{"id":260,"date":"2017-06-07T19:18:08","date_gmt":"2017-06-07T22:18:08","guid":{"rendered":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=260"},"modified":"2017-06-07T19:18:08","modified_gmt":"2017-06-07T22:18:08","slug":"rumo-a-um-entendimento-doutrinal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=260","title":{"rendered":"Rumo a um &#8220;entendimento doutrinal&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><img decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-259\" alt=\"\" src=\"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/paris_saint_nicolas_chardonnet-f1d.jpg\" style=\"float:left; height:262px; margin-left:10px; margin-right:10px; width:300px\" \/><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Numa entrevista recente, Mons. Guido Pozzo declarou que \u201ca reconcilia\u00e7\u00e3o acontecer\u00e1 quando Dom Fellay aderir formalmente \u00e0 declara\u00e7\u00e3o doutrinal que a Santa S\u00e9 lhe apresentou. \u00c9 tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para proceder \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o institucional, com a cria\u00e7\u00e3o de uma prelazia pessoal\u201d. E no retorno da recente peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 F\u00e1tima (12-13 de maio), numa confer\u00eancia concedida \u00e0 imprensa no avi\u00e3o, o Papa Francisco aludiu ao documento preparado pela Congrega\u00e7\u00e3o da Doutrina da F\u00e9, em sua \u00faltima sess\u00e3o de quarta-feira, 10 de maio. Segundo o esp\u00edrito de Roma, tratar-se-ia de um entendimento doutrinal. A express\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 equ\u00edvoca; com efeito, pode ser entendida em dois sentidos.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Num primeiro sentido, o fim buscado \u00e9 que a Tradi\u00e7\u00e3o reencontre todos os seus direitos em Roma, e que, por conseguinte, a Santa S\u00e9 corrija seriamente os erros doutrinais que s\u00e3o a fonte da crise sem precedentes que ainda a\u00e7oita a Santa Igreja. Essa corre\u00e7\u00e3o \u00e9 o fim buscado, um fim em si mesmo e causa final, princ\u00edpio de todo agir subsequente no quadro das rela\u00e7\u00f5es com Roma. E esse fim \u00e9 simplesmente o bem comum de toda a Igreja. Nesse sentido, o entendimento doutrinal significa que Roma deve entender-se n\u00e3o com a Fraternidade S\u00e3o Pio X, mas com a doutrina de sempre, e abandonar os seus erros.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><img decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-259\" alt=\"\" src=\"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/paris_saint_nicolas_chardonnet-f1d.jpg\" style=\"float:left; height:262px; margin-left:10px; margin-right:10px; width:300px\" \/><\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><span style=\"font-family:verdana,geneva,sans-serif\">Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX<\/span><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Numa entrevista recente, Mons. Guido Pozzo declarou que \u201ca reconcilia\u00e7\u00e3o acontecer\u00e1 quando Dom Fellay aderir formalmente \u00e0 declara\u00e7\u00e3o doutrinal que a Santa S\u00e9 lhe apresentou. \u00c9 tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para proceder \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o institucional, com a cria\u00e7\u00e3o de uma prelazia pessoal\u201d. E no retorno da recente peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 F\u00e1tima (12-13 de maio), numa confer\u00eancia concedida \u00e0 imprensa no avi\u00e3o, o Papa Francisco aludiu ao documento preparado pela Congrega\u00e7\u00e3o da Doutrina da F\u00e9, em sua \u00faltima sess\u00e3o de quarta-feira, 10 de maio. Segundo o esp\u00edrito de Roma, tratar-se-ia de um entendimento doutrinal. A express\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 equ\u00edvoca; com efeito, pode ser entendida em dois sentidos.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Num primeiro sentido, o fim buscado \u00e9 que a Tradi\u00e7\u00e3o reencontre todos os seus direitos em Roma, e que, por conseguinte, a Santa S\u00e9 corrija seriamente os erros doutrinais que s\u00e3o a fonte da crise sem precedentes que ainda a\u00e7oita a Santa Igreja. Essa corre\u00e7\u00e3o \u00e9 o fim buscado, um fim em si mesmo e causa final, princ\u00edpio de todo agir subsequente no quadro das rela\u00e7\u00f5es com Roma. E esse fim \u00e9 simplesmente o bem comum de toda a Igreja. Nesse sentido, o entendimento doutrinal significa que Roma deve entender-se n\u00e3o com a Fraternidade S\u00e3o Pio X, mas com a doutrina de sempre, e abandonar os seus erros.<\/p>\n<p><!--break--><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Num segundo sentido, seria o caso de Roma entender-se com a FSSPX, com vistas a um reconhecimento can\u00f4nico. Esse reconhecimento seria o fim em si, princ\u00edpio de todo agir subseq\u00fcente. Esse fim seria um bem particular aparente de uma sociedade espec\u00edfica, como \u00e9 a Fraternidade. A formula\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o doutrinal comum, suficientemente aceit\u00e1vel pelas duas partes, Roma e a Fraternidade, seria apenas o meio para isso. E bastaria que esse meio fosse proporcional ao fim: n\u00e3o seria necess\u00e1rio, portanto, que Roma corrigisse todos os erros do Conc\u00edlio; bastaria que n\u00e3o impusesse a profiss\u00e3o destes erros. Nesse sentido, o entendimento doutrinal significaria que a Fraternidade entraria em acordo com Roma sob uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es doutrinais isentas de erro.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Parece poss\u00edvel, e mesmo evidente, que Roma compreenda o entendimento doutrinal no segundo sentido, e considere na melhor das hip\u00f3teses um regime de toler\u00e2ncia para com a Fraternidade, mas de modo algum a corre\u00e7\u00e3o dos erros do Conc\u00edlio. At\u00e9 aqui, os herdeiros de Dom Marcel Lefebvre obrigaram-se a considerar as coisas do ponto de vista do primeiro sentido. Portanto, est\u00e1 claro que semelhante \u201cbase de entendimento\u201d permanecer\u00e1 sempre insuficiente, enquanto Roma n\u00e3o incluir a corre\u00e7\u00e3o dos erros do Conc\u00edlio.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Com efeito, o ad\u00e1gio vale aqui como em qualquer lugar: \u201c<em>bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu <\/em>\u2013 o bem prov\u00e9m de causa integralmente boa, o mau prov\u00e9m de qualquer defeito\u201d. O ad\u00e1gio deve, certamente, entender-se no sentido moral, e com rela\u00e7\u00e3o aos atos humanos. Se tomarmos Vaticano II como um conjunto de textos, \u00e9 evidente que poderemos sempre separar a verdade, o equ\u00edvoco e o erro e cada passagem considerada pode ser tratada isoladamente. Essa triagem pode ser feita no quadro de um di\u00e1logo de peritos \u2013 ou de uma comiss\u00e3o de revis\u00e3o. Entretanto, o costume da Igreja \u00e9 considerar os textos n\u00e3o enquanto tais, mas de um ponto de vista moral, ou seja, enquanto esses textos s\u00e3o, globalmente, objeto de uma ades\u00e3o da parte da Igreja e de seus fi\u00e9is (portanto um ato humano moralmente considerado) e tendem, devido aos seus erros e senten\u00e7as equ\u00edvocas, a causar esc\u00e2ndalo. Sob esse ponto de vista, n\u00e3o basta assinar um texto que exprime apenas uma parte da verdade; \u00e9 necess\u00e1rio que Roma professe a integralidade de toda a verdade e condene, por esse mesmo fato, os erros que viciam de alto a baixo todas as verdades parciais que podem encontrar-se no magist\u00e9rio conciliar e p\u00f3s-conciliar.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Alguns pontos litigiosos:<\/p>\n<p><strong>O Conc\u00edlio Vaticano II<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A refer\u00eancia a Vaticano II \u00e9 sempre inc\u00f4moda, mesmo quando se tratam de passagens isoladas, aparentemente ortodoxas. Esse Conc\u00edlio, com efeito, \u00e9 o objeto de nossa recusa, devido aos numerosos e graves erros que nele foram introduzidos. Ora, <em>malum ex quocumque defectu<\/em>: basta que haja algumas passagens m\u00e1s para que o Conc\u00edlio seja mau, mesmo se h\u00e1 tamb\u00e9m passagens boas. Essas passagens boas n\u00e3o compensam as passagens m\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><strong>A liberdade religiosa (declara\u00e7\u00e3o <em>Dignitatis Humanae<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Por um lado, uma coisa \u00e9 exercer a coa\u00e7\u00e3o no foro externo para conduzir as pessoas a abra\u00e7ar a verdadeira religi\u00e3o, outra coisa \u00e9 exercer a coa\u00e7\u00e3o no foro externo para impedir as pessoas de professar uma religi\u00e3o falsa. Por outro lado, h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre a coa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, que \u00e9 uma coa\u00e7\u00e3o propriamente dita (isto \u00e9, uma viol\u00eancia) e a coa\u00e7\u00e3o moral, que \u00e9 uma coa\u00e7\u00e3o impropriamente dita (isto \u00e9, segundo o caso uma persuas\u00e3o ou uma dissuas\u00e3o). A doutrina social da Igreja exige que o Estado exer\u00e7a sua autoridade em favor da verdadeira religi\u00e3o: 1\u00ba) exercendo no foro externo a dupla coa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e moral para impedir e dissuadir a profiss\u00e3o do erro e 2\u00ba) exercendo igualmente no foro externo certa coa\u00e7\u00e3o moral para persuadir \u00e0 profiss\u00e3o da verdadeira religi\u00e3o. A Igreja condenou apenas o recurso \u00e0 coa\u00e7\u00e3o f\u00edsica para impor a verdadeira religi\u00e3o. O n\u00ba2 de <em>Dignitatis Humanae<\/em> contradiz essa doutrina da Igreja precisamente porque reconhece como um direito civil o direito de n\u00e3o se impedir, por qualquer poder humano que seja, a profiss\u00e3o do erro.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><strong>A colegialidade (constitui\u00e7\u00e3o <em>Lumen Gentium<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Os tr\u00eas pontos litigiosos s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">O n\u00ba22 de <em>Lumen Gentium<\/em> afirma que o col\u00e9gio episcopal (corpo episcopal, quer reunido quer disperso) \u00e9 o sujeito ordin\u00e1rio e permanente do poder sobre toda a Igreja.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Ao contr\u00e1rio, a Tradi\u00e7\u00e3o afirma que s\u00f3 o corpo episcopal reunido pode ser o sujeito, apenas tempor\u00e1rio e extraordin\u00e1rio, desse poder.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">O n\u00ba22 de <em>Lumen Gentium<\/em> afirma que o col\u00e9gio episcopal, inclu\u00eddo o papa, constitui, al\u00e9m do papa considerado s\u00f3, um segundo sujeito permanente do poder sobre toda a Igreja.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Ao contr\u00e1rio, a Tradi\u00e7\u00e3o afirma que o corpo episcopal n\u00e3o \u00e9 um segundo sujeito desse poder, mas que s\u00f3 o conc\u00edlio ecum\u00eanico \u00e9 um segundo modo de exerc\u00edcio do mesmo sujeito (o papa) do mesmo poder.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">O n\u00ba 22, em liga\u00e7\u00e3o com o n\u00ba 21 de <em>Lumen Gentium<\/em> afirma que o col\u00e9gio episcopal det\u00e9m seu poder n\u00e3o diretamente do papa, mas do Cristo, pela consagra\u00e7\u00e3o episcopal, e que o consentimento do papa s\u00f3 \u00e9 requerido para o seu exerc\u00edcio.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Ao contr\u00e1rio, a Tradi\u00e7\u00e3o afirma que o conc\u00edlio ecum\u00eanico s\u00f3 pode ter seu poder diretamente do papa, e que \u00e9 a autoridade mesma do papa que \u00e9 comunicada ao conc\u00edlio e participada nesse poder tempor\u00e1rio e extraordin\u00e1rio do conc\u00edlio: este reuniu-se, portanto, n\u00e3o somente \u201ccum capite\u201d (o que seria o ponto de vista redutor de uma causalidade material, necess\u00e1rio para a integralidade da assembl\u00e9ia), por\u00e9m muito mais que isso, \u201csub capite\u201d (ponto de vista de uma causa eficiente) e mesmo \u201cex capite\u201d (ponto de vista de uma causa formal).&nbsp;<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A <em>Nota Praevia<\/em> (de Paulo VI) n\u00e3o resolve todos esses problemas e deixa intacta a id\u00e9ia de um duplo sujeito do primado.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Outros pontos do cap\u00edtulo III de <em>Lumen Gentium<\/em> colocam graves dificuldades: o n\u00ba 21 afirma a sacramentalidade do episcopado, com a id\u00e9ia de que a sagra\u00e7\u00e3o confere em ato o triplo m\u00fanus, n\u00e3o s\u00f3 o poder de ordem, mas mesmo o poder de jurisdi\u00e7\u00e3o, com o magist\u00e9rio e o governo, o que \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 toda a Tradi\u00e7\u00e3o e a todo o Direito Can\u00f4nico. O ponto de partida da colegialidade \u00e9 aqui radicalmente falso, como observaram os padres membros do <em>Coetus<\/em>, ao longo do Conc\u00edlio<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\" title=\"\">[1]<\/a>. O cardeal Browne assinala que a id\u00e9ia segundo a qual a consagra\u00e7\u00e3o episcopal d\u00e1 em ato, ou em sua ess\u00eancia, os tr\u00eas poderes de ordem, de magist\u00e9rio e de governo contradiz o ensino do magist\u00e9rio ordin\u00e1rio supremo de Pio XII, dado tr\u00eas vezes, e se mostra falsa, colocando-se tamb\u00e9m contra a teologia de Santo Tom\u00e1s. Mons. Carli observa que isso contradiz o Direito da Igreja, relativamente \u00e0 cola\u00e7\u00e3o do primado de jurisdi\u00e7\u00e3o do Papa, \u00e0 cola\u00e7\u00e3o da jurisdi\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria dos bispos residenciais e mesmo \u00e0 aus\u00eancia de toda jurisdi\u00e7\u00e3o dos bispos titulares. O n\u00ba 25 d\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o colegialista da infalibilidade do Magist\u00e9rio ordin\u00e1rio e universal; o n\u00ba18 coloca a anterioridade do Col\u00e9gio dos ap\u00f3stolos sobre S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><strong>O ecumenismo (decreto <em>Unitatis redintegratio<\/em> e constitui\u00e7\u00e3o <em>Lumen gentium<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Os tr\u00eas pontos litigiosos s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Os textos de <em>Unitatis redintegratio<\/em> afirmam a realidade de uma comunh\u00e3o real, se bem que imperfeita e parcial, de sociedade \u00e0 sociedade, ou seja, entre a estrutura vis\u00edvel da Igreja Cat\u00f3lica e a estrutura vis\u00edvel das comunidades crist\u00e3s n\u00e3o-cat\u00f3licas separadas. Ao contr\u00e1rio, a Tradi\u00e7\u00e3o afirma que s\u00f3 alguns entre os membros das comunidades crist\u00e3s n\u00e3o-cat\u00f3licas separadas podem estar, n\u00e3o em comunh\u00e3o, mas ordenados ao Corpo M\u00edstico do Redentor, que \u00e9 igualmente a Igreja do Cristo e a Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Os textos de <em>Lumen Gentium<\/em> afirmam a realidade de uma presen\u00e7a e de uma a\u00e7\u00e3o da Igreja do Cristo fora da estrutura vis\u00edvel da Igreja Cat\u00f3lica, nas comunidades crist\u00e3s n\u00e3o-cat\u00f3licas separadas. Ao contr\u00e1rio, a Tradi\u00e7\u00e3o afirma somente a realidade de uma a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo fora do Corpo M\u00edstico do Redentor, que \u00e9, de modo id\u00eantico, a Igreja do Cristo e a Igreja Cat\u00f3lica, e que essa a\u00e7\u00e3o ocorre em algumas almas que fazem parte das comunidades crist\u00e3s n\u00e3o-cat\u00f3licas separadas, mas n\u00e3o nessas pr\u00f3prias comunidades.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Os textos de <em>Lumen gentium<\/em> e <em>Unitatis redintegratio<\/em> afirmam que h\u00e1 nas comunidades crist\u00e3s n\u00e3o-cat\u00f3licas separadas elementos cujo valor salutar prov\u00eam da plenitude confiada \u00e0 Igreja de Cristo, e que tendem por eles mesmo \u00e0 unidade cat\u00f3lica, e que o Esp\u00edrito Santo pode ent\u00e3o servir-se dessas comunidades como meios de salva\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, a Tradi\u00e7\u00e3o afirma que os elementos encontrados nas comunidades crist\u00e3s n\u00e3o-cat\u00f3licas separadas n\u00e3o t\u00eam por si mesmos nenhum valor salutar, e que n\u00e3o poderiam provir da Igreja, porque essas comunidades recusam, enquanto tais, o primado de jurisdi\u00e7\u00e3o do papa, enquanto que o valor salutar dos dogmas e dos sacramentos lhes vem precisamente do fato de que s\u00e3o dispensados segundo a ordem querida pelo Cristo, ou seja, na depend\u00eancia do primado de jurisdi\u00e7\u00e3o do seu vig\u00e1rio, que \u00e9 o papa, bispo de Roma e chefe da Igreja.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><strong>O Magist\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A defini\u00e7\u00e3o mesma do Magist\u00e9rio est\u00e1 falsificada na pr\u00e1tica, porque depois do Vaticano II, os titulares do poder de Magist\u00e9rio utilizam esse poder a contra-senso, visto que imp\u00f5em erros contr\u00e1rios \u00e0s verdades que s\u00e3o objeto do Magist\u00e9rio. \u00c9 o motivo pelo qual n\u00e3o podemos reconhecer que Vaticano II seja a express\u00e3o de um verdadeiro Magist\u00e9rio cat\u00f3lico. N\u00e3o podemos afirmar (ao menos sem distin\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es) que os textos do Conc\u00edlio Vaticano II est\u00e3o inclu\u00eddos entre os textos do Magist\u00e9rio, que s\u00e3o a express\u00e3o de um Magist\u00e9rio cat\u00f3lico.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A defini\u00e7\u00e3o de Magist\u00e9rio est\u00e1 falsificada na teoria. A constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em>, no n\u00ba 8, afirma que \u201co que foi transmitido\u201d, \u201cprogride na Igreja, sob a assist\u00eancia do Esp\u00edrito Santo; com efeito, a percep\u00e7\u00e3o das realidades, bem como das palavras transmitidas cresce, seja pela contempla\u00e7\u00e3o e o estudo dos crentes que nelas meditam no cora\u00e7\u00e3o, seja pela intelig\u00eancia interior que eles experimentam das realidades espirituais, seja pela prega\u00e7\u00e3o dos que, com a sucess\u00e3o apost\u00f3lica, receberam um carisma certo de verdade\u201d. Essa passagem n\u00e3o faz nenhuma distin\u00e7\u00e3o entre o papel do Magist\u00e9rio e aquele da Igreja discente. A proposi\u00e7\u00e3o mais expl\u00edcita do Magist\u00e9rio \u00e9, com efeito, a causa da melhor percep\u00e7\u00e3o da verdade entre os fi\u00e9is, na contempla\u00e7\u00e3o ou estudo. Equiparar os dois autoriza a interpreta\u00e7\u00e3o err\u00f4nea que reduziria o papel do Magist\u00e9rio ao de um canalizador da experi\u00eancia coletiva. E \u00e9 isso que, de qualquer modo, sugere muito claramente o ensinamento de Bento XVI (Catequeses sobre a Igreja de 2006; Exorta\u00e7\u00e3o <em>Verbum Domini<\/em>) e o de Francisco (\u00faltimo discurso na ocasi\u00e3o do S\u00ednodo, 17 de outubro de 2015; <em>Evangelii gaudium<\/em>, n\u00ba 119-120).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">\u00c9 absolutamente falso e contr\u00e1rio \u00e0 toda a Tradi\u00e7\u00e3o pretender que \u201co Magist\u00e9rio supremo da Igreja \u00e9 o int\u00e9rprete aut\u00eantico dos textos precedentes do Magist\u00e9rio\u201d. H\u00e1 aqui um erro extremamente grave, e \u00e9 justamente o erro radical do neo-modernismo, erro do qual se perece desde o \u00faltimo Conc\u00edlio. O Magist\u00e9rio \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o e int\u00e9rprete da Revela\u00e7\u00e3o, e ele o \u00e9 em todas as \u00e9pocas da hist\u00f3ria e em todos os textos que produz. O Magist\u00e9rio presente deve continuar a interpretar, n\u00e3o o Magist\u00e9rio passado, mas a Revela\u00e7\u00e3o contida nas suas fontes (Escritura e Tradi\u00e7\u00e3o: Padres e te\u00f3logos); e para tanto, deve submeter-se aos ensinamentos do Magist\u00e9rio anterior, que t\u00eam uma autoridade definitiva e que j\u00e1 elucidou certos dados da Revela\u00e7\u00e3o. O Magist\u00e9rio presente n\u00e3o interpreta o Magist\u00e9rio passado, ele interpreta os pontos da Revela\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o interpretados pelo Magist\u00e9rio anterior. E eventualmente n\u00e3o faz sen\u00e3o retomar os ensinamentos do Magist\u00e9rio anterior que n\u00e3o t\u00eam necessidade de serem interpretados, mas que s\u00e3o, como disse Pio XII na <em>Humani Generis<\/em>, \u201ca regra pr\u00f3xima e universal da verdade em mat\u00e9ria de f\u00e9 e costumes\u201d (DS 3 884). Esse erro \u00e9 extremamente grave, porque \u00e9 o erro persistente da Santa S\u00e9 h\u00e1 cinquenta anos e que se encontra na raiz de todo o discurso de 22 de dezembro de 2005. Se \u00e9 a palavra de hoje que faz a verdade por ela mesma, porque ela reinterpreta sem cessar a palavra de ontem, \u00e9 o Papa de hoje que faz a verdade \u00e0 sua vontade, e a no\u00e7\u00e3o mesma da Tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica n\u00e3o existe mais. Poder-se-ia falar, como o fez Bento XVI, de uma \u201crenova\u00e7\u00e3o na continuidade\u201d, mas se esse tipo de express\u00e3o f\u00e1cil tranquiliza talvez os entusiastas do Conc\u00edlio, n\u00e3o explica grande coisa e n\u00e3o logra convencer os que permanecem perplexos diante das inova\u00e7\u00f5es evidentes do Conc\u00edlio. Pois ningu\u00e9m conseguiu demonstrar, at\u00e9 aqui, que a renova\u00e7\u00e3o do Vaticano II n\u00e3o rompeu a continuidade objetiva da Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">\u00c9 por isso que, mesmo se nos dizem que a interpreta\u00e7\u00e3o faz-se \u201c\u00e0 luz da Tradi\u00e7\u00e3o\u201d, este pressuposto \u00e9 falso. Porque a interpreta\u00e7\u00e3o que se faz \u00e0 luz da Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela que interpreta n\u00e3o o Magist\u00e9rio, mas a Revela\u00e7\u00e3o. Quando se v\u00ea como no numero 119 de <em>Evangelli Gaudium<\/em> Francisco \u201cinterpreta\u201d o n\u00ba 12 de Lumen gentium (que \u00e9 j\u00e1 uma \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o\u201d do Vaticano II), pode-se perguntar o que significa para a Santa S\u00e9 uma melhor compreens\u00e3o do <em>depositum fidei<\/em>, \u201cin eodem dogmate, eodem sensu eademque setentia\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><strong>A Missa Nova<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">No interrogat\u00f3rio de 11-12 de janeiro de 1979, a CDF fez a seguinte pergunta: \u201cO senhor defende que um fiel cat\u00f3lico possa pensar e afirmar que um rito sacramental, em particular o da missa aprovada e promulgada pelo Soberano Pont\u00edfice, possa ser n\u00e3o conforme \u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica ou <em>favens haeresim<\/em>?\u201d, Dom Marcel Lefebvre respondeu: \u201cEsse rito em si mesmo n\u00e3o professa a f\u00e9 cat\u00f3lica de maneira t\u00e3o clara como o antigo <em>Ordo missae<\/em> e, por conseguinte, ele pode favorecer a heresia. Mas n\u00e3o sei a quem o atribuir, nem se o papa \u00e9 o respons\u00e1vel por ele. O espantoso \u00e9 que um <em>Ordo missae<\/em> de sabor protestante e, portanto, <em>favens haeresim<\/em>, tenha conseguido se difundir na c\u00faria romana<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\" title=\"\">[2]<\/a>\u201d. A nova liturgia n\u00e3o \u00e9, pois, leg\u00edtima, porque favorece a heresia.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A validade (o que difere da legitimidade) apresenta, enquanto tal, um segundo problema; Dom Marcel Lefebvre jamais disse que o <em>Novus Ordo Missae<\/em> era em si v\u00e1lido. Ele jamais negou que o NOM era duvidosamente v\u00e1lido mas ele afirmou, ao contr\u00e1rio, na confer\u00eancia de 1979, citada na p\u00e1gina 374 do livro \u201cA missa de sempre\u201d, apoiando-se sobre a nota 15 do \u201cBreve exame cr\u00edtico\u201d, que endossava em termos de clareza impressionante. Dom Marcel Lefebvre jamais mudou de opini\u00e3o sobre esse ponto, nem p\u00f4s em d\u00favida a aprecia\u00e7\u00e3o que mostrou na confer\u00eancia de 1979, j\u00e1 citada. De um ponto de vista l\u00f3gico, se Dom Marcel Lefebvre disse: \u201c\u00e9 poss\u00edvel que o <em>Novus Ordo Missae<\/em> seja v\u00e1lido\u201d, pode-se deduzir (e lhe fazer dizer): \u201c\u00e9 poss\u00edvel que o NOM n\u00e3o seja v\u00e1lido\u201d. Mas n\u00e3o se pode disso deduzir (e lhe fazer dizer) nem: \u201c\u00e9 imposs\u00edvel que o NOM n\u00e3o seja v\u00e1lido\u201d, nem \u201c\u00e9 imposs\u00edvel que o NOM seja v\u00e1lido\u201d. Eis as declara\u00e7\u00f5es publicamente dirigidas por Dom Marcel Lefebvre sobre essa quest\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">1) Carta de Dom Marcel Lefebvre ao Papa Jo\u00e3o Paulo II, 8 de mar\u00e7o de 1980: \u201cQuanto \u00e0 missa do <em>Novus Ordo<\/em>, malgrado todas as reservas que se deve ter a seu respeito, jamais afirmei que ela \u00e9, em si, inv\u00e1lida ou her\u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">2) Carta de Dom Marcel Lefebvre ao Cardeal Joseph Ratzinger, 4 de abril de 1981: \u201cQuanto \u00e0 Reforma Lit\u00fargica, eu mesmo assinei o decreto conciliar e nunca afirmei que as aplica\u00e7\u00f5es fossem, em si, inv\u00e1lidas ou her\u00e9ticas\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">3) Carta de Dom Marcel Lefebvre ao Cardeal Joseph Ratzinger, 7 de abril de 1982: \u201cO segundo ponto corresponderia melhor \u00e0 realidade porque estava redigido assim: Dom Lefebvre assinou o decreto conciliar sobre a liturgia, aceitando assim a eventualidade de uma Reforma. Ele jamais afirmou que os textos dos novos livros lit\u00fargicos eram her\u00e9ticos ou, em si, inv\u00e1lidos na vers\u00e3o latina original, mas estima que a Reforma lit\u00fargica, tal como foi realizada, exige graves reservas, como o expressaram justamente os cardeais Ottaviani e Bacci\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">4) Carta de Dom Marcel Lefebvre ao Cardeal Joseph Ratzinger, 21 de julho de 1982: \u201cN\u00e3o duvidamos que muitos padres digam com devo\u00e7\u00e3o o <em>Novus Ordo Missae<\/em>. Mas isso n\u00e3o retira os graves defeitos internos do <em>Novus Ordo Missae<\/em>, assinalados particularmente pelos cardeais Ottaviani e Bacci no \u2018Breve exame cr\u00edtico\u2019\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">5) Carta de Dom Marcel Lefebvre ao Cardeal Joseph Ratzinger, 2 de mar\u00e7o de 1983: \u201cSempre reconheci e reconhe\u00e7o \u00e0 autoridade leg\u00edtima da Santa S\u00e9 o direito de legislar em mat\u00e9ria lit\u00fargica. Jamais afirmei que o novo ordo fosse her\u00e9tico, mas reconhe\u00e7o a exist\u00eancia de uma grave dificuldade descrita pelo cardeal Ottaviani e Bacci\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">6) Carta de Dom Marcel Lefebvre ao Cardeal Joseph Ratzinger, 17 de abril de 1985: \u201cN\u00f3s nunca afirmamos que o <em>Novus Ordo Missae<\/em>, celebrado segundo o rito indicado na publica\u00e7\u00e3o romana, seja em si inv\u00e1lido ou her\u00e9tico\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">7) Declara\u00e7\u00e3o de 5 de maio dirigida ao Papa Jo\u00e3o Paulo II: \u201c4. N\u00f3s declaramos reconhecer a validade do Sacrif\u00edcio da Missa e dos Sacramentos celebrados com a inten\u00e7\u00e3o de fazer o que faz a Igreja, e segundo os ritos indicados nas edi\u00e7\u00f5es t\u00edpicas do Missal romano e dos rituais dos sacramentos promulgados pelos Papas Paulo VI e Jo\u00e3o Paulo II\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Note-se&nbsp;que Dom Lefebvre havia aceitado assinar em 1988: ele chegava ao ponto de aceitar o reconhecimento da validade do NOM, mas \u201ccom a inten\u00e7\u00e3o de fazer o que faz a Igreja\u201d. Isto \u00e9 muito importante, porque justamente o NOM n\u00e3o d\u00e1 mais que duvidosamente essa inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><strong>O Novo C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Sempre recusamos respeitar a disciplina introduzida pelo Novo C\u00f3digo de 1983, precisamente porque \u201cimbu\u00eddo de ecumenismo e de personalismo, peca gravemente contra a finalidade mesma da lei\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\" title=\"\">[3]<\/a>. Ademais, esse novo C\u00f3digo veicula o esp\u00edrito da nova eclesiologia, democr\u00e1tica e colegialista. Como reconheceu o Papa Jo\u00e3o Paulo II, os ensinamentos do Vaticano II apresentam \u201cuma nova face da Igreja\u201d, que deveria inspirar, por sua vez, a legisla\u00e7\u00e3o can\u00f4nica do Novo C\u00f3digo de 1983.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\" title=\"\">[4]<\/a><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">N\u00e3o podemos contentar-nos com uma disciplina particular para a Fraternidade; n\u00f3s recusamos esse Novo C\u00f3digo porque ele \u00e9 contr\u00e1rio ao bem comum de toda a Igreja, que n\u00f3s queremos defender<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\" title=\"\">[5]<\/a>. Recordemos, a esse respeito, a decis\u00e3o reproduzida no <em>Cor Unum<\/em> de mar\u00e7o de 1992 (n.41): \u201cA recep\u00e7\u00e3o do Novo C\u00f3digo de direito can\u00f4nico apresenta um problema real de consci\u00eancia aos cat\u00f3licos. Porque, de uma parte, ele se afasta de modo impressionante, no conjunto como no detalhe, da prote\u00e7\u00e3o devida \u00e0 f\u00e9 e aos costumes. E de outra parte, n\u00f3s n\u00e3o queremos colocar em perigo o respeito devido \u00e0 autoridade leg\u00edtima. Dom Marcel Lefebvre, malgrado toda sua sagacidade, n\u00e3o julgou poder resolver a quest\u00e3o da validade da promulga\u00e7\u00e3o desse C\u00f3digo, mas seu conte\u00fado, como os princ\u00edpios anunciados na Carta apost\u00f3lica de promulga\u00e7\u00e3o (25 de janeiro de 1983), faziam-na ser considerada duvidosa. Neste caso, segundo o Canon 15 (nc 14) essa legisla\u00e7\u00e3o nova n\u00e3o urge. Nessa situa\u00e7\u00e3o, segundo o Canon 23 (nc 21) o c\u00f3digo de 1917 n\u00e3o se presume revogado, mas a nova legisla\u00e7\u00e3o deve ser conduzida \u00e0 precedente e se poss\u00edvel conciliada com ela<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\" title=\"\">[6]<\/a>\u201d. Essa decis\u00e3o n\u00e3o expressa apenas uma disciplina particular da Fraternidade, mas indica uma medida de prud\u00eancia, que vale objetivamente para todo cat\u00f3lico confrontado com os graves problemas que a nova legisla\u00e7\u00e3o, por si mesma duvidosa, suscitou.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><strong>Retorno ao \u201centendimento doutrinal\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Como explicamos nos n\u00fameros 1-5, o fim que buscamos \u00e9 que a Tradi\u00e7\u00e3o reencontre todos os seus direitos em Roma. Esse \u00e9 o fim prim\u00e1rio em nossa inten\u00e7\u00e3o e ser\u00e1 (como sempre) o \u00faltimo na execu\u00e7\u00e3o. Que significa aqui \u201c\u00faltimo\u201d? Significaria que o fim da crise na Igreja ocorrer\u00e1 s\u00f3 no final, portanto depois de um acordo da Fraternidade com Roma? Ou significa que o fim da crise na Igreja coincidir\u00e1 com esse acordo?<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A aceita\u00e7\u00e3o, de nossa parte, de um reconhecimento can\u00f4nico, nas circunst\u00e2ncias atuais, representa um ato moralmente indiferente, mas com duplo efeito, um efeito bom ligado ao ser da Igreja; e um efeito mau, ligado \u00e0s circunst\u00e2ncias concretas que atuam hoje. O efeito bom \u00e9 situar-se na normalidade jur\u00eddica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Roma (e at\u00e9, para alguns, beneficiar-se de um campo ampliado de apostolado, o que resta verificar). O efeito mau \u00e9 ele mesmo duplo: primeiramente, o risco de relativizar a Tradi\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o apareceria sen\u00e3o como o bem particular e a op\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica pessoal da Fraternidade S\u00e3o Pio X; em segundo, o risco de trair e abandonar esse bem particular, em raz\u00e3o de todo o <em>favens haeresim<\/em>, que caracteriza como tal a Igreja conciliar.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A solu\u00e7\u00e3o depende, antes de tudo, da propor\u00e7\u00e3o a ser estabelecida entre o efeito bom e o efeito mau. Claro est\u00e1 que na inten\u00e7\u00e3o de nosso Fundador, \u00e9 mais importante evitar o duplo efeito mau do que obter o efeito bom. O efeito bom \u00e9 aqui menos bom que o bem melhor ao qual se op\u00f5e o duplo efeito pior. A profiss\u00e3o p\u00fablica da f\u00e9 \u00e9 mais importante que a normalidade can\u00f4nica. \u201cO que nos interessa, antes de tudo, \u00e9 manter a f\u00e9 cat\u00f3lica. Esse \u00e9 o nosso combate. Por isso quest\u00e3o can\u00f4nica, puramente exterior, p\u00fablica na Igreja, \u00e9 secund\u00e1ria. O que importa \u00e9 permanecer na Igreja&#8230; na Igreja, isto \u00e9, na f\u00e9 cat\u00f3lica de sempre e no verdadeiro sacerd\u00f3cio, e na verdadeira missa, e nos verdadeiros sacramentos, no catecismo de sempre, com a B\u00edblia de sempre. \u00c9 isso que nos interessa. \u00c9 isso o que \u00e9 a Igreja. Ser reconhecido publicamente, isso \u00e9 secund\u00e1rio. N\u00e3o se deve buscar o secund\u00e1rio perdendo-se o que \u00e9 prim\u00e1rio, o que \u00e9 o primeiro objeto de nosso combate<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\" title=\"\">[7]<\/a>\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A solu\u00e7\u00e3o depende, em seguida, da avalia\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias: s\u00e3o tais que possamos racionalmente esperar evitar o duplo efeito mau; isto \u00e9, o duplo risco? Porque trata-se nem mais nem menos que de um risco. A quest\u00e3o consiste, em resumo, a se perguntar se \u00e9 prudente colocar-se sob a autoridade dos membros da hierarquia da Igreja, tal como se encontram na situa\u00e7\u00e3o presente, isto \u00e9, ainda imbu\u00eddos em sua maioria de falsos princ\u00edpios contr\u00e1rios \u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica. Poder-se-\u00e1, sem d\u00favidas, citar algumas exce\u00e7\u00f5es; mas elas n\u00e3o provam absolutamente nada contra o estado de esp\u00edrito geral que \u00e9 clar\u00edssimo, na sua generalidade. Somos obrigados a aplicar aqui a regra segundo a qual as coisas designam-se segundo aquilo que nelas domina, e concluir que os membros da hierarquia da Igreja s\u00e3o atualmente modernistas. Dito isto, para responder a nossa quest\u00e3o, dispomos de dois elementos: primeiramente, nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia, porque podemos constatar que at\u00e9 aqui nenhum dos que aceitaram um reconhecimento can\u00f4nico da parte de Roma conseguiram evitar verdadeiramente o duplo efeito mau; em segundo, a experi\u00eancia de nosso Fundador: \u201cN\u00e3o se entra num quadro, e sob ordens de superiores, dizendo que vamos mudar tudo quando entrarmos, enquanto que eles t\u00eam tudo em m\u00e3os para nos dominar! Eles t\u00eam toda autoridade<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\" title=\"\">[8]<\/a>.\u201d<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><strong>Roma em marcha?<\/strong><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Na entrevista a\u00e9rea de 13 de maio, o Papa diz a Nicolas Sen\u00e8ze que ele deseja ter calma: \u201c<em>A me mon piace affrettare le cose. Camminare, camminare, camminare, e por si vedr\u00e0<\/em>\u201d. Francisco n\u00e3o quer precipitar as coisas: por enquanto, \u00e9 preciso caminhar e caminhar ainda sobre o caminho&#8230; \u00c9 preciso, diz ele, \u201ccaminhar junto buscando a f\u00f3rmula que permitir\u00e1 avan\u00e7ar\u201d. Isso lan\u00e7a uma luz interessante sobre a problem\u00e1tica que n\u00f3s levantamos no in\u00edcio de nossa reflex\u00e3o: no esp\u00edrito do Papa, a formula\u00e7\u00e3o doutrinal n\u00e3o passa de um meio. A doutrina, com a unidade de f\u00e9 que ela garante, n\u00e3o representa o fim da marcha. O fim seria, antes, avan\u00e7ar rumo a plena comunh\u00e3o, num di\u00e1logo incessante, e que deveria de qualquer modo se prolongar at\u00e9 mesmo depois da concess\u00e3o de uma estrutura can\u00f4nica<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\" title=\"\">[9]<\/a>. E a plena comunh\u00e3o, diz-nos Monsenhor Guido Pozzo na entrevista j\u00e1 citada, \u00e9 o enriquecimento m\u00fatuo, para al\u00e9m das diverg\u00eancias doutrinais: \u201cOs diferentes pontos de vista ou opini\u00f5es que temos sobre certas quest\u00f5es n\u00e3o devem necessariamente conduzir \u00e0 divis\u00e3o, mas a um enriquecimento m\u00fatuo.\u201d Seria ent\u00e3o a coabita\u00e7\u00e3o da verdade e do erro, mediante o pre\u00e7o de uma declara\u00e7\u00e3o comum mais que comum?&#8230;<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Infelizmente, esses diferentes pontos de vista n\u00e3o dizem respeito a simples opini\u00f5es igualmente poss\u00edveis, e as quest\u00f5es \u00e0s quais eles correspondem n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es \u201cabertas\u201d, quest\u00f5es sobre as quais cada um guardaria sua liberdade de reflex\u00e3o \u2013 e de condu\u00e7\u00e3o. Essas quest\u00f5es foram, em sua maioria, definitivamente resolvidas pelo Magist\u00e9rio da Igreja, muito antes do Vaticano II. A liberdade religiosa de <em>Dignitatis Humanae<\/em> e a laicidade positiva de <em>Gaudium et Spes<\/em> est\u00e3o condenadas pela <em>Quanta Cura<\/em> de Pio IX. A nova eclesiologia ecum\u00eanica de <em>Lumen Gentium<\/em> est\u00e1 condenada por Pio XII na <em>Mystici Corporis<\/em> e <em>Humani Generis<\/em>, por causa do princ\u00edpio absolutamente falso, que quereria estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o real entre a Igreja de Cristo e a Igreja Cat\u00f3lica. O ecumenismo de <em>Unitatis Redintegratio<\/em> est\u00e1 condenado por Pio XI na <em>Mortalium Animos<\/em>. A colegialidade de <em>Lumen Gentium<\/em>, no que nega a unicidade do sujeito do Primado, cai sob a condena\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano I.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Definitivamente, essa \u201cf\u00f3rmula que permitir\u00e1 avan\u00e7ar\u201d conduz-nos uma vez mais ao texto fundador da Comiss\u00e3o Pontif\u00edcia <em>Ecclesia Dei<\/em>, o motu pr\u00f3prio de 2 de julho de 1988: Jo\u00e3o Paulo II nele afirma que a Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 vivente. O discurso de 2005 de Bento XVI \u00e9 o seu eco e int\u00e9rprete direto: essa vida da Tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 a \u201crenova\u00e7\u00e3o na continuidade\u201d. Renova\u00e7\u00e3o evolucionista e modernista, que entende ultrapassar a contradi\u00e7\u00e3o numa hermen\u00eautica imposs\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Que concluir? Retomando as palavras citadas no come\u00e7o deste n\u00famero, dir\u00edamos simplesmente que \u201ca Fraternidade S\u00e3o Pio X n\u00e3o tem a negociar um caridoso reconhecimento que a salvaria de um suposto cisma. Ela tem a honra imensa de, ap\u00f3s quarenta anos de exclus\u00e3o, poder, no Vaticano, dar testemunho da f\u00e9 cat\u00f3lica\u201d. Aguardando que Roma por fim se decida a expulsar do meio dos cat\u00f3licos o povo \u00edmpio desses erros conciliares.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Fonte: <em>Courrier de Rome<\/em> n\u00ba 499, maio de 2017.<\/p>\n<div>\n<p class=\"rtejustify\">&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div id=\"ftn1\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\" title=\"\">[1]<\/a> Cf. Nas Acta synodalia concilii Vaticani secundi, vol. III, parte I, as observa\u00e7\u00f5es escritas do Cardeal Browne (p. 629-630) e as de Monsenhor Carli (p. 660-661) sobre o esquema De Ecclesia, da Terceira sess\u00e3o do Conc\u00edlio (ver\u00e3o de 1964).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn2\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\" title=\"\">[2]<\/a> Mgr Lefebvre et le Saint-Office, Itin\u00e9raries n. 233, maio de 1979, p. 146-147.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn3\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\" title=\"\">[3]<\/a> \u201cPrescri\u00e7\u00f5es concernentes aos poderes e faculdades das quais gozam os membros da FSSPX\u201d, em Documents de la Fraternit\u00e9 saint Pie X, p. 60A.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn4\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\" title=\"\">[4]<\/a> Jo\u00e3o Paulo II, Constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Sacrae disciplinae leges de 25 de janeiro de 1983: \u201cFundamentalis illa ratio novitatis, quae, a traditione legifera Ecclesiae numquam discedens, reperitur in Concilio Vaticano II, praesertim quod spectat ad eius ecclesiologicam doctrinam, efficiat etiam rationem novitatis in novo Codice.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn5\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\" title=\"\">[5]<\/a> Cf. Dom Lefebvre, confer\u00eancias de 18 de janeiro; 15 de mar\u00e7o; 19 de dezembro de 1983.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn6\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\" title=\"\">[6]<\/a> \u201cPrescri\u00e7\u00f5es concernentes aos poderes e faculdades das quais gozam os membos da FSSPX\u201d, em Documents de la Fraternit\u00e9 saint Pie X, p. 112D e 113 A.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn7\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\" title=\"\">[7]<\/a> Dom Marcel Lefebvre, Confer\u00eancia espiritual em \u00cacone, 21 de dezembro de 1984 (Cospec 112)<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn8\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\" title=\"\">[8]<\/a> Idem, ibidem.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn9\">\n<p class=\"rtejustify\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\" title=\"\">[9]<\/a> Cf. os dois artigos \u201c\u00c0 l\u2019origine des declarations communes\u201de \u201cLa fin des anath\u00e8mes\u201d, no n\u00fameros de mar\u00e7o de 2017 do Courrier de Rome.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Pe. 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