos temporais, a santa missa como centro e raiz da vida interior, etc. O bem-aventurado Jos\u00e9maria encontra numerosos padres conciliares e muitos peritos que v\u00eaem nele um aut\u00eantico precursor de muitas linhas mestras do Vaticano II. Profundamente identificado a doutrina conciliar, ele promove sua coloca\u00e7\u00e3o em pr\u00e1tica, com dilig\u00eancia, atrav\u00e9s das atividades de forma\u00e7\u00e3o da Opus Dei em toda parte no mundo<\/em>.\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>C.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>Conseq\u00fc\u00eancias dessa nova concep\u00e7\u00e3o da santidade:<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>1. A falta de preocupa\u00e7\u00e3o de ortodoxia doutrinal<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A ortodoxia doutrinal sendo um crit\u00e9rio determinante no antigo processo, a tal ponto que a menor suspeita interromperia imediatamente uma causa, mesmo se o personagem parecesse ter vivido heroicamente todas as virtudes. O que dizer ent\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII que se calava quando se falava da infalibilidade pontifical,[fn] O ecumenismo visto por um franco-ma\u00e7on, Yves Marsudon, edi\u00e7\u00f5es Vitiano, p. 45.[\/fn] ou da beatifica\u00e7\u00e3o do cardeal Ferrari, arcebispo de Mil\u00e3o, que n\u00e3o teve for\u00e7a contra o modernismo na sua diocese a ponto de S\u00e3o Pio X ter que reagir e recuper\u00e1-la? \u00c9 conhecido que o cardeal Ferrari, melindrado no seu amor pr\u00f3prio, nunca quis admitir que o modernismo estava em sua diocese e at\u00e9 em seu semin\u00e1rio. Ele defendia publicamente jornais tingidos de modernismo e chegou at\u00e9 a contestar um pouco o papa S\u00e3o Pio X diante dos seminaristas.[fn] Recuso de v\u00e1rios seminaristas de prestar o juramento anti-modernista. Leremos com interesse o detalhe dessa vasta pol\u00eamica que fez grande agita\u00e7\u00e3o na \u00e9poca em toda a It\u00e1lia. in: <em>Disquisitio: Conduta de S\u00e3o Pio X na luta contra o modernismo<\/em>, Publica\u00e7\u00f5es do Courrier de Rome, p. 157-218. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&nbsp;Sobre a ortodoxia doutrinal de Jos\u00e9maria Escriv\u00e1 de Balaguer, precursor em alguns dom\u00ednios da doutrina errada do Vaticano II, n\u00f3s voltaremos ao artigo que lhe \u00e9 consagrado.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Estes processos levantam um problema real quanto a retid\u00e3o dos processos sobre a quest\u00e3o doutrinal.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>2. As defici\u00eancias de procedimento<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">As defici\u00eancias do procedimento de canoniza\u00e7\u00e3o podem ser deduzidas por dois caminhos..<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Uma maneira essencial, pelas modifica\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio processo. O leitor achar\u00e1 nas colunas dessa mesma revista uma compara\u00e7\u00e3o dos processos de canoniza\u00e7\u00f5es antes e depois do Conc\u00edlio.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Uma maneira mais acidental, por\u00e9m reveladora, pelas irregularidades constatadas.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">l. O milagre atribu\u00eddo a Madre Teresa[fn] Ele foi reconhecido pela Congrega\u00e7\u00e3o pela causa dos santos de 2 de outubro de 2002. [\/fn]&nbsp; suscita uma pol\u00eamica na \u00cdndia entre os m\u00e9dicos, os quais afirmam que o tumor canceroso de Monika Besra foi tratado no hospital. De fato, se a doen\u00e7a foi cuidada, n\u00e3o se pode declarar miraculosa a cura, mesmo s\u00fabita, sem contradizer as regras de procedimento que n\u00e3o considera o caso de um doente tratado com medicamentos. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 evidente demonstrar \u2013 caso houvesse um verdadeiro milagre \u2013 que se possa atribui-lo \u00e0 intercess\u00e3o de Madre Teresa, pois pouco antes da cura a medalha milagrosa tinha sido imposta \u00e0 doente.[fn] O testemunho da jovem mulher indiana foi recolhido por Saverio Gaeta para o hebdomad\u00e1rio cat\u00f3lico italiano <em>Famiglia cristiana<\/em> de 10 de outubro. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">2. O que dizer das supostas virtudes her\u00f3icas de Jo\u00e3o XXIII? Muitas vozes se levantaram, tanto do lado progressista quanto do lado tradicional, para pedir para n\u00e3o confundir uma caridade her\u00f3ica com uma \u201cbondade\u201d que se aparenta a bonacheirice ou talvez a fraqueza. N\u00f3s damos refer\u00eancia dos diferentes estudos que apareceram sobre esse assunto e que convergem todos para a mesma conclus\u00e3o: parece imposs\u00edvel falar de heroicidade das virtudes.[fn] O estudo mais detalhado apareceu sob a forma de artigos na revista Tradizione catholica (Revista do distrito da It\u00e1lia da Fraternidade S\u00e3o Pio X). A tradu\u00e7\u00e3o francesa pode ser lida sobre o site <a href=\"http:\/\/www.dici.org\/\">www.dici.org<\/a> (parte Artigos de fundo). Um outro estudo mostrando que a bondade de Jo\u00e3o XXIII \u00e9 na realidade uma falta de virtude de prud\u00eancia apareceu na revista italiana Rassegna di Asc\u00e9tica e Mistica \u201cS.Caterina da Siena\u201dde julho-setembro de 1975. O autor, o padre Colosio \u00e9 um dominicano italiano do convento de S. Miniato, perto de Pisa. Este artigo foi reproduzido em franc\u00eas na revista Le <em>Sel da la terre<\/em> n\u00ba 42. Enfim, assinalamos tamb\u00e9m um bom artigo que saiu na revista Certitudes n\u00ba 3, nova s\u00e9rie intitulado Jo\u00e3o XXIII: a beatifica\u00e7\u00e3o infeliz. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">l. O que \u00e9 a santidade para a Igreja do Vaticano II? Eis a quest\u00e3o que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do problema das novas canoniza\u00e7\u00f5es. Os elementos que examinamos nos revelam uma nova concep\u00e7\u00e3o da santidade. Essa concep\u00e7\u00e3o influi sobre a Igreja e seus membros, a tal ponto que a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 realmente a santidade se apaga pouco a pouco no povo cat\u00f3lico, e tamb\u00e9m \u2013 sobretudo \u2013 no clero e nas comunidades religiosas. A onda de abandono do sacerd\u00f3cio e da vida religiosa que seguiu depois do Vaticano II \u00e9 uma marca reveladora.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">2. A inten\u00e7\u00e3o do papa \u00e9 determinante quanto \u00e0 infalibilidade de seus atos. Em que medida o papa Jo\u00e3o Paulo II quer executar verdadeiras canoniza\u00e7\u00f5es que tenham a marca da infalibilidade? Os diferentes ind\u00edcios recolhidos em seus discursos e suas homilias tendem a mostrar que sua inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o se identifica mais com aquela que animou seus predecessores.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">3. No ambiente de confus\u00e3o atual do magist\u00e9rio, n\u00e3o podemos nos basear sobre feitos pontuais para termos no\u00e7\u00e3o da inten\u00e7\u00e3o do papa. Mas se consideramos o conjunto de sua obra, somos for\u00e7ados a constatar que ele sempre repugnou colocar um ato infal\u00edvel. (Como por exemplo, no caso do documento sobre a recusa da ordena\u00e7\u00e3o das mulheres). Como o papa querer\u00e1 obrigar o conjunto dos fi\u00e9is a aceitar colocar sobre os altares simultaneamente o Padre Pio e Mons. Balaguer? O segundo encorajou e, em certos dom\u00ednios, antecipou-se \u00e0s reformas do conc\u00edlio, destruidoras da Igreja; o primeiro as amaldi\u00e7oou.[fn] Em 1967, o Padre geral dos capuchinhos pergunta ao Padre Pio: \u201c<em>Reze por nosso cap\u00edtulo geral capuchinho que vai se abrir para redigir novas constitui\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d. A essas palavras, o Padre teve um gesto de raiva, exclamando: \u201c<em>\u00c9 s\u00f3 tagarelice e ru\u00ednas<\/em>!\u201d Algumas semanas mais tarde, quando o papa iria receber o cap\u00edtulo dos capuchinhos em audi\u00eancia, Padre Pio escreveu a Paulo VI: \u201c<em>Eu rogo ao Senhor que ela (a ordem dos capuchinhos) (&#8230;) continue na sua tradi\u00e7\u00e3o de seriedade e austeridade religiosa, de pobreza evang\u00e9lica, de observ\u00e2ncia da regra e das constitui\u00e7\u00f5es.<\/em>\u201d Quando novas constitui\u00e7\u00f5es foram anunciadas, Padre Pio teve a mesma rea\u00e7\u00e3o muito viva: \u201c<em>Mas o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo em Roma? O que o senhor est\u00e1 combinando? O senhor quer mudar at\u00e9 mesmo a regra de s\u00e3o Francisco<\/em>!\u201d Fonte: P.Jean, OFM cap.,Cartas aos amigos de S\u00e3o Francisco, P\u00e9re Jean, n.17, 2 de fevereiro de 1999. [\/fn] Jo\u00e3o XXIII introduziu \u2013 convocando o conc\u00edlio \u2013 com grande pompa, o liberalismo e o modernismo na Igreja, Pio IX os condenou.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">4. N\u00e3o duvidamos da heroicidade das virtudes de algumas pessoas canonizadas por Jo\u00e3o Paulo II. Mas \u00e9 preciso reconhecer que elas se santificaram e que atingiram um grau extraordin\u00e1rio de gra\u00e7a e de virtude pelos meios tradicionais. A espiritualidade na qual se santificou um Padre Pio \u00e9 a ant\u00edtese mais radical da nova missa de Paulo VI.[fn]Cf. <em>O problema da reforma lit\u00fargica<\/em>, ed.Perman\u00eancia, Rio de Janeiro, 2001[\/fn] O fato de que um Padre Pio seja canonizado no ambiente da nova missa envolve uma confus\u00e3o de esp\u00edritos. A utiliza\u00e7\u00e3o de causas s\u00e3s e santas em proveito da prega\u00e7\u00e3o da nova religi\u00e3o \u00e9 um dos golpes de mestre de Satan\u00e1s.[fn]&nbsp;Citamos a mensagem publicada pela Confer\u00eancia dos bispos do M\u00e9xico explicando o sentido profundo da canoniza\u00e7\u00e3o de Juan Diego pelo papa Jo\u00e3o Paulo II: \u201c<em>Essa canoniza\u00e7\u00e3o torna igualmente palp\u00e1vel o amor providencial da Igreja e do Papa pelos ind\u00edgenas e reitera sua firme oposi\u00e7\u00e3o as injusti\u00e7as, viol\u00eancias e abusos dos quais esse povo foi v\u00edtima durante s\u00e9culos. A Igreja observa e convida a observar com amor e esperan\u00e7a os valores ind\u00edgenas aut\u00eanticos&#8230; Para essa canoniza\u00e7\u00e3o, o Papa encoraja os povos aut\u00f3ctones do M\u00e9xico e de toda a Am\u00e9rica a conservar essa s\u00e3 firmeza na cultura de seus ancestrais e sustenta as aspira\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas e as justas reivindica\u00e7\u00f5es de todos os ind\u00edgenas. A vida de Juan Diego deve retomar o \u00e9lan na constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o mexicana: uma na\u00e7\u00e3o de in\u00edcio pronta a se reconciliar com suas origens, sua hist\u00f3ria, seus valores e suas tradi\u00e7\u00f5es; uma na\u00e7\u00e3o, em seguida, cujo desenvolvimento seria fundado sobre o valor da pessoa humana, respeitado na sua integridade; uma na\u00e7\u00e3o onde o encontro da diversidade e da comunh\u00e3o se far\u00e1 na criatividade; uma na\u00e7\u00e3o onde as leis poderiam n\u00e3o somente proteger as regras da vida em sociedade, mas igualmente assegurar a justi\u00e7a e solidariedade; uma na\u00e7\u00e3o, enfim, onde a dignidade dos mais vulner\u00e1veis seria defendida e onde os mais favorisados poderiam deixar livre-curso a sua fraternidade. N\u00f3s perguntamos a doce M\u00e3e da Na\u00e7\u00e3o mexicana, padroeira da Am\u00e9rica e das Filipinas, para nos ajudar a fazer nossa sua pedagogia a fim de chegar a uma evangeliza\u00e7\u00e3o inculturada em todas as regi\u00f5es, todos os lugares e todos os setores do M\u00e9xico e do continente americano.<\/em>\u201d A documenta\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica n\u00ba 2276 de 15\/09\/2002. [\/fn]<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-size:14px\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">NOTAS:<\/span><\/span><\/p>\n<div>\n<hr \/>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Apresenta\u00e7\u00e3o de D. Louren\u00e7o Fleichman OSB O texto que segue foi publicado no nosso antigo site Capela. Como o tema volta \u00e0 atualidade com o an\u00fancio da canoniza\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII e de Jo\u00e3o Paulo II,&nbsp; aproveitamos para republic\u00e1-lo. 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