{"id":82,"date":"2024-08-17T20:18:44","date_gmt":"2024-08-17T23:18:44","guid":{"rendered":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=82"},"modified":"2024-08-18T19:45:37","modified_gmt":"2024-08-18T22:45:37","slug":"nossos-principios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=82","title":{"rendered":"Nossos princ\u00edpios:"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>1.<\/strong> Encontramos na &#8220;Pol\u00edtica&#8221; de Arist\u00f3teles um princ\u00edpio b\u00e1sico da estrutura\u00e7\u00e3o das sociedades que poder\u00edamos enunciar assim: &#8220;As sociedades s\u00e3o o que s\u00e3o suas fam\u00edlias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em outras palavras, a organicidade de uma cidade verdadeiramente humana, tem base na c\u00e9lula familiar, na constitui\u00e7\u00e3o sadia e est\u00e1vel da institui\u00e7\u00e3o familiar. Os erros estruturais que podem afligir uma sociedade s\u00e3o dois: um da dissolu\u00e7\u00e3o individualista (erro do liberalismo burgu\u00eas) outro da absor\u00e7\u00e3o dos direitos da fam\u00edlia pelo Estado (erro do totalitarismo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A dureza cristalina da fam\u00edlia, a nitidez est\u00e1vel de seus contornos \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial de uma sociedade verdadeiramente humana. Da\u00ed nossa repulsa pelo div\u00f3rcio, \u00e0 luz da raz\u00e3o natural antes mesmo da ilumina\u00e7\u00e3o da f\u00e9. O div\u00f3rcio \u00e9 uma reivindica\u00e7\u00e3o individualista, anti-social, e por conseguinte anti-humana. O div\u00f3rcio, como reivindica\u00e7\u00e3o individualista, \u00e9 essencialmente um erro corol\u00e1rio do erro mais geral do liberalismo; mas \u00e9 tamb\u00e9m um erro utilizado pelo totalitarismo, apesar da aparente contradi\u00e7\u00e3o, porque o totalitarismo aparece (como a hist\u00f3ria o demonstrou) como uma contradit\u00f3ria conseq\u00fc\u00eancia do liberalismo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia os dois erros sociais se encontram com a mesma mal\u00e9fica efic\u00e1cia; ambos procuram destruir a estabilidade familiar e a indissolubilidade do v\u00ednculo; ambos ferem a lei natural do mesmo modo, embora por motivos e em perspectivas hist\u00f3ricas diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>2.<\/strong> Um outro princ\u00edpio, que tiramos de Santo Agostinho na &#8220;Cidade de Deus&#8221;, diz que uma cidade de homens s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente humana quando respira justi\u00e7a. Fora dessa condi\u00e7\u00e3o n\u00f3s teremos um aglomerado de brutos e n\u00e3o uma cidade humana feita \u00e0 semelhan\u00e7a de Deus. Do mesmo Arist\u00f3teles e de Santo Tom\u00e1s tiramos o conceito derivado de amizade c\u00edvica (<em>amicitia<\/em>), virtude anexa da justi\u00e7a, virtude essencial, oxig\u00eanio vital para o clima de uma cidade verdadeiramente humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>3.<\/strong> Ora, esses dois princ\u00edpios s\u00e3o conexos, porque a fam\u00edlia, a casa da fam\u00edlia \u00e9, ou deve ser, o lugar onde se exercita a amizade c\u00edvica, o lugar onde se destila, o lugar adequado onde se prepara o elemento essencial ao bom clima humano da cidade. Esse ser\u00e1 o nosso terceiro princ\u00edpio: a fam\u00edlia \u00e9 o lugar adequado para a germina\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a; \u00e9 a fonte da amizade c\u00edvica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>4.<\/strong> Avancemos mais um passo. Na situa\u00e7\u00e3o concreta do mundo, isto \u00e9, no caso concreto de uma humanidade deca\u00edda e redimida, o problema moral da cidade, mesmo considerado sob o \u00e2ngulo temporal, deve ser colocado em sub-alterna\u00e7\u00e3o aos preceitos divinos revelados, ou como diz Maritain, deve ser colocado em termos de uma moral &#8220;adequatement prise&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nessa nova perspectiva ganha singular realce o papel que desempenham as fam\u00edlias crist\u00e3s. J\u00e1 n\u00e3o se trata somente de estrutura a sociedade com c\u00e9lulas normais que resistam \u00e0 lepra do liberalismo ou ao c\u00e2ncer do totalitarismo; trata-se agora de uma regula\u00e7\u00e3o muito mais profunda, de uma atua\u00e7\u00e3o mais intensa em que a qualidade domina a quantidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Eu diria agora, com mais esse dado concreto da verdadeira condi\u00e7\u00e3o humana, que uma sociedade humana ser\u00e1 medida pelo grau de hero\u00edsmo de suas fam\u00edlias crist\u00e3s. E esse \u00e9 o nosso quarto princ\u00edpio, que apenas traduza, aplicando-as ao problema da estrutura social, as palavras evang\u00e9licas t\u00e3o conhecidas e t\u00e3o pouco seguidas: &#8220;V\u00f3s sois o sal da terra&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>5.<\/strong> Dirigindo agora a nossa aten\u00e7\u00e3o para a concret\u00edssima conjuntura, isto \u00e9, pensando no mundo em que vivemos, no momento hist\u00f3rico que atravessamos, eu estenderia aos outros grupos \u2014 associa\u00e7\u00f5es, escolas, sindicatos \u2014 o que disse at\u00e9 aqui da fam\u00edlia. E aplicaria a esses grupos, propor\u00e7\u00f5es guardadas, os mesmos princ\u00edpios que acabamos de considerar. E por conseguinte, aplicaria aos\u00a0<strong>movimentos<\/strong>\u00a0cat\u00f3licos \u2014 isto \u00e9, \u00e0s associa\u00e7\u00f5es fundadas com especifica\u00e7\u00e3o temporal, como por exemplo a C.F.C. [1] \u2014 as mesmas conclus\u00f5es. E diria assim: a sorte das sociedades depende do grau de hero\u00edsmo (de aut\u00eantico hero\u00edsmo crist\u00e3o) dos movimentos cat\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ainda mais, diria que esses movimentos, pelo seu car\u00e1ter excepcionalmente militante, devem levar ainda mais longe do que qualquer outra institui\u00e7\u00e3o crist\u00e3 o grau de hero\u00edsmo necess\u00e1rio \u00e0 salva\u00e7\u00e3o do mundo. Parodiando Winston Churchill, que traduziu a seu modo ingl\u00eas as palavras de Cristo, eu direi que nunca, na hist\u00f3ria do mundo, tantos dependeram tanto de t\u00e3o poucos. E \u00e9 essa despropor\u00e7\u00e3o que nos deve dar a medida do que Deus espera de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>6.<\/strong> O nosso sexto princ\u00edpio tem nexo estreito com o anterior. Se os movimentos cat\u00f3licos, para atuarem no mundo, precisam de uma forte dose de hero\u00edsmo crist\u00e3o, conclu\u00edmos que devem ter uma base de espiritualidade de onde lhes venha essa for\u00e7a de sobrenatural fecundidade para est\u00edmulo e vitaliza\u00e7\u00e3o de suas tarefas de ordem temporal e profana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o se trata de trazer para a tarefa especificada por objeto de ordem natural as virtudes infusas que t\u00eam por objeto a salva\u00e7\u00e3o e a a vida eterna; mas de trazer para a atua\u00e7\u00e3o no mundo um grau de liberdade, uma for\u00e7a de hero\u00edsmo que s\u00f3 o evangelho pode dar. Em outras palavras n\u00f3s diremos que s\u00f3 pode atuar no mundo quem puder afirmar praticamente, efetivamente, a transcend\u00eancia do homem sobre o mundo. Ou ainda: s\u00f3 pode haver obra social, com interesse fervoroso, para quem tiver cursado a escola evang\u00e9lica do&nbsp;<strong>desapego<\/strong>. E esse \u00e9 o nosso sexto princ\u00edpio, de capital import\u00e2ncia para os movimentos cat\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(Gustavo Cor\u00e7\u00e3o, in&nbsp; &#8220;A Espiritualidade dos Movimentos Cat\u00f3licos&#8221;,&nbsp;<em>A Ordem<\/em>, dezembro de 1951)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Encontramos na &#8220;Pol\u00edtica&#8221; de Arist\u00f3teles um princ\u00edpio b\u00e1sico da estrutura\u00e7\u00e3o das sociedades que poder\u00edamos enunciar assim: &#8220;As sociedades s\u00e3o o que s\u00e3o suas fam\u00edlias&#8221;. Em outras palavras, a organicidade de uma cidade verdadeiramente humana, tem base na c\u00e9lula familiar, na constitui\u00e7\u00e3o sadia e est\u00e1vel da institui\u00e7\u00e3o familiar. 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