{"id":248,"date":"2016-10-04T09:49:52","date_gmt":"2016-10-04T12:49:52","guid":{"rendered":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=248"},"modified":"2016-10-04T09:49:52","modified_gmt":"2016-10-04T12:49:52","slug":"panegirico-de-sao-francisco-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=248","title":{"rendered":"Paneg\u00edrico de S\u00e3o Francisco de Assis"},"content":{"rendered":"<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong><img decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-247\" alt=\"\" src=\"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/bc11931ccb02d745d388464874673100-5e0.jpg\" style=\"float:left; height:344px; margin:10px; width:250px\" \/><\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"rteright\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>&nbsp;<\/strong>Bossuet<\/span><\/p>\n<p class=\"rteright\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">(Pregado em Metz no dia 4 de outubro de 1665)<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Sublime e celeste loucura de S\u00e3o Francisco, que lhe faz colocar as suas riquezas na pobreza, as suas del\u00edcias nos sofrimentos, a sua gl\u00f3ria na humilha\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Si quis videtur inter vos sapiens esse in hoc saeculo, stultus Fiat ut sit sapiens.<\/em><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8220;Se no meio de v\u00f3s h\u00e1 algu\u00e9m s\u00e1bio segundo o s\u00e9culo, fa\u00e7a-se louco para ser s\u00e1bio&#8221; (1Cor 3, 18).<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O Salvador Jesus Cristo, crist\u00e3os, deu um amplo assunto de discuss\u00e3o, ainda que de modo bem diverso, a quatro sorte de pessoas: aos judeus, aos gentios, aos hereges e aos fi\u00e9is. Os judeus, preocupados com essa opini\u00e3o mal fundada do Messias vir ao mundo com pompa real, prevenidos por essa falsa cren\u00e7a, aproximam-se do Salvador. Viram-no reduzido \u00e0 mais completa simplicidade, sem nada do que impressiona os sentidos, um pobre homem sem fausto e sem gl\u00f3ria: desprezaram-no. \u201cJesus lhes era um esc\u00e2ndalo: <em>Judaeis quidem scandalum<\/em>, diz o grande ap\u00f3stolo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\" title=\"\">[2]<\/a>. Os gentios por sua vez, que se tinham por autores e senhores da boa filosofia, e que, desde longos s\u00e9culos, viram brilhar no meio deles os esp\u00edritos mais c\u00e9lebres do mundo, quiseram examinar a Jesus Cristo segundo as m\u00e1ximas recebidas pelos s\u00e1bios da terra. Mas, ouvindo falar de um Deus feito homem, que vivera miseravelmente, que fora pregado em uma cruz, fizeram dele um objeto de esc\u00e1rnio. \u201cJesus foi para eles uma loucura,\u201d <em>Gentibus autem stultitiam<\/em>, continua S\u00e3o Paulo. &nbsp;<\/span><a href=\"http:\/\/permanencia.org.br\/drupal\/node\/5204\" style=\"font-family: inherit; line-height: 1.6em; font-style: inherit; margin: 0px; padding: 0px; border: 0px; color: rgb(51, 102, 153); text-decoration: none;\" title=\"Ler o resto de Paneg\u00edrico de S\u00e3o Francisco de Assis.\">Leia mais<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong><img decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-247\" alt=\"\" src=\"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/bc11931ccb02d745d388464874673100-5e0.jpg\" style=\"float:left; height:344px; margin:10px; width:250px\" \/><\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"rteright\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><strong>&nbsp;<\/strong>Bossuet<\/span><\/p>\n<p class=\"rteright\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">(Pregado em Metz no dia 4 de outubro de 1665)<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Sublime e celeste loucura de S\u00e3o Francisco, que lhe faz colocar as suas riquezas na pobreza, as suas del\u00edcias nos sofrimentos, a sua gl\u00f3ria na humilha\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><em>Si quis videtur inter vos sapiens esse in hoc saeculo, stultus Fiat ut sit sapiens.<\/em><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">&#8220;Se no meio de v\u00f3s h\u00e1 algu\u00e9m s\u00e1bio segundo o s\u00e9culo, fa\u00e7a-se louco para ser s\u00e1bio&#8221; (1Cor 3, 18).<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O Salvador Jesus Cristo, crist\u00e3os, deu um amplo assunto de discuss\u00e3o, ainda que de modo bem diverso, a quatro sorte de pessoas: aos judeus, aos gentios, aos hereges e aos fi\u00e9is. Os judeus, preocupados com essa opini\u00e3o mal fundada do Messias vir ao mundo com pompa real, prevenidos por essa falsa cren\u00e7a, aproximam-se do Salvador. Viram-no reduzido \u00e0 mais completa simplicidade, sem nada do que impressiona os sentidos, um pobre homem sem fausto e sem gl\u00f3ria: desprezaram-no. \u201cJesus lhes era um esc\u00e2ndalo: <em>Judaeis quidem scandalum<\/em>, diz o grande ap\u00f3stolo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\" title=\"\">[2]<\/a>. Os gentios por sua vez, que se tinham por autores e senhores da boa filosofia, e que, desde longos s\u00e9culos, viram brilhar no meio deles os esp\u00edritos mais c\u00e9lebres do mundo, quiseram examinar a Jesus Cristo segundo as m\u00e1ximas recebidas pelos s\u00e1bios da terra. Mas, ouvindo falar de um Deus feito homem, que vivera miseravelmente, que fora pregado em uma cruz, fizeram dele um objeto de esc\u00e1rnio. \u201cJesus foi para eles uma loucura,\u201d <em>Gentibus autem stultitiam<\/em>, continua S\u00e3o Paulo. &nbsp;<\/span><a href=\"http:\/\/permanencia.org.br\/drupal\/node\/5204\" style=\"font-family: inherit; line-height: 1.6em; font-style: inherit; margin: 0px; padding: 0px; border: 0px; color: rgb(51, 102, 153); text-decoration: none;\" title=\"Ler o resto de Paneg\u00edrico de S\u00e3o Francisco de Assis.\">Leia mais<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><!--break--> <\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ap\u00f3s estes vieram outros homens, chamados na Igreja maniqueus e marcionitas, todos dissimulando ser crist\u00e3os. Comovidos pelas terr\u00edveis investidas dos gentios contra o filho de Deus, quiseram defend\u00ea-lo dos insultos desses id\u00f3latras, mas de um modo contr\u00e1rio aos des\u00edgnios da bondade divina sobre n\u00f3s. Essas fraquezas do nosso Deus, <em>pusillitates Dei<\/em>, como um antigo as chamava<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\" title=\"\">[3]<\/a>, pareceram-lhes vergonhosas para declar\u00e1-las francamente. Ao inv\u00e9s dos gentios que as exageravam para servir-lhes de objeto de esc\u00e1rnio, estes procuravam dissimular, esfor\u00e7ando-se para diminuir alguma coisa dos opr\u00f3brios do Evangelho t\u00e3o \u00fateis \u00e0 nossa salva\u00e7\u00e3o. Pensavam, com os gentios e com os judeus, ser indigno de um Deus tomar uma carne como a nossa, e sujeitar-se a tantos sofrimentos. Para escusar essas humilha\u00e7\u00f5es, sustentavam que o seu corpo era imagin\u00e1rio, e, por conseguinte, o seu nascimento, a sua paix\u00e3o e morte eram fant\u00e1sticos e ilus\u00f3rios, em uma palavra, toda a sua vida n\u00e3o fora sen\u00e3o uma representa\u00e7\u00e3o sem realidade. As verdades de Jesus eram um esc\u00e2ndalo para esses hereges, pois fizeram um fantasma da causa de nossa esperan\u00e7a. Quiseram ser muito s\u00e1bios, e destru\u00edram, segundo as suas for\u00e7as, a desonra necess\u00e1ria de nossa f\u00e9: <em>Necessarium dedecus fidei<\/em>, diz o grave Tertuliano<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\" title=\"\">[4]<\/a> .<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Os verdadeiros servos de Jesus Cristo n\u00e3o tiveram essas delicadezas, nem essas v\u00e3s complac\u00eancias. N\u00e3o creram as coisas ao meio, nem envergonharam-se da ignom\u00ednia do Mestre; n\u00e3o temeram publicar por toda a terra o esc\u00e2ndalo e a loucura da cruz em toda sua extens\u00e3o: profetizaram aos gentios que essa loucura destruir\u00eda-lhes a sabedoria. Quanto a esses absurdos que os pag\u00e3os encontravam em nossa doutrina, os nossos pais responderam que as verdades evang\u00e9licas lhes pareciam tanto mais veross\u00edmeis quanto pareciam imposs\u00edveis \u00e0 filosofia humana: <em>Prorsus credibile est, quia ineptum est,&#8230; certum est, quia impossibile est,<\/em> dizia outrora Tertuliano<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\" title=\"\">[5]<\/a> . A nossa f\u00e9 compraz-se em atordoar a sabedoria humana com proposi\u00e7\u00f5es temer\u00e1rias que ela n\u00e3o pode compreender.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Desde esse tempo, meus irm\u00e3os, a loucura tornou-se uma qualidade honrosa, e o ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo publicou por ordem de Deus esse edito que citei em meu texto: \u201cSe algu\u00e9m quer ser s\u00e1bio, fa\u00e7a-se antes louco\u201d, <em>stultus fiat ut sit sapiens<\/em>. N\u00e3o admirai-vos, portanto, se, devendo fazer hoje o paneg\u00edrico de S\u00e3o Francisco, mostro-vos a sua loucura, muito mais estim\u00e1vel que toda a prud\u00eancia do mundo. Como a primeira e a maior loucura, isto \u00e9, a mais alta e a mais divina sabedoria que prega o Evangelho \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o do Salvador, n\u00e3o \u00e9 fora de prop\u00f3sito, para j\u00e1 ter alguma ideia do que devo vos dizer, que mediteis sobre esse augusto mist\u00e9rio enquanto recitamos as palavras que o anjo dirigiu a Maria, dando-lhe esta not\u00edcia. Imploremos, pois, a assist\u00eancia do Esp\u00edrito Santo pela intercess\u00e3o da Sant\u00edssima Virgem. <em>Ave.<\/em><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A orgulhosa sabedoria do s\u00e9culo, n\u00e3o podendo compreender a justi\u00e7a dos caminhos de Deus, emprega todas as suas falsas luzes para contradiz\u00ea-las, mas \u00e9 admiravelmente confundida pela doutrina do Evangelho e pelos sant\u00edssimos mist\u00e9rios do Salvador Jesus. O poder divino, desde a origem do universo, come\u00e7ara a fazer-lhe sentir a sua fraqueza, propondo-lhe enigmas indecifr\u00e1veis na ordem das criaturas, e apresentando-lhe o mundo como um assunto inesgot\u00e1vel de quest\u00f5es in\u00fateis que jamais ser\u00e3o esclarecidas por decis\u00e3o alguma. Era certamente cr\u00edvel que esses grandes e impenetr\u00e1veis segredos que limitam e prendem fortemente os conhecimentos do esp\u00edrito humano marcariam ao mesmo tempo fronteiras ao seu orgulho. Infelizmente, isto assim n\u00e3o se deu, e eis a causa mais plaus\u00edvel: a raz\u00e3o humana sempre temer\u00e1ria e presun\u00e7osa, tendo recebido uma pequena claridade nas obras da natureza, imaginou logo descobrir alguma enorme e prodigiosa luz, e em vez de adorar o Criador, admirou-se a si pr\u00f3pria. O orgulho, crist\u00e3os, tem isto de particular: aumenta por si mesmo, t\u00e3o pequenos sejam os seus come\u00e7os, porque exalta sempre as primeiras complac\u00eancias pelas suas vaidosas reflex\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O homem, cheio de suas lindas concep\u00e7\u00f5es, persuade-se que toda a ordem do mundo deve seguir as suas m\u00e1ximas. Cansou-se de obedecer ao governo que Deus lhe tinha prescrito, a fim de o conduzir a si pr\u00f3prio, como a seu princ\u00edpio. Ao contr\u00e1rio, pretendeu que a Divindade se regulasse segundo as suas ideias. Fez deuses a seu jeito, e adorou os seus trabalhos e as suas fantasias, e, tendo-se perdido, como diz o Ap\u00f3stolo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\" title=\"\">[6]<\/a>, na incerteza de seus pensamentos, quando pensou elevar-se ao apogeu da sabedoria, precipitou-se em uma excessiva loucura: <em>Dicentes enim se esse sapientes, stulti facti sunt<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\" title=\"\"><strong>[7]<\/strong><\/a> <\/em>.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">A eterna sabedoria, que se compraz em sanar ou confundir a sabedoria humana, sentiu-se for\u00e7ada a formar novos planos e a come\u00e7ar uma nova ordem de coisas por Nosso Senhor Jesus Cristo. Admirai a profundeza de seus julgamentos. No primeiro trabalho que Deus nos prop\u00f4s, essa bela oficina do mundo, o nosso esp\u00edrito via antes de tudo os tra\u00e7os da sabedoria infinita. No segundo trabalho, que compreende a doutrina e a vida do nosso Mestre crucificado, n\u00e3o se descobre, a primeira vista, sen\u00e3o loucura e extravag\u00e2ncia. No primeiro, diz\u00edamos h\u00e1 pouco, a raz\u00e3o humana descobria alguma coisa, e, tornando-se insolente, n\u00e3o quis reconhecer aquele que lhe dava suas luzes. No segundo, de uma outra superioridade, perderam-se todos os seus conhecimentos, ela n\u00e3o soube onde se agarrar, e \u00e9 necess\u00e1rio, ou que que ela se submeta a uma raz\u00e3o mais alta, ou seja confundida: de um modo ou de outro a vit\u00f3ria \u00e9 da sabedoria divina.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">\u00c9 o que conclu\u00edmos deste douto racioc\u00ednio do Ap\u00f3stolo. O nosso Deus, diz esse grande personagem, introduziu o homem nesse belo edif\u00edcio do mundo, a fim de que, admirando a arte, adorasse o arquiteto. O homem, porem, n\u00e3o utilizou-se da sabedoria que Deus lhe dera para reconhecer o Criador pelas obras de sua sabedoria, como declara o Ap\u00f3stolo: <em>Quia in Dei sapientia non cognovit mundus per sapentam Deum<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\" title=\"\"><strong>[8]<\/strong><\/a><\/em> . Que acontecer\u00e1, santo ap\u00f3stolo? Deus, acrescenta ele, p\u00f4s esta lei eterna, que dora avante os crentes n\u00e3o se poder\u00e3o salvar sen\u00e3o pela loucura da prega\u00e7\u00e3o: <em>Placuit Deo per stultitiam praedicationis salvos facere credentes<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\" title=\"\"><strong>[9]<\/strong><\/a><\/em>. Que far\u00e1s, \u00f3 obstinada raz\u00e3o humana? \u00c9s vivamente perseguida por essa sabedoria profunda que aparece a teus olhos sob uma loucura aparente. Vejo-te reduzida \u00e0 \u00faltima extremidade, porque de um lado ou de outro a loucura \u00e9 inevit\u00e1vel; na cruz de Nosso Senhor e em toda a conduta do Evangelho, os pensamentos de Deus e os teus s\u00e3o opostos, e tal \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o que uns sendo s\u00e1bios, outros fatalmente ser\u00e3o extravagantes.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Que faremos n\u00f3s, crist\u00e3os? Se cedemos ao Evangelho, todas as m\u00e1ximas da prud\u00eancia humana nos declaram loucos e da mais alta loucura. Se acusarmos de loucura a sabedoria incompreens\u00edvel de Deus, somos necessariamente furiosos e dem\u00f4nios. Ah! Deixemos antes todas as nossas m\u00e1ximas, condenemos as nossas coer\u00eancias, curvemo-nos sob o jugo da f\u00e9, e, libertando-nos dessa falsa sabedoria com que nos vangloriamos, tornemo-nos felizmente insensatos por amor de nosso Salvador que, sendo a sabedoria do Pai, dignou-se passar por louco neste mundo, a fim de nos ensinar a prud\u00eancia celeste, em uma palavra, se entre n\u00f3s h\u00e1 quem pretenda a verdadeira sabedoria, que se fa\u00e7a louco a fim de ser s\u00e1bio, <em>sultus fiat ut sit sapens<\/em>, diz o grande ap\u00f3stolo.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ei-la, crist\u00e3os, ei-la, essa ilustre, essa generosa, essa s\u00e1bia e triunfante loucura do cristianismo, que confunde tudo o que se op\u00f5e \u00e0 ci\u00eancia de Deus, que torna humilde ou subjuga invencivelmente a raz\u00e3o humana, sempre tendo a gloriosa vit\u00f3ria. Ei-la, essa bela loucura que deve ser o \u00fanico ornamento do paneg\u00edrico de S\u00e3o Francisco, como vos prometi, e que far\u00e1 o seu elogio. Notareis desde j\u00e1 que h\u00e1 uma conveni\u00eancia necess\u00e1ria entre os costumes dos crist\u00e3os e a doutrina do cristianismo. Essa loucura aparente, que est\u00e1 na palavra do Filho de Deus, deve passar por imita\u00e7\u00e3o na vida dos seus servos. Eles s\u00e3o um Evangelho vivo. O Evangelho escrito em nossos livros, e o que o Esp\u00edrito Santo digna-se escrever na alma dos santos, que podem ser lidos em suas a\u00e7\u00f5es como em belos caracteres, desagradam igualmente a falsa prud\u00eancia do mundo.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Imaginai, pois, que Francisco, tendo considerado os grandes e vastos caminhos do mundo, que lavam \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o, resolveu seguir caminhos completamente opostos. O conselho mais vulgar que nos d\u00e1 a sabedoria humana \u00e9 de ajuntar riquezas, de fazer valer os seus bens e de adquirir novos: \u00e9 do que se fala em todos os gabinetes, \u00e9 do que se fala em todas as companhias, \u00e9 o assunto comum de todas as delibera\u00e7\u00f5es. H\u00e1, portanto, outras pessoas que se julgam mais finas, que vos dir\u00e3o que as riquezas s\u00e3o bens estranhos \u00e0 natureza; que \u00e9 prefer\u00edvel gozar da do\u00e7ura da vida e temperar com sensualidades as cont\u00ednuas amarguras. \u00c9 esta uma outra categoria de s\u00e1bios. Mas h\u00e1 outros ainda que, talvez, censurar\u00e3o esses sect\u00e1rios t\u00e3o ardentes das riquezas e das del\u00edcias. Quanto a n\u00f3s, dir\u00e3o eles, fa\u00e7amos profiss\u00e3o de honra, n\u00e3o buscando outra coisa com tanto cuidado que a reputa\u00e7\u00e3o e a gl\u00f3ria. Se penetrardes em suas consci\u00eancias, vereis que se consideram os \u00fanicos homens honestos do mundo: gastam o esp\u00edrito em vig\u00edlias e em perturba\u00e7\u00f5es a fim de adquirirem cr\u00e9dito para chegarem \u00e0s honras. S\u00e3o, segundo a minha opini\u00e3o, as tr\u00eas coisas que dirigem todos os neg\u00f3cios do mundo, armam todas as intrigas, inflamam todas as paix\u00f5es, suscitam todas as movimenta\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ah! como o nosso admir\u00e1vel Francisco reconheceu a ilus\u00e3o de todos esses bens imagin\u00e1rios! Ele diz que as riquezas escravizam os cora\u00e7\u00f5es, que as honras os prendem, que os prazeres os enfraquecem. Ele quer constituir as suas riquezas na pobreza, as suas del\u00edcias nos sofrimentos, a sua gl\u00f3ria na humilha\u00e7\u00e3o. Oh! loucura! E Deus que pensa fazer? Oh! o mais insensato dos homens, segundo a sabedoria do s\u00e9culo, por\u00e9m, o mais s\u00e1bio, o mais inteligente, o mais atilado, segundo a sabedoria de Deus! \u00c9 o que procurarei mostrar no correr deste discurso.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rtecenter\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">I<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Quando tomei a resolu\u00e7\u00e3o de vos entreter hoje das tr\u00eas vit\u00f3rias de S\u00e3o Francisco sobre as riquezas do mundo, sobre os seus prazeres, sobre as suas honras, estava persuadido que poderia apresent\u00e1-las uma ap\u00f3s a outra; vejo agora ser uma tentativa imposs\u00edvel e, tendo de come\u00e7ar pela profiss\u00e3o generosa que fez da pobreza, sou obrigado a declarar-vos que, s\u00f3 por esta resolu\u00e7\u00e3o, ele colocou-se infinitamente acima das honras e dos opr\u00f3brios, dos inc\u00f4modos e do bem-estar, e de tudo o que no mundo se chama bem ou mal, porque seria n\u00e3o conhecer a natureza da pobreza consider\u00e1-la como um mal separado dos outros. Penso, crist\u00e3os, que, quando inventou-se esse nome, se quis exprimir n\u00e3o um mal particular, mas um abismo de todos o males e o conjunto de todas as mis\u00e9rias que afligem a vida humana. Ousaria quase afirmar que foi um dem\u00f4nio que, desejando tornar a pobreza insuport\u00e1vel, descobriu o meio de atribuir \u00e0s riquezas tudo o que h\u00e1 de honor\u00edfico e de agrad\u00e1vel no mundo. Eis por que a linguagem vulgar as chama bens em geral, porque s\u00e3o instrumentos comuns para adquirir todos os outros. Deste modo poder\u00edamos chamar a pobreza um mal geral, porque, tendo as riquezas tomado para si a alegria, a abund\u00e2ncia, o aplauso, o favor, s\u00f3 restam \u00e0 pobreza a tristeza e o desespero, a extrema necessidade, e o que mais \u00e9 insuport\u00e1vel, o desprezo e a escravid\u00e3o. Isto fez dizer ao S\u00e1bio que a pobreza entrava em uma casa como o soldado armado: <em>Pauperies quase vir armatus<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\" title=\"\"><strong>[10]<\/strong><\/a><\/em>. Singular compara\u00e7\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Dir-vos-ei, crist\u00e3os, quanto \u00e9 horr\u00edvel em uma pobre casa uma guarni\u00e7\u00e3o de soldados? Oxal\u00e1! que soub\u00e9sseis isto somente de minha boca! Ai! as nossas campanhas desertas, as nossas aldeias miseravelmente devastadas, dizem bastante que somente este terror fez fugir todos os seus habitantes. Julgai, julgai por a\u00ed, quanto \u00e9 terr\u00edvel a pobreza, pois a guerra, o horror do g\u00eanero humano, o mais cruel monstro que o inferno vomitou para a ru\u00edna dos homens, n\u00e3o apresenta nada mais abomin\u00e1vel do que essa desola\u00e7\u00e3o, essa indig\u00eancia, essa pobreza que necessariamente arrasta ap\u00f3s si. E n\u00e3o basta que a pobreza seja atormentada por tantas dores, sem ainda sebrecarreg\u00e1-la de opr\u00f3brio e de ignom\u00ednia? As febres, as enfermidades, que s\u00e3o os nossos maiores males, t\u00eam isto de bom, que n\u00e3o envergonham a ningu\u00e9m. Em todos os outros infort\u00fanios observamos que cada qual toma prazer em contar os seus males e as suas desgra\u00e7as.&nbsp; A pobreza tem isto de comum com o v\u00edcio: ela nos envergonha, como se ser pobre fosse ser criminoso.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Quantos privam-se das satisfa\u00e7\u00f5es e at\u00e9 das necessidades da vida a fim de sustentarem uma pobreza honrosa! Quantos tornam-se realmente pobres, procurando atender a n\u00e3o sei que ponto de honra, com uma despesa que os prejudica! Por que isto, crist\u00e3os, sen\u00e3o porque, na estima dos homens, quem diz pobre, diz esc\u00f3ria do mundo? Por isso o profeta Davi, tendo descrito as diversas mis\u00e9rias dos pobres, conclui com esta palavra dirigida a Deus: <em>Tibi derelictus est pauper<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\" title=\"\"><strong>[11]<\/strong><\/a><\/em> : \u201cSenhor, o pobre vos \u00e9 abandonado\u201d; e vemos n\u00f3s alguma coisa de mais comum no mundo? Quando os pobres dirigem-se a n\u00f3s, a fim de socorrermos as suas necessidades, o favor mais comum que lhes prestamos \u00e9 desejar que Deus os proteja. Deus vos ajude! dizemo-lhes n\u00f3s. Contribuir, por\u00e9m, com alguma coisa para socorr\u00ea-los \u00e9 o menor dos nossos pensamentos. N\u00f3s nos descarregamos sobre a miseric\u00f3rdia divina, n\u00e3o refletindo que \u00e9 pelas nossas m\u00e3os e pelo nosso minist\u00e9rio, que Deus resolveu conceder-lhes a miseric\u00f3rdia que lhes desejamos; tanto \u00e9 verdade que ningu\u00e9m se ocupa dos pobres! Cada qual trabalha, cada qual apressa-se em servir os grandes; e somente a Deus pertence ocupar-se dos pobres: <em>Tibi derelictus est!<\/em><\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Sendo isto assim, como mostra a experi\u00eancia, quando um homem colocado no s\u00e9culo, como S\u00e3o Francisco, toma a resolu\u00e7\u00e3o de fazer suas del\u00edcias da pobreza, \u00e9 preciso que seja uma alma extremamamente convencida do desprezo de todos esses bens imagin\u00e1rios que t\u00eam todas as nossas predile\u00e7\u00f5es. Vede-o, crist\u00e3os: Francisco, esse rico negociante de Assis, enviado por seu pai a Roma para tratar dos seus neg\u00f3cios, entretem-se com um pobre em plena rua. Ah, Deus! que h\u00e1 de comum o seu neg\u00f3cio com essa sorte de gente? Que com\u00e9rcio quer concluir com esse pobre homem? Ah! o admir\u00e1vel tr\u00e1fico, a rica e preciosa permuta! ele quer ter a veste desse pobre, dando-lhe a sua, e satisfeito dessa troca, de uma veste limpa com outra em farrapos, mostra-se alegre vestido de pobre, enquanto o pobre est\u00e1 embara\u00e7ado com uma veste de burgu\u00eas.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Jesus, meu Salvador, dissestes que sois vestido quando algu\u00e9m cobre a nudez dos vossos pobres, poderei eu exprimir como esta a\u00e7\u00e3o vos foi agrad\u00e1vel? A hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica ensina-me que S\u00e3o Martinho, vosso servo, tendo dado parte do seu manto a um pobre que lhe pedia esmola, aparecestes-lhe em uma vis\u00e3o maravilhosa, coberto divinamente com essa metade do manto, glorifcando-vos na presen\u00e7a de vossos santos anjos que Martinho, ainda catec\u00fameno, vos tinha dado esse h\u00e1bito. Permiti-me, \u00f3 meu Mestre, uma palavra familiar, que ouso avan\u00e7ar depois do que v\u00f3s mesmo dissestes. Se \u00e9 verdade que estimais o que se vos d\u00e1 na pessoa dos vossos pobres<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\" title=\"\">[12]<\/a>, como deveis vos glorificar do presente que voz fez Francisco! N\u00e3o priva-se unicamente do seu manto por amor vosso; ele quer vestir-vos todo inteiro; ele vos d\u00e1 um h\u00e1bito completo. Ainda mais: tendo aprendido em vosso Evangelho que, quando estivestes na terra, vivestes na pobreza, n\u00e3o satisfeito de vos ter vestido, parece pedir-vos tamb\u00e9m que seja vestido como v\u00f3s: ele cobre-se com as vestes do pobre para ser semelhante a v\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">E, com esse maravilhoso aparato, tanto mais magn\u00edfico quanto era abjeto, sigamo-lo, meus irm\u00e3os, porque veremos ainda uma a\u00e7\u00e3o surpreendente. Dirige-se ao templo de Deus, dedicado \u00e0 mem\u00f3ria dos ap\u00f3stolos S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, esses dois pobres ilustres que viram imperadores prostrados diante dos seus t\u00famulos: a\u00ed, sem considerar que poderia ser reconhecido, e sabeis que o com\u00e9rcio facilita as rela\u00e7\u00f5es, confunde-se com os pobres que ele sabe ser os irm\u00e3os e os prediletos do Salvador; faz o noviciado dessa pobreza generosa \u00e0 qual \u00e9 chamado pelo seu Mestre: sente voluntariamente a vergonha e a ignom\u00ednia que lhe eram agrad\u00e1veis; resiste fortemente ao efeminado e covarde pudor do s\u00e9culo, que n\u00e3o pode tolerar os opr\u00f3brios, bem que tenham sido consagrados na pessoa do Filho de Deus. Ah! Come\u00e7a bem a sua profiss\u00e3o de loucura da cruz e da pobreza evang\u00e9lica!<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Antes de ir mais longe, fi\u00e9is, \u00e9 necess\u00e1rio, para melhor conhecermos o valor, que n\u00f3s nos desenganemos dessa admira\u00e7\u00e3o insensata das riquezas em que fomos educados; \u00e9 necess\u00e1rio que eu vos mostre com invenc\u00edveis racioc\u00ednios, as grandezas da pobreza segundo as m\u00e1ximas do Evangelho. E podereis ent\u00e3o concluir quanto \u00e9 injusto o desprezo dos pobres, que h\u00e1 pouco vos descrevia. Mas, a fim de faz\u00ea-lo com maior proveito, deixemos aos oradores do mundo a pompa e a majestade do estilo paneg\u00edrico; eles n\u00e3o se preocupam que sejam escutados, desde que reconhecem que s\u00e3o admirados. N\u00f3s, por\u00e9m, nesta tribuna do Salvador Jesus, ornemos o nosso discurso com a simplicidade do Evangelho, e alimentemos as nossas almas com verdades s\u00f3lidas e intelig\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Afirmo, pois, \u00f3 ricos do s\u00e9culo, que fazeis mal em tratar com injurioso desprezo os pobres. Se quisermos remontar a origem das coisas ver\u00edamos que n\u00e3o tendes mais que eles direito aos bens deste mundo. A natureza, ou antes, para falar crist\u00e3mente, Deus, o pai comum dos homens, desde o come\u00e7o, deu a todos os seus filhos um direito igual sobre todas as coisas de que t\u00eam necessidade para a conserva\u00e7\u00e3o da vida. Nenhum de n\u00f3s pode glorificar-se de ser mais avantajado que os outros pela natureza, mas o insaci\u00e1vel desejo de ajuntar n\u00e3o permitiu que essa bela fraternidade durasse muito tempo no mundo, Foi necess\u00e1rio vir a divis\u00e3o, a propriedade, causa de discuss\u00f5es e de processos: vem da\u00ed esses voc\u00e1bulos ego\u00edstas, segundo S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\" title=\"\">[13]<\/a>; da\u00ed essa grande variedade de condi\u00e7\u00f5es, uns vivendo na abund\u00e2ncia de todas as coisas, outros definhando em extrema indig\u00eancia. Por este motivo muitos santos Padres, contemplando a origem das coisas e a geral liberalidade da natureza para com os homens, n\u00e3o hesitaram em afirmar que era privar os pobres de seus bens, negando-lhes o que nos \u00e9 sup\u00e9rfluo.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">N\u00e3o quero dizer com isto, meus irm\u00e3os, que sois apenas os dispensadores de vossas riquezas; n\u00e3o \u00e9 o que pretendo, porque a divis\u00e3o dos bens tendo sido feita pelo consenso comum de todos os povos, e tendo sido autorizada por lei divina, sois os senhores e os propriet\u00e1rios da por\u00e7\u00e3o que vos coube; mas, aprendei que, sendo os verdadeiros propriet\u00e1rios segundo a justi\u00e7a dos homens, deveis vos considerar os dispensadores diante da justi\u00e7a de Deus, a quem prestareis conta. N\u00e3o vos persuadis que ele abandonou o cuidado dos pobres; bem que estejam privados de tudo n\u00e3o penseis que perderam o direito narutal, que t\u00eam nas coisas comuns que lhes s\u00e3o necess\u00e1rias. N\u00e3o, n\u00e3o, \u00f3 ricos do s\u00e9culo; n\u00e3o \u00e9 somente para v\u00f3s que Deus faz o sol levantar, que ele orvalha a terra, em cujo seio faz desabrochar t\u00e3o grande variedade de sementes; os pobres a\u00ed t\u00eam a sua parte tanto como v\u00f3s. Confesso que Deus n\u00e3o lhes entregou capital em propriedade, mas destinou-lhes a subsist\u00eancia nos bens que possuis, tanto quanto sois ricos. N\u00e3o quer isto dizer que n\u00e3o pudesse sustent\u00e1-los de um outro modo, pois, sob o seu governo, aos animais, mesmo os mas vis, n\u00e3o faltam as coisas necess\u00e1rias a subsist\u00eancia. A sua m\u00e3o n\u00e3o \u00e9 menos curta, nem os seus tesouros est\u00e3o mais esgotados. Ele quis que tiv\u00e9sseis a honra de fazer viver os vossos semelhantes. Que gl\u00f3ria, crist\u00e3os, se a soub\u00e9ssemos compreender! Longe de desprezar os pobres, dever\u00edeis respeit\u00e1-los, recebendo-os como pessoas que Deus envia e recomenda.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Desprezai-os, tratai-os indignamente, tanto quanto quiserdes, \u00e9 necess\u00e1rio, por\u00e9m, que vivam a vossa custa, se n\u00e3o quiserdes incorrer na indigna\u00e7\u00e3o daquele que com os nomes augustos de Eterno e de Deus dos ex\u00e9rcitos glorifica-se ainda do t\u00edtulo de Pai dos pobres. Viva Deus, diz o Senhor, \u00e9 jurar por mim mesmo, o c\u00e9u e a terra e tudo o que encerram me pertence. Sois obrigados a me pagar a renda de todos os bens que possuis. Eu nada tenho que fazer nem de vossas ofertas nem de vossas riquezas: sou o vosso Deus e n\u00e3o necessito dos vossos bens. N\u00e3o sofro necessidade sen\u00e3o na pessoa dos meus pobres, que considero meus filhos. Ordeno que lhes pagueis fielmente o tributo que me deveis. Vede, meus irm\u00e3os, esses pobres que tanto desprezais: Deus os constitui os seus tesoureiros, os seus recebedores gerais; ele quer que lhes seja entregue todo o dinheiro destinado aos seus cofres. N\u00e3o promete-lhes neste mundo nenhum direito que possam fazer valer por uma estrita justi\u00e7a, mas permite-lhes de levantar sobre todos os ricos um imposto volunt\u00e1rio n\u00e3o por uma viol\u00eancia, mas por caridade. Se s\u00e3o maltratados, se se lhes nega o devido, n\u00e3o levar\u00e3o queixas perante os ju\u00edzes mortais; Deus ouvir\u00e1 os seus gemidos do alto do c\u00e9u. Como o devido aos pobres \u00e9 o seu pr\u00f3prio tesouro, reserva a causa para o seu tribunal. Eu os vingarei, diz ele; serei misericordioso aos que excercerem a miseric\u00f3rdia, e inexor\u00e1vel a quem tiver sido inexor\u00e1vel. Sublime dignidade dos pobres! a gra\u00e7a, a miseric\u00f3rdia, o perd\u00e3o est\u00e3o em suas m\u00e3os; e h\u00e1 pessoas t\u00e3o insensatas para desprez\u00e1-los. \u00c9 ainda por isto que S\u00e3o Francisco mais os considera.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">O pequenino de Bel\u00e9m, \u00e9 assim que chama o seu Mestre esse Jesus \u201cque sendo rico fez-se pobre por amor de n\u00f3s, a fim de nos enriquecer pela sua indig\u00eancia,\u201d como diz o ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\" title=\"\">[14]<\/a> ; esse pobre rei que, vindo ao mundo, n\u00e3o acha veste mais digna de sua grandeza do que a pobreza. \u00c9 o que comove a sua alma. Minha cara pobreza, dizia ele, t\u00e3o humilde seja a tua origem, segundo o ju\u00edzo dos homens, amo-te depois que o meu Mestre te tomou por esposa. Ele tinha raz\u00e3o, crist\u00e3os. Se um rei casa-se com um filha de baixa condi\u00e7\u00e3o, ela torna-se rainha. Murmura-se algum tempo, mas, finalmente, \u00e9 reconhecida. Ela enobrece-se pela uni\u00e3o do pr\u00edncipe; a sua nobreza passa \u00e0 sua fam\u00edlia, os seus pais s\u00e3o comumente chamados aos mais belos empregos, e os seus filhos s\u00e3os os herdeiros do trono. Assim aconteceu depois que o Filho de Deus esposou a pobreza. Ainda que resista-se, ainda que murmure-se, ela \u00e9 nobre e grande por essa alian\u00e7a. Desde esse tempo os pobres s\u00e3o os confidentes do Salvador, e os primeiros ministros desse reino espiritual que veio fundar na terra. Jesus, nesse admir\u00e1vel discurso que fez a um grande audit\u00f3rio do alto dessa misteriosa montanha, n\u00e3o dignando-se falar aos ricos sen\u00e3o para fulminar-lhes o orgulho, dirige a palavra aos pobres, seus bons amigos, e diz-lhes com incr\u00edvel consola\u00e7\u00e3o de sua alma: \u201cOh! pobres! sois felizes, porque o reino de Deus vos pertence!\u201d <em>Beati pauperes, quia vestrum est regnum Dei<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\" title=\"\"><strong>[15]<\/strong><\/a> <\/em>!<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Feliz, mil e mil vezes feliz o pobre Francisco, o mais ardente, o mais entusiasmado, se posso assim falar, o mais desesperado amante da pobreza que jamais foi visto na Igreja. De que zelo n\u00e3o foi ele tomado! qu\u00e3o bela, qu\u00e3o generosa, qu\u00e3o digna de ser consagrada pela eterna mem\u00f3ria da posteridade foi a resposta que deu a seu pai que o solicitava, em presen\u00e7a do bispo de Assis, a renunciar os seus bens. Acusava o filho de ser o mais gastador que todas as outras pessoas do pa\u00eds. N\u00e3o sabe, dizia ele, recusar a um pobre; n\u00e3o pode tolerar que haja na cidade fam\u00edlias necessitadas. Vende todas as minhas mercadorias para distribuir-lhes o pre\u00e7o. E, com efeito, crist\u00e3os, vendo o modo como Francisco dispunha do que era seu, dir-se-ia que tinha hipotecado os seus bens aos pobres da prov\u00edncia, e que a sua esmola era menos um benef\u00edcio do que uma d\u00edvida. Como todo o seu patrim\u00f4nio era insuficiente para pagar essas d\u00edvidas infinitas de uma caridade imensa e sem limites, o seu pai sustentava que devia renunciar os seus bens, porque, dizia ele, era incorrig\u00edvel, e n\u00e3o havia probabilidade de torn\u00e1-lo mais circunspeto.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Que responder\u00e1 Francisco a t\u00e3o fortes acusa\u00e7\u00f5es feitas com a veem\u00eancia da autoridade paterna? Oh! Deus eterno! como insipirais belas respostas aos vossos servos, quando se deixam conduzir pelo vosso Esp\u00edrito Santo! Tomai, diz Francisco animado por um instinto celeste, tomai, \u00f3 meu pai, eu vos dou mais do que pretendeis; e no mesmo momento, atirando sua veste aos p\u00e9s: At\u00e9 aqui, exclamou ele, vos tinha chamado pai, agora nada mais espero de v\u00f3s, e direi com mais coragem e mais confian\u00e7a: Nosso Pai que estais no c\u00e9u. Que eloqu\u00eancia bastante forte, que racioc\u00ednios assaz magn\u00edficos poder\u00e3o igualar a majestade desta palavra? Oh! a bela fal\u00eancia desse mercardor! Oh! homem! n\u00e3o tanto incapaz de possuir riquezas como digno de n\u00e3o t\u00ea-las, digno de figurar no livros dos pobres evang\u00e9licos e dora avante viver com o capital da Provid\u00eancia! Encontrou finalmente essa pobreza t\u00e3o ardentemente desejada em que pusera o seu tesouro: mais se lhe tira, mais enriquece. Foi bem feito priv\u00e1-lo de todos os seus bens, porque queriam tamb\u00e9m tirar-lhe o que de mais sublime possu\u00eda em suas riquezas, o poder de distribu\u00ed-las abundantemente aos pobres! Encontrou um Pai que n\u00e3o o impedir\u00e1 de dar, nem o que ganhar com o trabalho de suas m\u00e3os, nem o que alcan\u00e7ar da caridade dos fi\u00e9is. Feliz por nada mais possuir no s\u00e9culo, recebendo de esmola at\u00e9 o seu h\u00e1bito! Feliz por possuir s\u00f3 a Deus, por tudo esperar dele, por tudo receber por amor dele! Gra\u00e7as a miseric\u00f3rdia divina, o seu \u00fanico neg\u00f3cio era servir a Deus, e todo seu alimento era fazer a vontade divina. Como o seu estado \u00e9 diferente do dos ricos! Vereis isso na segunda parte.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rtecenter\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">II<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Quando vos considero, \u00f3 ricos do s\u00e9culo, pareceis-me mais pobres que Francisco. N\u00e3o podereis ter t\u00e3o avultadas riquezas que as vossas paix\u00f5es desordenadas n\u00e3o devorem. Delas precisais para a necessidade, para a vaidade, para o luxo, para os prazeres, para a pompa, para a ostenta\u00e7\u00e3o, para mil superfluidades. Francisco, ao contr\u00e1rio, pode ter um h\u00e1bito imundo, um alimento parco e est\u00e1 perfeitamente satisfeito; disposto a morrer de fome, se essa \u00e9 a vontade de seu Pai celeste. Ora embrenha-se em uma floresta sombria, ora retira-se no alto de uma montanha, admirando as obras de Deus, convidando todas as criaturas a louv\u00e1-lo e bendiz\u00ea-lo, emprestando-lhes a sua intelig\u00eancia e a sua voz, passando dias e noites, a repetir, a meditar, a sentir esta piedosa palavra: \u201cMeu Deus e meu tudo\u201d, palavra que sempre tinha nos l\u00e1bios, <em>Deus meus omnia<\/em>. Percorre as cidades, as aldeias, os arraiais; levanta altamente o estandarte da pobreza; come\u00e7a um novo g\u00eanero de neg\u00f3cio, e funda o mais belo, o mais rico com\u00e9rcio de que se possa ter ideia. Oh! v\u00f3s, dizia ele, que desejais adquirir essa p\u00e9rola incompar\u00e1vel do Evangelho, vinde, associemo-nos, a fim de negociarmos no c\u00e9u; vendei os vossos bens, dai tudo aos pobres, vinde a mim, livres de todos os cuidados seculares; vinde, faremos penit\u00eancia; vinde, louvaremos e serviremos o nosso Deus na simplicidade e na pobreza.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Oh! santa companhia! que come\u00e7ais a formar-vos sob a conduta de S\u00e3o Francisco, possais, propagando-vos por toda parte, inspirar aos homens do mundo um generoso desprezo das riquezas e conduzir os povos ao exerc\u00edcio da penit\u00eancia! Que pretendeis fazer com esse uniforme de talho singular, pesado no ver\u00e3o, e pouco apto a garantir-vos (proteger-vos?) dos rigores do inverno? Por que n\u00e3o tomais maior precau\u00e7\u00e3o com a necessidade e fraqueza da carne? Fi\u00e9is, o pobre Francisco, que deu-lhes esse conselho, n\u00e3o compreende estes discursos: ele segue outras m\u00e1ximas mais varonis e mais elevadas. Lembra-se dessas folhas de figueira que, no para\u00edso, cobriram a nudez dos nossos primeiros pais logo que a desobedi\u00eancia mostrou-lhes o mal. Recorda-se que o homem foi nu enquanto inocente, e, portanto, n\u00e3o foi a necessidade e sim o pecado e a vergonha que fabricaram as primeiras vestes. Se o pecado vestiu a natureza corrompida, ele pensa que a penit\u00eancia deve vesti-la, depois de regenerada.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Mas, por que v\u00f3s vos enfraqueceis com tantos jejuns? Por que v\u00f3s vos extenuais em tantas vig\u00edlias? por que deitai-vos sobre neve? por que vejo esse cil\u00edcio insepar\u00e1vel do vosso corpo, o qual poderia tomar por uma outra pele formada sobre a primeira? Respondei, Francisco, respondei: os vossos sentimentos s\u00e3o t\u00e3o crist\u00e3os que teria receio de diminuir alguma coisa de sua generosidade, se v\u00f3s mesmo n\u00e3o os manifestasses. Quem sois v\u00f3s, dir\u00e1 ele, v\u00f3s que me fazeis essa pergunta? ignorais que o nome crist\u00e3o significa sofrimento? N\u00e3o vos lembrais desses dois atletas, Paulo e Barnab\u00e9, que confirmavam e consolavam as Igrejas? e que diziam eles para consol\u00e1-las? \u201cQue era necess\u00e1rio chegar ao reino dos c\u00e9us por longos trabalhos e grandes tribula\u00e7\u00f5es:\u201d <em>Quia per multas angustias et tribulationes oportet pervenire ad regnum Dei<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\" title=\"\"><strong>[16]<\/strong><\/a><\/em> . Sabei, acrescentar\u00e1 ele, e perdoai-me, crist\u00e3os, se hoje fa\u00e7o falar frequentes vezes esse ilustre personagem: sabei, pois, que n\u00f3s crist\u00e3os \u201ctemos um corpo e uma alma, que devem ser expostos a todos os sofrimentos\u201d: <em>Ipsam animam ipsumque corpus expositum omnibus ad injuriamgerimus<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\" title=\"\"><strong>[17]<\/strong><\/a><\/em>. E para obedecer a ordem do Ap\u00f3stolo<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\" title=\"\">[18]<\/a> , \u201ca fim de n\u00e3o agir em v\u00e3o, trabalho para domar o meu corpo e submeter \u00e0 escravid\u00e3o o apetite dessas vol\u00fapias que, com suas delicadezas, enfraquecem e pervertem a varonil virtude da f\u00e9:\u201d <em>Discutiendae sunt deliciae, quarum malitia et fluxu fidei virtus effeminari potest<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\" title=\"\"><strong>[19]<\/strong><\/a><\/em> . Al\u00e9m de tudo, que maiores del\u00edcias para um crist\u00e3o do que o desgosto das del\u00edcias<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\" title=\"\">[20]<\/a>? \u201cQue! n\u00e3o poder\u00edamos viver sem prazer n\u00f3s que devemos morrer com prazer?\u201d <em>Non possumus vivere sine voluptate, qui mori cum voluptate debemus<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\" title=\"\"><strong>[21]<\/strong><\/a><\/em>. S\u00e3o palavras do grave Tertuliano que de bom grado ele emprestar\u00e1 aos sentimentos de Francisco, t\u00e3o dignos desse primeiro vigor e firmeza dos costumes crist\u00e3os.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Severa, mas evang\u00e9lica doutrina, duras, mas indiscut\u00edveis verdades, fazem tremer todos os nossos sentidos, e pareceis insensatas a nossa pretensiosa sabedoria. Fostes v\u00f3s que tornastes o inimit\u00e1vel Francisco t\u00e3o felizmente insensato; o enchestes de um violento desejo do mart\u00edrio, que o fez buscar por toda parte um infiel que quisesse o seu sangue. Certo \u00e9, ainda que revoltem-se os nossos sentidos, que um crist\u00e3o, ferido pelo amor do nosso Salvador n\u00e3o tem maior prazer do que derramar o seu sangue por ele. \u00c9 esta, talvez, a \u00fanica vantagem que podemos ter sobre os anjos. Podem eles ser os companheiros de gl\u00f3ria de Nosso Senhor, mas n\u00e3o podem ser os companheiros de sua morte. Essas bem-aventuradas intelig\u00eancias podem comparecer diante da face de Deus como v\u00edtimas ardentes de uma caridade eterna, mas a natureza impass\u00edvel n\u00e3o permite-lhes dar uma prova generosa de sua afei\u00e7\u00e3o pelos sofrimentos e de gozar dessa honra t\u00e3o doce \u00e0quele que ama, de amar at\u00e9 morrer, e de morrer por amor. N\u00f3s, ao contr\u00e1rio, gozamos dessa preciosa vantagem, pois, das duas vidas que Deus se dignou dar-nos, uma \u00e9 imortal e incorrupt\u00edvel, e far\u00e1 eternamente durar o nosso amor no c\u00e9u; a outra \u00e9 destrut\u00edvel, e podemos imol\u00e1-la para provar-lhe o nosso amor na terra. \u00c9, como vos disse, o que pode acontecer de mais agrad\u00e1vel a uma alma verdadeiramente ferida pelo amor divino.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">N\u00e3o vedes, crist\u00e3os, que o Salvador Jesus, durante sua vida mortal, n\u00e3o teve mais delicioso pensamento do que o da morte que devia sofrer por nosso amor? e de onde lhe vinha esse gosto, esse prazer inef\u00e1vel que sentia na contempla\u00e7\u00e3o de males t\u00e3o dolorosos e extraordin\u00e1rios? \u00c9 porque nos amava com amor imenso, do qual jamais poderemos formar sen\u00e3o uma fraca ideia. Eis por que deseja ardentemente ver brilhar sem mais delonga essa p\u00e1scoa t\u00e3o memor\u00e1vel<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\" title=\"\">[22]<\/a>&nbsp; que devia santificar com a sua morte. Suspira incessantemente por esse batismo de sangue<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\" title=\"\">[23]<\/a>, e por essa \u00faltima hora que chamava a hora por excel\u00eancia<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\" title=\"\">[24]<\/a>, como sendo aquela em que o seu amor devia triunfar. Quando Jo\u00e3o Batista, o santo precursor, v\u00ea pousar o Esp\u00edrito Santo sobre sua cabe\u00e7a<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\" title=\"\">[25]<\/a>, quando abre-se o c\u00e9u sobre ele, quando o Pai o reconhece publicamente por seu Filho, n\u00e3o \u00e9 essa, crist\u00e3os, a sua hora. A hora, que \u00e9 sua, segundo o modo vulgar de falar e segundo a frase da Escritura, \u00e9 aquela em que, arrastando as nossas iniquidades sobre o madeiro, ele se deve imolar por n\u00f3s em um sacrif\u00edcio de caridade.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Se o Criador sente perfeita alegria de morrer por sua criatura, que satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve experimentar a criatura de morrer por seu Criador! Eis onde a alma fiel sente transportes admir\u00e1veis na contempla\u00e7\u00e3o do nosso Mestre crucificado. O precioso sangue, que corre de toda parte de suas veias barbaramente rompidas, transforma-se em um rio de chamas que o abrasa de um ardor invenc\u00edvel para consumir-se por ele. E poderemos n\u00f3s ver o nosso bravo e vitorioso chefe derramar o seu sangue pela nossa salva\u00e7\u00e3o com t\u00e3o grande alegria, sem que o nosso se exaltasse em presen\u00e7a desse espet\u00e1culo de amor? Os m\u00e9dicos dizem que h\u00e1 certos esp\u00edritos violentos e, por conseguinte, ativos e vigorosos que, penetrando em nosso sangue, o fazem sair ordinariamente com grande impetuosidade quando a veia est\u00e1 aberta. Ah! o sangue de Jesus Cristo, correndo em nossas veias pela virtude dos sacramentos, anima o sangue dos m\u00e1rtires por um santo e divino ardor que o faz subir at\u00e9 o trono de Deus, quando a espada infiel o derrama pela confiss\u00e3o da f\u00e9! Contemplai nos bem-aventurados soldados do Salvador a const\u00e2ncia com que iam ao supl\u00edcio. Uma santa e celeste alegria brilhava em seus olhos e em seus semblantes por um fulgor mais que humano e que causava admira\u00e7\u00e3o a todos os espectadores. Consideravam em esp\u00edrito a torrente do sangue de Jesus Cristo que, por uma prodigiosa inunda\u00e7\u00e3o, ca\u00eda sobre suas almas.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">N\u00e3o admira-me, portanto, se o incompar\u00e1vel Francisco deseja ardentemente o mart\u00edrio, ele que jamais perdera de vista o Salvador pregado em uma cruz, e que tirava constantemente de suas chagas essa \u00e1gua celeste do amor de Deus que sobe at\u00e9 a vida eterna. Embriagado por essa bebida divina, corre afoitamente ao mart\u00edrio: nem os rios, nem as montanhas, nem a imensidade dos mares podem impedir o seu ardor. Vai a \u00c1sia, a \u00c1frica, por toda parte onde pensa o \u00f3dio contra o nome Jesus ser mais desenfreado. Prega altamente a esses povos a gl\u00f3ria do Evangelho; descobre as imposturas de Maom\u00e9, o seu falso profeta. Que! essas acusa\u00e7\u00f5es veementes n\u00e3o excitam os b\u00e1rbaros contra o generoso Francisco? ao contr\u00e1rio, admiram o seu zelo infatig\u00e1vel, a sua invenc\u00edvel energia, o prodigioso desprezo das coisas do mundo: eles o veneram. Francisco, indignado de se ver respeitado pelos inimigos do seu Mestre, recome\u00e7a suas investidas contra essa religi\u00e3o monstruosa. Mas, singular e maravilhosa sensibilidade! n\u00e3o mostram-lhe menos defer\u00eancia, e o bravo atleta de Jesus Cristo, vendo que n\u00e3o conseguia merecer a morte: Saiamos&nbsp; daqui, meu irm\u00e3o, dizia ele ao seu companheiro; fujamos, fujamos longe destes b\u00e1rbaros muito humanos para n\u00f3s, pois n\u00e3o conseguimos nem fazer-lhes adorar o nosso Mestre, nem nos perseguir a n\u00f3s que somos os seus servos. Oh! Deus! quando mereceremos n\u00f3s o triunfo do mart\u00edrio, se at\u00e9 no meio das na\u00e7\u00f5es infi\u00e9is achamos honras? J\u00e1 que Deus n\u00e3o nos julga dignos do mart\u00edrio, nem de participar dos seus gloriosos opr\u00f3brios, vamos, meu irm\u00e3o, terminar a nossa vida no mart\u00edrio da penit\u00eancia, ou procuremos algum lugar da terra onde possamos beber aos sorvos a ignom\u00ednia da cruz.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Convinha, crist\u00e3os, mostrar-vos aqui a loucura do s\u00e1bio e admir\u00e1vel Francisco. Serieis entusiasmados vendo-o levantar a sua gl\u00f3ria sobre o desprezo das honras! Que louvores n\u00e3o dar\u00edeis \u00e0 ing\u00eanua inf\u00e2ncia de sua inocente simplicidade, e a essa humildade t\u00e3o profunda com que se considerava o maior dos pecadores, e essa fiel confian\u00e7a que lhe fazia p\u00f4r o arrimo de sua esperan\u00e7a nos m\u00e9ritos do Filho de Deus, e a esse temor t\u00e3o modesto que tinha de mostrar os sagrados sinais da paix\u00e3o do Salvador, que Jesus crucificado, por uma miseric\u00f3rdia inef\u00e1vel, tinha impresso em sua carne! Como sereis admirados, quando eu vos disser que Francisco, esse personagem admir\u00e1vel que levava uma vida mais ang\u00e9lica que humana, recusou o santo sacerd\u00f3cio, considerando essa dignidade muito pesada para os seus ombros! Ai! bem que imperfeitos, corremos muitas vezes para ela sem sermos chamados, com uma temeridade, uma precipita\u00e7\u00e3o que faz estremecer a religi\u00e3o: imprudentes, n\u00e3o compreendemos a eleva\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios de Deus e a virtude necess\u00e1ria \u00e0queles que pretendem ser os seus dispensadores. E Francisco, esse anjo celeste, ap\u00f3s tantas a\u00e7\u00f5es heroicas e o longo exerc\u00edcio de uma virtude consumada, ainda que toda a hierarquia eclesi\u00e1stica lhe estenda os bra\u00e7os como a um homem destinado a ser um dos seus mais belos lumin\u00e1rios, treme e perturba-se s\u00f3 com o nome de padre, e n\u00e3o ousa, malgrado a mais leg\u00edtima voca\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o contemplar de longe uma dignidade t\u00e3o honor\u00edfica! Certamente, se come\u00e7asse a vos narrar essas maravilhas recome\u00e7aria um novo discurso, e no fim do meu trabalho abriria um caminho imenso. Como fazemos na Igreja os paneg\u00edricos dos santos menos para celebrar as suas virtudes, que j\u00e1 s\u00e3o coroadas no c\u00e9u, do que para nos propor o seu exemplo, devemos suprimir alguma coisa dos elogios de S\u00e3o Francisco, a fim de reservar mais tempo para tirar alguma conclus\u00e3o pr\u00e1tica de sua vida.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Que escolheremos n\u00f3s, crist\u00e3os, nas a\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Francisco para a nossa instru\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1, talvez, uma empresa muito temer\u00e1ria procurar curiosamente a sua virtude mais eminente. Pertence \u00e0quele que as d\u00e1 apreciar o seu valor. Tome cada um para si o que em consci\u00eancia lhe for mais \u00fatil; quanto a mim, para edifica\u00e7\u00e3o da Igreja, vos proporei o que me parece mais proveitoso para salva\u00e7\u00e3o de todos; e n\u00e3o sei que sentimento me diz no fundo do cora\u00e7\u00e3o que deve ser o desprezo das riquezas, \u00e0s quais \u00e9 vis\u00edvel que somos apegados. O Ap\u00f3stolo, falando a Tim\u00f3teo, indica aos pregadores como devem exortar os ricos. \u201cOrdenai, diz ele, aos ricos do s\u00e9culo, que evitem ser orgulhosos e por as suas esperan\u00e7as na inconst\u00e2ncia das riquezas.\u201d <em>Divitibus hujus saeculi praecipe non sublime sapere neque sperare in incerto divitiorum<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\" title=\"\"><strong>[26]<\/strong><\/a><\/em>. \u00c9 o que ensina o ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo, quando refere-se \u00e0s duas principais enfermidades dos ricos: a primeira, o grande apego aos bens; a segunda, a grande estima que t\u00eam ordinariamente de suas pessoas, porque veem que a riqueza d\u00e1-lhes algum cr\u00e9dito no mundo.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Ora, meus irm\u00e3os, ainda que fosse um simples fil\u00f3sofo, n\u00e3o faltariam raz\u00f5es para vos mostrar ser uma grande loucura estimar tanto os bens que nos podem ser arrebatados por uma infinidade de acidentes, e dos quais a morte nos separar\u00e1 sem recurso, depois de termos tomado tantas precau\u00e7\u00f5es para salv\u00e1-los das ciladas que a sorte nos arma. Se a filosofia reconhece a vaidade das riquezas, n\u00f3s, crist\u00e3os, devemos desprez\u00e1-las, n\u00f3s, digo, que fundamentamos este desprezo n\u00e3o sobre racioc\u00ednios humanos, mas sobre verdades que o Filho do Pai eterno selou e confirmou com o seu sangue! Se verdade \u00e9 que a heran\u00e7a celeste, que Deus nos preparou pelo seu \u00fanico Filho, \u00e9 o \u00fanico objeto de nossas esperan\u00e7as, devemos avaliar as coisas segundo o modo como para ela nos conduzem, e detestar tudo o que se op\u00f5e a t\u00e3o grande felicidade. Mas, entre todos os obst\u00e1culos que o dem\u00f4nio suscita contra a nossa salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 maior nem mais formid\u00e1vel que as riquezas. Por qu\u00ea? N\u00e3o alegarei outra raz\u00e3o, contentado-me com a palavra do nosso Salvador, mais poderosa que todas as raz\u00f5es. \u00c9 referida por tr\u00eas evangelistas, e particularmente por S\u00e3o Marcos com prodigiosa energia.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Meus amados filhos, diz o nosso Mestre aos disc\u00edpulos, depois de hav\u00ea-los contemplado longo tempo, a fim de incutir-lhes no esp\u00edrito o que era de suma import\u00e2ncia o que ia dizer-lhes: \u201cMeus amados filhos, \u00e9 coisa muito dif\u00edcil os ricos salvarem-se! Em verdade vos digo, \u00e9 mais f\u00e1cil um cabo ou um camelo passar pelo ouvido de uma agulha<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\" title=\"\">[27]<\/a>\u201d N\u00e3o estejais pasmos por esse modo de falar t\u00e3o singular. Era um prov\u00e9rbio entre os hebreus, com que exprimiam ordinariamente as coisas que julgavam imposs\u00edveis; \u00e9 como se diss\u00e9ssemos: antes cairia o c\u00e9u, ou qualquer outra express\u00e3o. Mas a\u00ed n\u00e3o devemos parar: vede, vede em que ordem o Salvador colocou a salva\u00e7\u00e3o dos ricos. Direis, talvez, que \u00e9 um exagero, e alegrai-vos com esse pensamento, mas eu afirmo que devemos tomar essa palavra no sentido literal. Espero convencer-vos pelo que segue no Evangelho. Estejais atentos; \u00e9 o Salvador quem fala. Conv\u00e9m ouvir a sua palavra, pois, \u00e9 a vida eterna.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Quando um homem fala com exagero, isso observa-se ordinariamente em seus atos, em seus modos, e nos sentimentos que o seu discurso suscita no esp\u00edrito do audit\u00f3rio. Por exemplo, se acontecesse eu dizer alguma coisa desse modo, conhecereis em v\u00f3s mesmos e ser\u00edeis melhores ju\u00edzes do que aqueles que n\u00e3o me ouviram: nada mais constante que esta verdade. Ora, quais os que ouviram o Salvador? os bem-aventurados ap\u00f3stolos. Qual o sentimento que lhes sugeriu esse discurso? Pensaram eles que essa senten\u00e7a foi pronunciada com exagero? Julgai pelas suas respostas e pelo seu espanto. Ouvindo essas palavras do Salvador, diz o Evangelista, ficaram pasmos, admirando a veem\u00eancia extraordin\u00e1ria com que o divino Mestre avan\u00e7ara essa terr\u00edvel proposi\u00e7\u00e3o. Refletindo depois sobre o amor desordenado das riquezas que reina por toda parte, disseram uns aos outros: \u201cE quem poder\u00e1 salvar-se?\u201d <em>Et quis potest salvus fieri<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\" title=\"\"><strong>[28]<\/strong><\/a><\/em>. Ah! \u00e9 bem vis\u00edvel, por esta resposta, que tomaram a palavra do Filho de Deus no sentido literal! porque \u00e9 claro que um exagero n\u00e3o os teria impressionado tanto. Jesus, por\u00e9m, n\u00e3o fica nisso: vendo-os at\u00f4nitos, ao inv\u00e9s de tirar-lhes o escr\u00fapulo, como desejariam os ricos, confirma ainda mais a sua senten\u00e7a. Dizeis, \u00f3 meus disc\u00edpulos, que, sendo assim, a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel: \u00e9 imposs\u00edvel aos homens, mas a Deus n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, e d\u00e1 a raz\u00e3o: porque, diz ele, tudo \u00e9 poss\u00edvel a Deus.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Que vos direi, crist\u00e3os? A primeira vista poderia parecer que o Filho de Deus tivesse esquecido o seu primeiro rigor. Mas, seria compreender mal a for\u00e7a de suas palavras. Expliquemo-las com outros textos. Observo nas Escrituras que esse modo de falar s\u00f3 \u00e9 empregado em grandes e invenc\u00edveis dificuldades. Quando todas as raz\u00f5es humanas fraquejam, parece ent\u00e3o absolutamente necess\u00e1rio alegar, como \u00faltimo recurso, a onipot\u00eancia divina. \u00c9 o que faz o anjo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Sant\u00edssima Virgem, quando, querendo fazer-lhe ver que poderia conceber sendo virgem, mostra-lhe o exemplo de uma est\u00e9ril que concebera, porque, dizia ele, diante de Deus nada \u00e9 imposs\u00edvel. Comparai as coisas. Uma virgem pode conceber, uma est\u00e9ril pode gerar, um rico pode salvar-se. S\u00e3o tr\u00eas milagres, dos quais os santos Livros n\u00e3o apresentam outra raz\u00e3o, a n\u00e3o ser a onipot\u00eancia de Deus. \u00c9, portanto, verdade, \u00f3 rico do s\u00e9culo, que a vossa salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 coisa med\u00edocre; seria imposs\u00edvel se Deus n\u00e3o fosse todo-poderoso; esta dificuldade, pois, excede os nossos pensamentos, porque \u00e9 necess\u00e1rio um poder infinito para venc\u00ea-la.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">N\u00e3o digais que essa palavra n\u00e3o se refere a v\u00f3s, porque n\u00e3o sois ricos. Se n\u00e3o sois ricos, ambicionais s\u00ea-lo, e essas maldi\u00e7\u00f5es das riquezas n\u00e3o devem somente cair sobre os ricos como sobre aqueles que o desejam ser. \u00c9 desses de quem fala o Ap\u00f3stolo, que caem na armadilha do dem\u00f4nio e em muitos maus desejos que precipitam o homem na perdi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\" title=\"\">[29]<\/a>. O Filho de Deus, no texto citado, n\u00e3o fala somente dos ricos, mas daqueles \u201cque se fiam nas riquezas:\u201d <em>confidentes in pecuniis<\/em>. Ora, o desejo e a esperan\u00e7a sendo insepar\u00e1veis, imposs\u00edvel desej\u00e1-las sem a\u00ed p\u00f4r suas esperan\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Relatar-vos-ei aqui todos os males que o maldito desejo das riquezas traz ao g\u00eanero humano? as fraudes, os enganos, as usuras, as injusti\u00e7as, as opress\u00f5es, as inimizades, os perj\u00farios, as perf\u00eddias, tudo \u00e9 ordinariamente entretido na terra pelo desejo das riquezas. O Ap\u00f3stolo tem raz\u00e3o de dizer que \u201co desejo das riquezas \u00e9 a raiz de todos os males:\u201d <em>Radix omnium malorum est cupiditas<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\" title=\"\"><strong>[30]<\/strong><\/a><\/em>. Por que o avarento, pondo a sua alegria e a sua esperan\u00e7a em algum ano est\u00e9ril e na carestia p\u00fablica, prepara e aumenta os seus celeiros, a fim de a\u00ed esconder a subsist\u00eancia do pobre, que a far\u00e1 comprar ao pre\u00e7o do seu sangue, quando estiver reduzido a mis\u00e9ria? Por que o mercador falaz diz mais mentiras, faz mais juramentos do que vende as mercadorias? Por que o lavrador impaciente, muitas vezes, amaldi\u00e7oa o seu trabalho e a divina Provid\u00eancia? Por que o soldado feroz exerce uma rapina t\u00e3o cruel? Por que o juiz corrupto vende e entrega sua alma a Satan\u00e1s? N\u00e3o \u00e9 o desejo das riquezas?<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Mas os que as possuem velem cuidadosamente sobre suas almas: elas t\u00eam la\u00e7os invis\u00edveis, dos quais n\u00e3o se podem desvencilhar os nossos cora\u00e7\u00f5es: ora, um cora\u00e7\u00e3o que ama outra coisa a n\u00e3o ser Deus, n\u00e3o pode amar a Deus. \u201cAh! se amamos devidamente a Deus, diz admiravelmente Santo Agostinho, n\u00e3o amaremos o dinheiro:\u201d <em>O si Deum digne amemus, nummos omnino non amabimus<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\" title=\"\"><strong>[31]<\/strong><\/a><\/em>. Se, por conseguinte, amamos o dinheiro, seremos incapazes de amar a Deus.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Tirai agora esta consequ\u00eancia: os homens que possuem muitas riquezas \u00e9 quase imposs\u00edvel que n\u00e3o as amem. Quando quisessem isto negar, tornar-se-ia evidente pelo medo que t\u00eam de perd\u00ea-las. Quem muito ama as riquezas \u00e9 incapaz de amar a Deus: quem n\u00e3o ama a Deus \u00e9 imposs\u00edvel salvar-se. \u201cOh! Deus! os que possuem grandes fortunas dificilmente alcan\u00e7am o reino dos c\u00e9us!\u201d <em>Quam difficile qui pecunias possident, possunt pervenire ad regnum Dei<\/em>!<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Se, pois, s\u00e3o t\u00e3o funestas as riquezas, vede, meus irm\u00e3os, o que deveis fazer. Deus n\u00e3o vo-las deu para encerr\u00e1-las em cofres, nem para empreg\u00e1-las em despesas sup\u00e9rfluas, para n\u00e3o dizer perniciosas. Elas vos foram dadas para sustentar a Jesus Cristo que sofre na pessoa dos pobres; elas vos foram dadas para remir as vossas iniquidades, e para ajuntar tesouros eternos. Lan\u00e7ai, lan\u00e7ai a vista sobre as fam\u00edlias necessitadas que n\u00e3o ousam expor-vos as suas mis\u00e9rias; sobre as virgens de Jesus que vemos quase desfalecidas em seus conventos por falta de meios para as suas subsist\u00eancias; sobre tantos m\u00edseros religiosos que, sob um semblante risonho, escondem muitas vezes uma grande indig\u00eancia. Um pouco de coragem, meus irm\u00e3os, alguns esfor\u00e7os por amor de Deus. Vede a liberalidade com que abriu suas m\u00e3os sobre n\u00f3s pela fertilidade deste ano; abramos as nossas sobre as mis\u00e9rias dos nossos pobres irm\u00e3os; ningu\u00e9m procure excusar-se. N\u00e3o desculpeis-vos com a modicidade dos vossos recursos: Jesus levar\u00e1 em conta at\u00e9 o insignificante presente que lhe fizerdes com o cora\u00e7\u00e3o ardendo de caridade: mesmo um copo d\u2019\u00e1gua, oferecido com esse esp\u00edrito, pode merecer-vos a vida eterna.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Assim os bens, que ordinariamente s\u00e3o um veneno, converter-se-\u00e3o para v\u00f3s em rem\u00e9dio salutar. Longe de perder as vossas riquezas, distribuindo-as, as conservareis com maior seguran\u00e7a tanto quanto as tereis santamente prodigado. Os pobres vo-las restituir\u00e3o de um modo superior, porque em suas m\u00e3os elas mudam de natureza. Nas vossas elas s\u00e3o destrut\u00edveis; mas tornam-se incorrupt\u00edveis logo que passam \u00e0s m\u00e3os dos indigentes. S\u00e3o eles mais poderosos que os reis. Os reis, com seus editos, d\u00e3o algum valor ao dinheiro; os pobres comunicam-lhe um valor infinito, aplicando-lhe os seus sinais. Ajuntai, pois, tesouros que se n\u00e3o corrompem; reuni, para o s\u00e9culo futuro, um tesouro inesgot\u00e1vel; colocai as vossas riquezas no c\u00e9u, livre dos perigos das guerras, dos roubos, de toda sorte de incidentes; depositai-as nas m\u00e3os de Deus. Ganhai, com vossas esmolas, bons amigos na terra que vos receber\u00e3o depois da morte nos eternos tabern\u00e1culos, onde o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo, \u00fanico Deus vivente e imortal, \u00e9 glorificado em todos os s\u00e9culos dos s\u00e9culos. <em>Amen<\/em>.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rteright\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">[Fonte: <em>Paneg\u00edricos <\/em>de Bossuet (Castela Editorial, Rio de Janeiro, 2013)]<\/span><\/p>\n<p class=\"rteright\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Dispon\u00edvel em nossa <a href=\"http:\/\/www.editorapermanencia.net\/livros\/panegiricos.html\">livraria<\/a>.<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<div>\n<hr \/>\n<div id=\"ftn1\">\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn2\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\" title=\"\">[2]<\/a> 1Cor&nbsp;1<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn3\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\" title=\"\">[3]<\/a> Tertul. adv. Marcion. Lib.II.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn4\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\" title=\"\">[4]<\/a> De carne Chr. N.5.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn5\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\" title=\"\">[5]<\/a> Ibid.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn6\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\" title=\"\">[6]<\/a> Rom 1, 21.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn7\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\" title=\"\">[7]<\/a> Rom 1, 22.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn8\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\" title=\"\">[8]<\/a> 1Cor 1 ,21.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn9\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\" title=\"\">[9]<\/a> Ibid.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn10\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\" title=\"\">[10]<\/a> Pr 11, 11.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn11\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\" title=\"\">[11]<\/a> Sl 9, 35.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn12\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\" title=\"\">[12]<\/a> Mt 25, 36.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn13\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\" title=\"\">[13]<\/a> Hom. de. Saint. Philog, n.1.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn14\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\" title=\"\">[14]<\/a> 2Cor 8, 9.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn15\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\" title=\"\">[15]<\/a> Lc 6, 20.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn16\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\" title=\"\">[16]<\/a> At 14, 2.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn17\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\" title=\"\">[17]<\/a> Tertul. de Patient. N.8.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn18\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\" title=\"\">[18]<\/a> 1Cor 9, 26-27.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn19\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\" title=\"\">[19]<\/a> Tertul. de Cultu femin. II. N.13.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn20\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\" title=\"\">[20]<\/a> Idem de Spect. N. 29.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn21\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\" title=\"\">[21]<\/a> Ibid. n. 28.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn22\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\" title=\"\">[22]<\/a> Lc 22, 15.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn23\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\" title=\"\">[23]<\/a> Lc 12, 50.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn24\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\" title=\"\">[24]<\/a> Jo 13, 1.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn25\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\" title=\"\">[25]<\/a> Mt 3, 16-17.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn26\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\" title=\"\">[26]<\/a> 1Tim 6, 17.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn27\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\" title=\"\">[27]<\/a> Mc 10, 24.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn28\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\" title=\"\">[28]<\/a> Mc 10, 26.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn29\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\" title=\"\">[29]<\/a> 1Tim 6, 9.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn30\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\" title=\"\">[30]<\/a>&nbsp;1Tim 6, 10.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn31\">\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\"><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\" title=\"\">[31]<\/a> In Joan. Tract. XI. n.10. t. III.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;Bossuet (Pregado em Metz no dia 4 de outubro de 1665) Sublime e celeste loucura de S\u00e3o Francisco, que lhe faz colocar as suas riquezas na pobreza, as suas del\u00edcias nos sofrimentos, a sua gl\u00f3ria na humilha\u00e7\u00e3o. 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