{"id":89,"date":"2024-08-17T23:39:05","date_gmt":"2024-08-18T02:39:05","guid":{"rendered":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=89"},"modified":"2024-08-18T19:38:53","modified_gmt":"2024-08-18T22:38:53","slug":"quem-foi-gustavo-corcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/?p=89","title":{"rendered":"Quem foi Gustavo Cor\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"161\" height=\"238\" src=\"https:\/\/dev.permanencia.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/gcorcao_back_branco.gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-90\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading has-large-font-size\">Testemunho<\/h1>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>J\u00falio Fleichman<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o me foi poss\u00edvel escrever o Editorial deste n\u00famero limitando-me a dizer alguma coisa a respeito de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o somente na perspectiva da nossa PERMAN\u00caNCIA. Com uma vida de tal modo entrela\u00e7ada com a dele&nbsp;\u2014&nbsp;mais do que uma honra, uma gra\u00e7a recebida com plena consci\u00eancia disso&nbsp;\u2014&nbsp;n\u00e3o poderia deixar de incluir neste n\u00famero especial a ele dedicado, alguma coisa em meu nome a respeito do grande paladino da Igreja, instrumento de Deus, amigo e pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Muitos j\u00e1 falaram do escritor, do estilista, do combatente, tanto amigos como inimigos inclusive&nbsp;\u2014&nbsp;o que talvez seja o pior&nbsp;\u2014&nbsp;inimigos que minimizam o valor daquilo que fundamentalmente os separava. Raros dizem de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o alguma coisa sem se lembrarem de S\u00e3o Paulo e de suas palavras, \u201c<em>bonum certamen certavi&#8230;<\/em>\u201d. Todos associam a nobreza cl\u00e1ssica de seu estilo a Machado de Assis. Uns lembram com raz\u00e3o a espantosa converg\u00eancia, na mesma pessoa, de um raro e penetrante esp\u00edrito cient\u00edfico e um ainda mais raro dom de verdadeiro poeta. Os amigos, estes sabem o quanto a fina sensibilidade de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o fazia-o notar delicadas nuances na complexa trama de relacionamentos pessoais. Direi eu tamb\u00e9m, espero, alguma coisa disso. Finalmente, alguns provaram a ponta de sua espada e dentre estes, houve quem dissesse dele: \u201cum homem mau\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Do ponto de vista que mais me impressionou quando, j\u00e1 h\u00e1 muito seu companheiro de trabalho, tomei consci\u00eancia disso, gostaria de submeter \u00e0 aten\u00e7\u00e3o de quem, por acaso, leia este artigo, que se d\u00ea conta da linhagem espiritual a que pertence Gustavo Cor\u00e7\u00e3o, linhagem que atesta a presen\u00e7a de Deus ao longo da hist\u00f3ria, digamos, espiritual do Brasil. Este pobre grande povo que ainda \u00e9, em sua simplicidade fiel, mant\u00e9m a seu modo uma fundamental atitude de piedade religiosa que as organiza\u00e7\u00f5es episcopais se esfor\u00e7am por erradicar ou transformar em algo parecido com as reivindica\u00e7\u00f5es sindicais. Nunca nos faltou algum representante dessa ra\u00e7a de soldado cat\u00f3lico cuja fundamental caracter\u00edstica \u00e9 uma decidida atitude de servidor da Verdade e cuja qualidade fundamental \u00e9 a for\u00e7a com que Deus o dotou, instrumento adequado para combater em favor desta Dama. Se o Brasil tem em seu passado grandes vultos de homens religiosos ligados, de algum modo, \u00e0 Igreja e \u00e0 f\u00e9&nbsp;\u2014&nbsp;bispos, pregadores, escritores, m\u00fasicos&nbsp;\u2014&nbsp;n\u00e3o \u00e9 nesses e sim em uma especial dinastia de combatentes cat\u00f3licos dotados de fina acuidade que me parece haver antepassados espirituais e antecedentes hist\u00f3ricos de uma influ\u00eancia do g\u00eanero da que exerceu Gustavo Cor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Penso, em um Visconde de Cair\u00fa e sua atua\u00e7\u00e3o na Assembl\u00e9ia de 1823. Lembro-me da agrad\u00e1vel surpresa com que ouvi, em confer\u00eancia pronunciada por not\u00e1vel historiador, como se distinguiu e como se elevou acima das posi\u00e7\u00f5es pouco inteligentes dos liberais tipo \u201cAndradas\u201d&nbsp;&nbsp;e dos conservadores tio \u201ccatolic\u00f5es\u201d, o bom senso e a energia de Cair\u00fa. Esta surpresa foi tanto mais agrad\u00e1vel quanto mais pude notar que o pr\u00f3prio conferencista, liberal de esquerda, ficou irritado ao descobrir que havia, involuntariamente e pela pr\u00f3pria l\u00f3gica de sua exposi\u00e7\u00e3o, assinalado como um homem superior aquele que, para seu horror, defendia na Constituinte por exemplo, que s\u00f3 cat\u00f3licos podiam ter a liberdade de culto p\u00fablico segundo a tradicional e imut\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o nos faltou, ao Brasil, um Carlos de Laet e sua alegre esgrima de bom polemista e sua bela linguagem de grande escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Tivemos Jackson de Figueiredo cuja influ\u00eancia pessoal marcante se imp\u00f4s a cat\u00f3licos mais ou menos med\u00edocres (embora em posi\u00e7\u00f5es destacadas). Arregimentando-os, conseguiu deles que fizessem obra digna de aten\u00e7\u00e3o e apre\u00e7o, enquanto Jackson viveu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E tivemos Gustavo Cor\u00e7\u00e3o, o maior de todos, cujo valor intelectual, sensibilidade de artista, pena de grande escritor, penetra\u00e7\u00e3o aguda e familiaridade pessoal com a ci\u00eancia, reuniam em uma s\u00f3 e grande figura tantas not\u00e1veis qualidades a servi\u00e7o da f\u00e9, do combate pela causa da Igreja, do servi\u00e7o do Cristo Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Dos testemunhos que ouvimos nos dias de sua morte, h\u00e1 dois que incluo aqui porque s\u00e3o importantes e porque talvez se percam se o n\u00e3o fizer. De um padre ouvimos, v\u00e1rios dos seus amigos, que ao receber pela primeira vez Gustavo Cor\u00e7\u00e3o que vinha se confessar, sentou-se no confession\u00e1rio impressionado com aquele \u201cgigante\u201d, segundo suas palavras, que vinha ajoelhar-se ao seu lado&nbsp;\u2014&nbsp;\u201cOuvi, em seguida, uma confiss\u00e3o de criancinha\u201d, disse-nos ele. E de outro padre, este falando do p\u00falpito, em missa por sua mem\u00f3ria, ouvimos que atender a Gustavo Cor\u00e7\u00e3o que se confessava, fizera-o sentir uma grande vontade de ser melhor, de ser mais padre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Os novos amigos com quem convivemos hoje e aqueles que de n\u00f3s se afastaram talvez n\u00e3o saibam, ou se tenham esquecido, que por volta de 1949, 1950, um curioso fen\u00f4meno ocorreu. Vindos das mais diversas origens, ricos uns, pobres outros; uns, cat\u00f3licos toda a vida, outros, rec\u00e9m-convertidos e entre estes, um pobre judeu ainda tateando no meio de sua confus\u00f5es; uns mais mo\u00e7os, outros j\u00e1 maduros; casados ou solteiros, em suma, cerca de quinze ou vinte pessoas se congregaram em torno das aulas de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o no antigo Centro Dom Vital. Com os anos, outros apareceram e se juntaram a n\u00f3s, enquanto que, por sua vez, alguns se separavam, quer por simples raz\u00e3o de circunst\u00e2ncias, quer por diverg\u00eancias que os levaram a caminhos diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Muitas vezes conversamos entre n\u00f3s, conscientes de que est\u00e1vamos recebendo grandes gra\u00e7as na converg\u00eancia que nos unia em torno dele por causa da beleza da obra de Deus e de sua doutrina que nos ia sendo desvendada ao longo do itiner\u00e1rio que segu\u00edamos com ele, como se fossemos peregrinos de Ema\u00fas. Muitas vezes nos pergunt\u00e1vamos, um pouco inquietos, o que seria que Deus esperava de n\u00f3s pois era quase evidente que Sua m\u00e3o nos havia trazido e Sua voz nos formava atrav\u00e9s de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o. Inquietava-nos a consci\u00eancia de que nenhum de n\u00f3s parecia dotado de qualidades que fizessem esperar um continuador \u00e0 altura de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o. Lembro-me do alvoro\u00e7o com que recebemos um dos novos membros do Centro Dom Vital cuja gra\u00e7a no escrever, cuja cultura e afinidade com nosso pensamento por um instante deu-nos a esperan\u00e7a de havermos encontrado um poss\u00edvel disc\u00edpulo para o nosso mestre. Mas a bela esperan\u00e7a desvaneceu-se e nosso amigo, depois de combater algum tempo a nosso lado, esgrimindo muito bem contra os \u201cestudantes\u201d do \u201cMetropolitano\u201d&nbsp;\u2014&nbsp;\u00f3rg\u00e3o esquerdista da \u00e9poca&nbsp;\u2014&nbsp;ocupou-se com outras coisas e se esqueceu, parece, n\u00e3o apenas de n\u00f3s mas da necessidade de atender a um combate mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Hoje sabemos, creio eu, para que o Senhor nos chamou e para que t\u00e3o longamente, por quase 30 anos, preparou-nos com tal mestre. Preparou-nos como Ele mesmo se preparou no Horto das Oliveiras para a Sua hora. Guardadas todas as propor\u00e7\u00f5es e feitas todas as distin\u00e7\u00f5es, o Senhor Jesus preparou-nos para a Paix\u00e3o da Igreja e o fez do mesmo modo pelo qual Ele pr\u00f3prio se preparou para a Sua Paix\u00e3o. Assim como, pelo suor de sangue abriu os poros e exasperou a sensibilidade da pele para ser pouco depois flagelado, assim preparou nossa alma e nossos cora\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de um mestre excepcional que p\u00f4de, com fino discernimento e admira\u00e7\u00e3o, transmitir a seus alunos a grandeza e a beleza, a majestade e a bondade e as exig\u00eancias da Verdade subsistente. Lembro-me bem das suas aulas e das vezes em que n\u00f3s perceb\u00edamos no orador, que se esquecia por um momento dos alunos, brilharem-lhe os olhos, exprimir no rosto o deslumbramento e o amor que as coisas de que falava despertavam dentro dele. Foi assim que fomos preparados. Seus ensinamentos e exemplos e conselhos, ao mesmo tempo retificavam muitas deforma\u00e7\u00f5es que o s\u00e9culo, a escola, o jornal haviam introduzido em nossa intelig\u00eancia e em nossa sensibilidade e, nas nossas almas debru\u00e7adas derramava os dons que recebera da Igreja, dos grandes santos doutores, pregadores, confessores e m\u00e1rtires. Foi assim que fomos preparados para que a Paix\u00e3o da Igreja nesta hora de trevas n\u00e3o fosse recebida apenas por pessoas indiferentes ou meio-adormecidas que se ponham a diminuir a gravidade imensa da trag\u00e9dia que se desenrola sob seus olhos. Para t\u00e3o terr\u00edvel espet\u00e1culo e para t\u00e3o dram\u00e1tico flagelo em que vemos n\u00e3o s\u00f3 bispos e padres&nbsp;\u2014&nbsp;quase todos e em quase todos os lugares&nbsp;\u2014&nbsp;mas at\u00e9 as pr\u00f3prias autoridades do Vaticano, o pr\u00f3prio Papa falarem linguagem diferente daquela que a Igreja usou durante 20 s\u00e9culos e evidentemente porem a perder tantas almas, para isso, era preciso, \u00e9 imprescind\u00edvel que uma esp\u00e9cie diferente de mart\u00edrio abrasasse almas preparadas para este convite: seguir o Senhor Jesus nesta especial seq\u00fcela de sofrimentos, carregar esta especial forma de Cruz. N\u00f3s fomos especialmente preparados, para sofrer intensamente o sofrimento da Igreja sem que o soub\u00e9ssemos ent\u00e3o. Agora, sim, sabemos e quem no-lo ensinou e quem mostrou-nos uma dimens\u00e3o inesperada e uma grandeza da qual n\u00e3o somos dignos da gra\u00e7a magn\u00edfica que recebemos, foram os pr\u00f3prios autores deste flagelo, n\u00e3o n\u00f3s. Fomos preparados com a grandeza e a beleza das coisas de Deus para que nos ferisse profundamente, sim, para que se cravassem doloridamente em nossos cora\u00e7\u00f5es os espinhos dessa coroa que voltam a colocar sobre a cabe\u00e7a do Senhor. Espancam-nos no rosto, os Cardeais e bispos que se atrevem a dizer o que gritam sobre os telhados. Somos tra\u00eddos e abandonados com o que nos vem de Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E fomos tamb\u00e9m preparados longamente, com a voz da M\u00e3e e Mestra, com o que nos prega e d\u00e1 h\u00e1 mais de 20 s\u00e9culos para que nessa hora pud\u00e9ssemos resistir e procurar socorrer nossos irm\u00e3os. Fomos preparados assim para o combate que Gustavo Cor\u00e7\u00e3o combateu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Hoje, bem o sabemos, bem o sentimos, estamos prontos. Sobretudo sabemos chegou a nossa hora porque morreu Gustavo Cor\u00e7\u00e3o deixando-nos na primeira linha de combate sem suas qualidades e sem os recursos que ele dispunha. Mas sabemos que nossa hora chegou e que agora devemos pedir o socorro de Deus, a intercess\u00e3o de Nossa Senhora, de S\u00e3o Miguel, S\u00e3o Jos\u00e9 e dos outros nossos santos, as ora\u00e7\u00f5es de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o, Alfredo Lage, Fernando Carneiro, F\u00e1bio Alves Ribeiro, e de tantos outros companheiros n\u00e3o mais apenas para que continue a ser bem feita a forma\u00e7\u00e3o dos que ficaram mas para que seja bem recebida e fecunda em n\u00f3s a obra que a gra\u00e7a de Deus empreende conosco sem o aux\u00edlio direto e presente, na Terra, dos nossos predecessores. Suplicamos, supliquemos que nosso cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o desfale\u00e7a e que a evidente inutilidade dos servidores que sobraram, a inevit\u00e1vel obscuridade de todo o nosso trabalho, n\u00e3o abata o nosso \u00e2nimo e n\u00e3o nos fa\u00e7a pesado o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o queria terminar este artigo sem algumas refer\u00eancias pessoais que me parecem devidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Grande escritor, feroz polemista, ardente pregador Gustavo Cor\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixava, de notar, como disse no princ\u00edpio, aspectos de fina sensibilidade no seu relacionamento com os demais, aspectos que se imaginaria n\u00e3o terem sido percebidos. Ele podia sentir no obscuro ouvinte de uma aula, dos mais distantes de sua conviv\u00eancia pessoal, algo que lhe inspirasse uma esp\u00e9cie de inclina\u00e7\u00e3o piedosa. Muitas vezes se dava ao trabalho de telefonar para os amigos, tomar a iniciativa de manifestar-lhes uma amizade e um interesse de uma forma, com um calor que surpreendiam. Houve tempo em que, sem recursos, amigos pobres eram buscados em suas casas e levados por Cor\u00e7\u00e3o em seu carro para a casa dele onde o gosto comum pela m\u00fasica proporcionava-lhes freq\u00fcentes audi\u00e7\u00f5es de Bach ou Mozart em magn\u00edfica instala\u00e7\u00e3o sonora que o t\u00e9cnico e inventor Gustavo Cor\u00e7\u00e3o se esmerara em montar. Numa dessas vezes, vindo buscar-nos, a mim e a minha mulher, esta lhe disse, j\u00e1 no meio do caminho: \u201cHoje, Dr. Cor\u00e7\u00e3o, creio que vou ouvir uma m\u00fasica diferente na Maternidade\u201d. Fomos diretamente para a Casa de Sa\u00fade S\u00e3o Jos\u00e9 onde ficamos os dois andando, Dr. Cor\u00e7\u00e3o e eu, pelos corredores, noite a dentro, at\u00e9 que soubemos que havia nascido meu filho Gustavo, seu afilhado, para o qual o padrinho escreveu uma bela carta, \u201c<strong>Os Seis Gustavos<\/strong>\u201d, e a&nbsp;<strong>dedicat\u00f3ria<\/strong>&nbsp;que junto a esta publica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.permanencia.org.br\/drupal\/node\/41#footnote1_ueng2ry\">1<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Este combatente jamais deixou de surpreender aqueles que s\u00f3 o conheciam de leitura, quando seu belo sorriso desarmava as apreens\u00f5es; seu \u00e2nimo vivaz surpreendia pelo vivo interesse por tantas coisas, mesmo no meio de afli\u00e7\u00f5es e doen\u00e7as; seu valor, reconhecido por amigos e inimigos, poderia t\u00ea-lo levado a um f\u00fatil desvanecimento, mas, ao contr\u00e1rio, mostrou-me, a mim, muitas vezes, sua capacidade de se inclinar para quem n\u00e3o tinha paridade com ele e para quem estava longe de sua altura. E inclinando-se assim, imitaria talvez a inclina\u00e7\u00e3o chamada Miseric\u00f3rdia cuja defini\u00e7\u00e3o, segundo os te\u00f3logos consiste precisamente no ato de amor incompreens\u00edvel pelo qual o Superior se inclina para o inferior, o Perfeito, para o imperfeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Para quem o acompanhou por tantos anos como disc\u00edpulo e auxiliar preciso dizer, com toda a for\u00e7a de minha pr\u00f3pria severidade, que nunca o vi desmerecer minha exigente admira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o quero dizer que n\u00e3o tivesse defeitos. Tinha-os, conheci-os, por experi\u00eancia pr\u00f3pria e por experi\u00eancia alheia. Mas vi Gustavo Cor\u00e7\u00e3o enfrentando situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, tanto com rela\u00e7\u00e3o ao risco de vida que correu mais de uma vez quanto com rela\u00e7\u00e3o a momentos da vida que um homem maduro sabe que em geral constrange as pessoas comuns quase inevitavelmente. Por exemplo, fui testemunha de uma dif\u00edcil entrevista com o Cardeal D. Jaime em que este, cercado por todas as manifesta\u00e7\u00f5es de respeito e submiss\u00e3o que, como leigos, ent\u00e3o prestamos a um verdadeiro Cardeal, dizia ao Prof. Cor\u00e7\u00e3o, ao Prof. Gladstone Chaves de Melo e a mim: \u201cSei que os senhores devem ter motivos de queixa porque eu n\u00e3o levei adiante o projeto que lhes havia dito ser minha inten\u00e7\u00e3o promover\u201d. Qualquer pessoa na posi\u00e7\u00e3o de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o, com seu renome e sua responsabilidade, teria dito uma dessas frases de conveni\u00eancia que tais situa\u00e7\u00f5es sugerem ainda mais naquela \u00e9poca em que, parece, s\u00f3 assim se falava a Cardeais. Mas o Dr. Cor\u00e7\u00e3o respondeu: \u201cSenhor Cardeal, n\u00e3o creio que o Sr. preferisse que n\u00f3s come\u00e7\u00e1ssemos esta entrevista mentindo. Por isso vejo-me for\u00e7ado a lhe confessar que, efetivamente, o senhor nos deixou desapontados\u201d. Como poderia eu impedir que crescesse minha admira\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(Revista Perman\u00eancia, N\u00b0 116 a 119, Ano XI)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Testemunho J\u00falio Fleichman N\u00e3o me foi poss\u00edvel escrever o Editorial deste n\u00famero limitando-me a dizer alguma coisa a respeito de Gustavo Cor\u00e7\u00e3o somente na perspectiva da nossa PERMAN\u00caNCIA. 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